Investimentos bilionários em data centers aceleram a competitividade da IA no Brasil e no mundo

Hoje, os data centers no mundo inteiro consomem cerca de 415 terawatts-hora (TWh) de eletricidade por ano
Fabrício Carraro
Fabrício Carraro, editado por Lucas Soares 27/04/2026 07:00, atualizada em 27/04/2026 08:27
Data center com servidores e representação gráfica de inteligência artificial
A corrida por mais poder computacional da IA também aumenta a demanda por novas estruturas de energia. - Imagem: FOTOGRIN/Shutterstock

A Inteligência Artificial deixou de ser uma promessa tecnológica para se tornar uma ferramenta presente no cotidiano de pessoas e empresas. Em poucos anos, soluções baseadas em IA passaram a apoiar tarefas no trabalho, nos negócios e na educação, ampliando a capacidade de aprendizado, produtividade e inovação em diferentes setores.

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Porém, existe um custo para que tudo isso seja possível. Ele é financeiro, sem dúvida, mas também envolve um outro aspecto que pode ser menos óbvio de se perceber: à medida que o uso da inteligência artificial aumenta, a necessidade de construir infraestrutura que suporte esse crescimento também se eleva. 

O cenário que já podemos observar é de um investimento de bilhões de dólares para construir data centers que alimentam serviços de IA generativa, como ChatGPT e Gemini. No Brasil, já existem 204 data centers em operação, segundo o Data Center Map, embora nenhum tenha sido projetado originalmente para IA. 

Ainda assim, ao menos quatro projetos dedicados à tecnologia já foram anunciados. Um exemplo vem do Ceará, onde um complexo de 200 MW de capacidade inicial e R$ 50 bilhões em investimentos, liderado pela Omnia em parceria com a Casa dos Ventos, deve gerar cerca de 20 mil empregos diretos e indiretos. Segundo a Reuters, o espaço poderá ser ocupado pela ByteDance, dona do TikTok.

Empresas de tecnologia querem levar data centers à órbita, mas especialistas veem desafios inéditos
Empresas de tecnologia querem levar data centers à órbita, mas especialistas veem desafios inéditos (Imagem: vectorfusionart / Shutterstock)

O que muda com os data centers de inteligência artificial

Para começar a entender essa discussão, é preciso ter em mente que, diferentemente dos data centers mais comuns, os de IA precisam de ainda mais capacidade computacional para treinar e executar modelos de linguagem. Esse tipo de processamento exige grandes quantidades de energia e, como consequência, gera muito calor.

Hoje, os data centers no mundo inteiro consomem cerca de 415 terawatts-hora (TWh) de eletricidade por ano, segundo a Agência Internacional de Energia, e até 20% desse total já pode estar ligado à inteligência artificial. O chamado efeito Joule faz com que aparelhos eletrônicos esquentem quando estão em funcionamento intenso. Por isso, é necessário utilizar sistemas de resfriamento.

Computadores, por exemplo, possuem mecanismos próprios para controlar a temperatura, e a mesma lógica se aplica aos data centers de IA, que necessitam de grandes níveis de água para ajudar no mesmo processo. 

Nesse cenário, o Brasil possui características que dão vantagens para a construção de centros de dados como esses em nosso solo devido a predominância de fontes renováveis na matriz elétrica, custo relativamente menor de energia na comparação com outros países da América Latina e a folga na capacidade de geração do sistema elétrico brasileiro (produz mais energia do que consome). Tudo isso tem atraído a atenção de gigantes da tecnologia, que cada vez mais buscam locais para construir seus projetos.

Os impactos econômicos e ambientais da corrida

Por um lado, esse movimento pode representar avanços econômicos importantes para o país. Sucesso que depende de alguns fatores fundamentais, como incentivos fiscais, infraestrutura elétrica adequada e regras regulatórias claras. Se tudo ocorrer da forma ideal, o Brasil pode se tornar o principal hub de data centers da América Latina, atendendo não apenas o mercado interno, mas também outros países e regiões do mundo. 

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O impacto econômico disso pode ser extremamente significativo. Para se ter ideia, em nível global, estimativas da Moody’s Ratings indicam que os investimentos destinados à ampliação da capacidade de data centers podem chegar a cerca de R$ 16,11 trilhões nos próximos cinco anos. Esse movimento mobiliza cadeias como construção civil, infraestrutura energética e desenvolvimento tecnológico. Além disso, pode estimular a inovação, ampliar a produção de equipamentos e gerar empregos.

Por outro lado, data centers funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana. Se projetos de fato começarem a ser construídos, a demanda por energia pode crescer consideravelmente. Em um país cuja geração elétrica depende em grande parte de fontes sensíveis às condições climáticas, como hidrelétricas e energia solar, essa expansão pode pressionar o sistema energético, especialmente em períodos de seca ou baixa incidência solar. 

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Com as mudanças climáticas, esses sistemas nem sempre conseguem operar em sua capacidade máxima. Nesse cenário, existe o risco de que seja necessário recorrer a fontes fósseis para suprir parte da demanda energética, uma solução mais poluente, que aumenta as emissões de carbono. Uma alternativa que vem cada vez mais sendo planejada globalmente é a energia nuclear, uma fonte que existe, mas é subaproveitada no Brasil e fora, mas que estamos vendo sua demanda crescer muito devido ao aumento natural da demanda energética mundial, conectada ou não à IA.

No fim das contas, a corrida global pela infraestrutura da inteligência artificial já começou e envolve investimentos bilionários e disputas estratégicas entre países. Para o Brasil, a oportunidade é real, mas o resultado dependerá da capacidade de planejamento. Apenas com expansão da infraestrutura elétrica, incentivos bem estruturados e regras ambientais claras será possível transformar essa corrida tecnológica em desenvolvimento econômico sustentável.

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Fabrício Carraro
Fabrício Carraro

Program Manager na Alura, maior ecossistema de educação em tecnologia do Brasil

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