Arqueólogos descobrem estrutura misteriosa sob cidade do Egito com ajuda de satélite

Uso coordenado de radares espaciais e tomografia elétrica permitiu localizar um possível complexo religioso de 2.600 anos enterrado sob o Delta do Nilo
Layse Ventura
Layse Ventura 02/04/2026 16:23, atualizada em 03/04/2026 08:01
Arqueólogos trabalhando em escavação no Egito com auxílio de tecnologia. Sobre o solo de terra e tijolos de barro, há uma projeção digital em 3D (wireframe) que mostra a planta de um templo antigo enterrado, ilustrando o uso de radares e tomografia elétrica para descobertas arqueológicas
Ilustração mostra como a tecnologia de radar e tomografia elétrica permite "enxergar" estruturas enterradas há milênios no Egito - Imagem: Layse Ventura via Gemini / Olhar Digital

Cientistas estão utilizando métodos avançados de escaneamento para “enxergar” através de camadas de solo e lama no noroeste do Egito. O esforço resultou na descoberta de uma estrutura misteriosa enterrada nas ruínas da antiga cidade de Buto, hoje conhecida como Tell el-Fara’in (“Colina dos Faraós”), conforme detalha um estudo publicado na revista científica Acta Geophysica.

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A região apresenta desafios geográficos para a arqueologia tradicional, como depósitos de lama e lençóis freáticos elevados, que tornam escavações profundas ainda mais difíceis. Para superar esses obstáculos, a equipe liderada pelo arqueólogo Mohamed Abouarab utilizou imagens de radar do satélite Sentinel-1 para identificar anomalias na superfície que sugeriam a presença de construções ocultas.

Tecnologia de “tomografia” do solo

Após a detecção via satélite, os pesquisadores aplicaram uma técnica chamada Tomografia de Resistividade Elétrica (ERT). O processo funciona de forma semelhante a uma tomografia computadorizada, mas aplicada ao terreno: eletrodos enviam correntes elétricas ao solo e a resistência encontrada permite mapear o que está escondido abaixo.

De acordo com os dados do estudo, a técnica revelou uma estrutura de tijolos de barro com cerca de 500 metros quadrados (25 por 20 metros), localizada entre 3 e 6 metros de profundidade. O achado estava protegido por camadas de entulho e cerâmica acumuladas ao longo de séculos.

Infográfico científico composto por quatro painéis sobre a descoberta em Buto, Egito. O painel superior mostra um mapa digital 3D da área de Kom C e o mapeamento por tomografia elétrica (ERT). O painel inferior exibe uma seção vertical das camadas de solo escavadas e fotografias de artefatos reais encontrados, como amuletos e pequenas estatuetas da 26ª Dinastia.
Da tecnologia ao artefato: o gráfico mostra o mapeamento 3D via sensores (topo) e os objetos físicos, como amuletos de divindades, recuperados após a escavação guiada pelos dados – Imagem: Acta Geophysica / Divulgação

Relíquias da 26ª Dinastia

Escavações posteriores confirmaram que a construção remonta ao período Saíta, há cerca de 2.600 anos. Essa foi a última dinastia de governantes nativos egípcios antes da conquista persa.

No local, os arqueólogos encontraram diversas evidências de atividades rituais, conforme relatado no periódico Acta Geophysica:

  • Amuletos e estatuetas: representações de divindades como Ísis, Hórus e a deusa serpente Wadjet.
  • Figura híbrida: um objeto raro que combina elementos de um falcão, um babuíno e de Patikos (uma divindade anã).
  • Estrutura religiosa: a presença de altares sugere que o local funcionava como um templo, um complexo de serviços religiosos ou uma residência para sacerdotes.

O futuro das buscas no Delta

O sucesso da metodologia abre precedentes para novas descobertas. Segundo os autores do artigo, os resultados demonstram a eficácia de unir sensoriamento remoto e medições geofísicas para detectar assentamentos enterrados em áreas complexas.

A equipe planeja agora expandir o uso desses escaneamentos para profundidades ainda maiores. Conforme aponta o ScienceAlert, os pesquisadores suspeitam que, além desta estrutura, outro templo ainda maior possa estar escondido sob uma espessa camada de argila na mesma região.

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Layse Ventura

Layse Ventura é editora de SEO no Olhar Digital e mestre pela UFSC.

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