Derretimento invisível: canais sob gelo da Antártida aceleram elevação do mar

Estudo norueguês revela que água quente aprisionada em sulcos na base das plataformas de gelo multiplica taxa de derretimento local
Morro na Antártida
Lendas sobre o avistamento do continente gelado existem há séculos (Imagem: Oleksandr Matsibura/Shutterstock)

O nível global do mar pode subir mais rápido do que as projeções atuais indicam. A razão está embaixo das plataformas de gelo da Antártida — mais precisamente, em longos sulcos que cortam sua parte inferior. Uma nova pesquisa conduzida na Noruega mostra que esses canais retêm água oceânica relativamente quente, aumentando drasticamente o derretimento e ameaçando a estabilidade de todo o sistema de gelo do continente.

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As plataformas de gelo são gigantescas extensões de geleiras que flutuam na superfície da água. Elas funcionam como verdadeiros contrafortes: seguram o gelo terrestre atrás delas. Se essas barreiras se tornam mais finas e frágeis, o deslizamento do gelo para o oceano se acelera, elevando o nível do mar em todo o mundo.

O estudo, publicado por pesquisadores do Centro de Pesquisa Polar iC3, em Tromsø, usou a plataforma de gelo Fimbulisen, na Antártida Oriental, como laboratório natural. A região é considerada mais fria e, portanto, teoricamente menos ameaçada a curto prazo do que outras partes do continente. Mas os resultados foram alarmantes.

Neve da Antártida esconde diversos vulcões que podem acordar com o derretimento do gelo. Crédito: Mozgova – Shutterstock

O papel dos canais subglaciais

Os cientistas combinaram um mapa detalhado do relevo inferior da plataforma com um modelo computacional de alta resolução da circulação oceânica sob o gelo. A conclusão é clara: onde a base é canalizada, pequenas células de inversão retêm a água mais quente, impedindo que ela seja rapidamente levada para longe. Nesses pontos, a taxa de derretimento pode aumentar em até dez vezes localmente.

“Descobrimos que o formato da parte inferior da plataforma de gelo não é apenas uma característica passiva. Ele pode reter ativamente o calor do oceano exatamente nos locais onde o derretimento extra é mais importante”, explica o autor principal, Tore Hattermann.

O mais preocupante é que a Fimbulisen está na Antártida Oriental, uma área freqüentemente ignorada nos cenários mais pessimistas de mudança climática. Mesmo ali, influxos modestos de água profunda mais quente — algo que já foi observado e deve se intensificar no futuro — podem ter um efeito desproporcional quando a base do gelo é canalizada.

“Isso significa que algumas plataformas de gelo que os cientistas geralmente consideram frias podem ser mais frágeis do que se imaginava”, afirma Qin Zhou, co-líder do estudo.

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(Imagem: Mozgova/Shutterstock)

Modelos climáticos desatualizados

Os pesquisadores alertam que os modelos climáticos e de calotas polares atuais não capturam esse fenômeno em pequena escala. “Eles correm o risco de subestimar a sensibilidade das plataformas de gelo ‘frias’ ao longo da costa da Antártida Oriental a pequenas mudanças ou ao aquecimento das águas costeiras”, diz Hattermann.

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O problema tem três frentes de impacto. Para a ciência, é um chamado para refinar os modelos. Para as políticas públicas, decisões sobre planejamento costeiro e adaptação dependem de projeções confiáveis do nível do mar. Para a ecologia, mudanças na água de degelo podem alterar a circulação oceânica e afetar ecossistemas marinhos ao redor da Antártida.

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O derretimento acelerado dentro dos canais não apenas enfraquece a plataforma localmente, mas também pode criar um ciclo de retroalimentação: canais mais profundos e largos retêm ainda mais calor, tornando o gelo mais fino e reduzindo sua capacidade de conter as geleiras que o alimentam. Em um mundo que já se prepara para os efeitos da elevação do mar, a mensagem do estudo é clara: o gelo pode estar derretendo mais rápido do que os relógios do clima estão marcando.

Lucas Soares
Lucas Soares

Lucas Soares é editor de Ciência e Espaço no Olhar Digital e formado em Jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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