Cristais de açúcar podem ajudar a desvendar o mistério da matéria escura, diz pesquisa com brasileiros

Pesquisadores propõem uso de cristais de sacarose para detectar partículas de baixa massa que escapam dos experimentos atuais
cristal de açucar
cristal de açucar - Shutterstock

Um estudo publicado no periódico IEEE Transactions on Applied Superconductivity descreveu uma abordagem inusitada para tentar detectar a matéria escura: o uso de cristais de açúcar. A pesquisa foi conduzida por uma colaboração internacional que incluiu cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Max Planck de Física, na Alemanha.

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De acordo com o artigo, os cristais de sacarose apresentam propriedades especialmente adequadas para a captação de partículas de matéria escura de baixa massa, que ainda estão fora do alcance da maioria dos experimentos atuais. A ideia foi explorar o alto teor de hidrogênio desses cristais — átomos leves que permitem uma transferência de energia mais eficiente em eventuais interações.

Os testes foram realizados em laboratórios subterrâneos, com os cristais resfriados a temperaturas próximas do zero absoluto (cerca de 15 milikelvin, ou -273,135°C). Nessa condição, os cristais foram acoplados a sensores extremamente sensíveis, como termômetros supercondutores. Quando uma partícula interagia com o material, ela depositava uma quantidade mínima de energia, gerando um pulso térmico e, eventualmente, emissão de luz (cintilação). A proporção entre os dois sinais permitiu distinguir diferentes tipos de partículas e reduzir o ruído de fundo.

“A pesquisa sobre matéria escura funciona como uma Fórmula 1 da ciência”, afirmou ao Jornal da USP o professor Pedro Guillaumon, do Instituto de Física da USP e um dos autores do estudo. “Tecnologias levadas ao limite hoje, como na F1, tornam-se amanhã as soluções em carros comuns e aplicações industriais, ambientais e de sensoriamento.”

Equipe chinesa identifica estrelas hipervelozes com RR Lyrae e Gaia e avança no mapeamento da matéria escura no halo da Via Láctea. (Imagem: Artsiom P/Shutterstock)
matéria escura – Imagem: Artsiom P/Shutterstock

Pesquisa ainda é inicial

Os pesquisadores ressaltaram que a linha de investigação ainda está em fase inicial. Questões como o desempenho do limiar de energia e os métodos de calibração permanecem em aberto. Caso os parâmetros se mostrem adequados, os cristais de açúcar poderão ser produzidos em maior escala e incorporados em fases futuras de experimentos como o CRESST (Cryogenic Rare Event Search with Superconducting Thermometers), instalado no Laboratório Nacional de Gran Sasso, na Itália.

Atualmente, experimentos como o DarkSide e o próprio CRESST já operam com detectores de argônio líquido e calorímetros criogênicos, mas nenhum deles obteve evidências conclusivas da matéria escura. A nova proposta com cristais de açúcar foi validada em uma primeira fase com semicondutores NTD (Neutron Transmutation Doping). A próxima etapa prevê o uso de sensores supercondutores para aumentar a precisão.

Cristais de áçucar e a matéria escura

Além do impacto na física fundamental — como a compreensão da formação do universo e a composição da matéria escura, que corresponde a cerca de 26% de todo o conteúdo cósmico —, os pesquisadores apontaram que o desenvolvimento de detectores ultrassensíveis pode gerar aplicações práticas em computação quântica, sensores industriais e metrologia de precisão. O estudo foi descrito no artigo The SWEET Project: Probing Sugar Crystals for Direct Dark Matter Searches.

Lucas Soares
Lucas Soares

Lucas Soares é editor de Ciência e Espaço no Olhar Digital e formado em Jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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