Guerra nuclear e IA podem extinguir a humanidade até 2100, alertam especialistas

Avaliação publicada na revista The Lancet identifica 17 grandes ameaças à saúde global e aponta caminhos para reduzir os riscos nas próximas décadas
Ana Luiza Figueiredo
Ana Luiza Figueiredo, editado por Bruno Capozzi 11/10/2026 12:47, atualizada em 12/10/2026 21:19

Uma avaliação internacional de riscos aponta que a humanidade pode enfrentar a extinção até 2100 em decorrência de uma guerra nuclear ou do uso malicioso da inteligência artificial (IA). Os dois cenários estão entre as 17 principais ameaças à saúde humana identificadas por uma comissão de especialistas, que também inclui a crise climática, a desnutrição infantil e a redução da ajuda internacional.

Continua após a publicidade

O levantamento foi elaborado pela Comissão da The Lancet sobre Ameaças Globais à Saúde no Século 21, formada por 35 especialistas. Segundo os pesquisadores, os riscos estão interligados e precisam ser enfrentados de maneira conjunta. Apesar da gravidade dos cenários, o grupo afirma que existem medidas viáveis para combater cada uma das ameaças.

Guerra nuclear e inteligência artificial estão entre os maiores riscos

De acordo com o relatório, o uso malicioso da IA, inclusive para desenvolver armas biológicas, e um conflito nuclear acompanhado de fome em escala global apresentam riscos de extinção nos próximos 75 anos. Os especialistas ressaltam que a probabilidade desses cenários permanece baixa, mas suas consequências potenciais seriam extremas.

No caso de uma guerra nuclear, a liberação de partículas suficientes na alta atmosfera poderia bloquear a luz solar e provocar uma crise alimentar. Já a inteligência artificial poderia ser utilizada na criação de armas biológicas capazes de causar danos em larga escala.

Um editorial publicado pela The Lancet junto com o relatório também alertou para a dimensão dos possíveis impactos desses cenários. Segundo o texto, caso essas ameaças se concretizem, os danos poderiam provocar uma catástrofe para a humanidade.

Christopher Murray, copresidente da comissão e diretor do Instituto de Métricas e Avaliação da Saúde da Universidade de Washington, afirmou que as decisões tomadas atualmente por líderes políticos terão efeitos sobre a saúde e o bem-estar das próximas gerações.

Quais são as 17 ameaças identificadas

A comissão classificou os riscos com base no número estimado de anos de vida saudável que poderiam ser perdidos em razão de doenças, incapacidades ou mortes prematuras. A medida utilizada é conhecida como anos de vida ajustados por incapacidade (DALYs, na sigla em inglês).

Além da guerra nuclear e do uso malicioso da IA, a lista reúne outras ameaças consideradas catastróficas por poderem provocar a perda acumulada de mais de 1 bilhão de DALYs. Entre elas estão:

  • Poluição do ar;
  • Resistência aos antimicrobianos;
  • Desnutrição infantil;
  • Crise climática;
  • Conflitos convencionais;
  • Redução da ajuda internacional;
  • Consumo elevado de álcool;
  • Pressão arterial elevada;
  • Desigualdade de renda;
  • Baixo nível de escolaridade;
  • Pandemias de ocorrência natural;
  • Obesidade;
  • Problemas de saúde mental;
  • Tabagismo;
  • Envelhecimento pouco saudável.

Para integrar a lista, as ameaças precisavam apresentar potencial para causar grandes perdas de anos de vida saudável e contar com possíveis medidas de prevenção ou mitigação.

Redução das emissões e da ajuda internacional pode evitar perdas

O relatório também estima o impacto que determinadas medidas poderiam ter sobre a saúde global. Limitar o aquecimento global a aproximadamente 1,8 °C, em vez de permitir que alcance 4,4 °C, poderia evitar a perda de 1,89 bilhão de anos de vida saudável, segundo as projeções da comissão.

Continua após a publicidade

Os pesquisadores também destacam diferenças regionais. Em áreas de renda mais alta, doenças não transmissíveis, como obesidade e problemas de saúde mental, aparecem como ameaças predominantes. Já em regiões de renda mais baixa, fatores como o baixo nível de escolaridade têm maior influência nas perdas de saúde.

Outro ponto de preocupação é a diminuição da ajuda internacional. Grandes países doadores, incluindo Estados Unidos e Reino Unido, anunciaram cortes expressivos nos gastos com assistência ao exterior ao longo do último ano.

Segundo a avaliação, um possível colapso ou uma redução acentuada da ajuda internacional destinada à saúde poderia provocar a perda de até 1,5 bilhão de DALYs antes de 2100. Quase 70% desse total corresponderia à África Subsaariana, região que também enfrenta os impactos da desnutrição infantil.

Especialistas defendem prevenção e preparação

Continua após a publicidade

Ibrahim Abubakar, integrante da comissão e professor de epidemiologia de doenças infecciosas na University College London (UCL), afirmou que o objetivo do levantamento não é alarmar a população, mas oferecer informações para orientar decisões de governos e formuladores de políticas públicas.

A comissão recomenda que os líderes atuem antes que os riscos se transformem em crises, com investimentos em inovações tecnológicas e no fortalecimento dos sistemas de saúde.

O grupo iniciou o trabalho há três anos com foco em três grandes ameaças: conflitos, mudanças climáticas e pandemias. Segundo Murray, a análise revelou um conjunto mais amplo de riscos que exige recursos financeiros e equipes dedicadas à antecipação, à prevenção e à preparação.

A avaliação será atualizada anualmente para reexaminar as 17 ameaças identificadas, incorporar novos dados e considerar possíveis riscos emergentes.

Ana Luiza Figueiredo
Ana Luiza Figueiredo

Ana Figueiredo é editora de tecnologia do Olhar Digital. É formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

Bruno Capozzi
Bruno Capozzi

Bruno Capozzi é jornalista, mestre em Ciências Sociais e editor executivo do OD.

Gostou? Compartilhe! Ajude mais pessoas a ficarem informadas.
Prefira o OD no Google
Ícone Whatsapp Ícone Whatsapp Ícone Instagram Ícone Facebook Ícone Linkedin Ícone Telegram Ícone Email