O passado de Marte pode ser diferente do que imaginávamos, segundo pesquisa chinesa

Há presença de cristais minerais que só poderiam ter se formado em água parada sobre área do solo marciano muito mais jovem do que qualquer estimativa anterior
Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli, editado por Bruno Capozzi 10/08/2026 23:06, atualizada em 11/08/2026 07:46
Marte tomado em parte por água
Marte já foi um planeta rico em água - Imagem: Vadim Sadovski/Shutterstock

Por décadas, a visão dominante entre astrônomos era a de que a superfície de Marte congelou há cerca de três bilhões de anos e permaneceu assim desde então — cenário em que qualquer água líquida teria sido aprisionada no subsolo ou perdida para o espaço há muito tempo. Uma nova análise de dados do rover Zhurong, da China, coloca essa premissa em xeque.

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Pesquisadores liderados por Jiacheng Liu, da Universidade de Hong Kong, reexaminaram dados coletados pelo Zhurong e encontraram evidências que contradizem essa teoria.

Se as interpretações da equipe estiverem corretas, elas indicariam a presença de cristais minerais que só poderiam ter se formado em água parada sobre uma área do solo marciano muito mais jovem do que qualquer estimativa anterior. O estudo foi publicado na Nature Astronomy.

A missão do Zhurong

O rover Zhurong pousou em Utopia Planitia, vasta planície no hemisfério norte de Marte, em maio de 2021. Durante 93 dias, coletou dados sobre a superfície marciana antes de ter sua missão interrompida por uma tempestade de poeira em 2022.

Nesse período, as câmeras do rover fotografaram rochas planas e brilhantes emergindo da areia, e seus instrumentos registraram leituras que sugeriam que essas rochas eram ricas em minerais contendo água. Com base apenas nas imagens, porém, os pesquisadores não conseguiram determinar com precisão a composição mineral das rochas.

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O que os cristais revelam

  • No novo estudo, a equipe de Liu revisitou os dados remanescentes do Zhurong com maior nível de detalhe, concentrando-se na forma de pequenos cristais visíveis logo abaixo da superfície das rochas: alguns com curvatura semelhante a folhas de repolho, outros com ramificações que lembram árvores de Natal;
  • Por meio de medições combinadas dos instrumentos de espectroscopia a laser e infravermelho do rover, os pesquisadores concluíram que essas formas foram produzidas por selenita, forma de gipsita de cristais grandes que só se forma ao cristalizar diretamente a partir de água salgada concentrada;
  • Com base na espessura da camada mineral identificada, a equipe calculou que sua formação teria exigido o equivalente a uma lâmina d’água entre 6,25 e 25 metros de profundidade acumulada na superfície ao longo do tempo;
  • A partir da densidade de crateras ao redor da área, os pesquisadores estimaram a idade do terreno em aproximadamente 757 milhões de anos;
  • A hipótese da equipe é que a água teria vindo de salmoura subterrânea, derretida e empurrada para cima pelo calor de atividade vulcânica e, então, aprisionada e concentrada à medida que congelava de cima para baixo.

Implicações para missões futuras

Se as medições da equipe forem precisas, elas indicariam que água líquida na superfície de Marte pode ter persistido centenas de milhões de anos mais tarde do que a maioria dos modelos científicos prevê. Como cristais de selenita podem selar pequenas bolsas do líquido em que se formaram, eles poderiam preservar um registro químico desse ambiente antigo.

Por isso, essa área de Utopia Planitia pode se tornar um candidato relevante para inspeção mais detalhada por rovers futuros, equipados para estudar os ambientes antigos preservados dentro das estruturas cristalinas.

Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.

Bruno Capozzi
Bruno Capozzi

Bruno Capozzi é jornalista, mestre em Ciências Sociais e editor executivo do OD.

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