Meta nega interferência nas eleições brasileiras e atribui problemas a falhas técnicas

Empresa afirma que incidentes envolvendo contas de Lula e ferramentas de IA foram corrigidos; reportagem da Folha cita mensagens internas sobre restrições ao candidato e recomendações de conteúdo ligado a Flávio Bolsonaro
Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli, editado por Ana Luiza Figueiredo 16/10/2026 17:50, atualizada em 16/10/2026 18:41
Aplicativos do Facebook, Instagram e WhatsApp aparecem em um celular
Meta é a empresa que controla redes sociais como Facebook e Instagram e o popular app de mensagens WhatsApp - Imagem: FotoField / Shutterstock

A Meta publicou, nesta sexta-feira (16), um posicionamento em que nega interferir nas eleições brasileiras de 2026 e afirma que problemas recentes envolvendo as campanhas presidenciais foram causados por falhas técnicas. A empresa, responsável por Facebook, Instagram, Threads e WhatsApp, sustenta que suas regras são aplicadas igualmente a candidatos e partidos, sem favorecimento político.

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A manifestação ocorre em meio a acusações da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de que conteúdos e contas ligados ao presidente sofreram restrições nas plataformas. Em publicação no blog institucional, a companhia detalhou episódios envolvendo anúncios, contagem de visualizações e a ferramenta de inteligência artificial Meta AI.

A versão da empresa, porém, divide espaço com relatos publicados pela Folha de S.Paulo. Segundo a reportagem, mensagens internas de funcionários da Meta registraram restrições que prejudicaram contas de Lula e recomendações algorítmicas do perfil e do canal de WhatsApp de Flávio Bolsonaro (PL).

Semana trouxe polêmica sobre comportamento da IA da Meta em relação aos candidatos à Presidência do Brasil, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
Semana trouxe polêmica sobre comportamento da IA da Meta em relação aos candidatos à Presidência do Brasil, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) – Imagem: gerada por IA

Meta aponta falhas em anúncios e visualizações

  • Um dos episódios citados pela empresa ocorreu em 23 de setembro, quando a conta de anúncios da campanha de Lula foi desativada por pouco mais de uma hora;
  • Segundo a Meta, o bloqueio aconteceu depois que um anúncio foi classificado incorretamente como possível tentativa de se passar por um programa social do governo durante uma análise antifraude;
  • A empresa afirma que a situação foi corrigida e ressalta que as páginas oficiais da campanha no Facebook e no Instagram não foram bloqueadas;
  • Outro incidente ocorreu em 7 de outubro, quando uma falha nos sistemas de contagem de visualizações de vídeos afetou os Reels. Durante cerca de cinco horas, os números ficaram congelados, incorretos ou zerados, embora os conteúdos continuassem sendo distribuídos normalmente;
  • De acordo com a Meta, o problema atingiu criadores em mais de 100 países e não ficou restrito ao Brasil ou a uma campanha específica. A companhia também afirma que a campanha de Flávio Bolsonaro relatou o mesmo problema naquele dia. Segundo a empresa, a conta oficial de Lula no Instagram registrou desempenho acima de seu próprio patamar recente durante o período;
  • A Meta também menciona uma falha identificada em 9 de outubro no Gerenciador de Anúncios. Causado por uma atualização de código, o problema impediu temporariamente a criação de anúncios a partir de publicações já existentes no Instagram. A empresa diz que milhares de anunciantes em diferentes países foram afetados e que a falha foi resolvida após a reversão da atualização, nas primeiras horas de 10 de outubro;
  • Segundo a companhia, a limitação não impediu a criação de anúncios por meio de uploads diretos no Gerenciador de Anúncios. Os anúncios que já estavam em veiculação, incluindo os da campanha de Lula, também não teriam sido afetados.

Mensagens internas relatam restrições à campanha de Lula

A explicação da Meta contrasta com informações publicadas pela Folha em reportagem baseada em mensagens internas da empresa. Segundo o jornal, funcionários reconheceram que restrições prejudicaram contas de Lula no Instagram e relataram recomendações algorítmicas do perfil de Flávio Bolsonaro na plataforma e de seu canal no WhatsApp.

Um dos episódios relatados pela Folha envolve a impossibilidade de impulsionar publicações já feitas no feed do Instagram por quase 24 horas, a partir de 9 de outubro. A campanha ainda conseguia promover novos conteúdos por outros formatos, mas não podia pagar para ampliar o alcance das publicações existentes no feed.

A campanha de Lula estimou que a restrição fez com que cerca de 1,3 milhão de pessoas deixassem de ver anúncios. Esse número é uma estimativa apresentada pela própria campanha, e não uma medição independente.

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Segundo a Meta, o Meta AI foi temporariamente impedido de recomendar candidatos ou gerar imagens deles no Brasil, como parte das medidas adotadas para cumprir as regras eleitorais – Imagem: jackpress/Shutterstock

A Reuters repercutiu o relato da Folha nesta sexta-feira. A agência informou que as mensagens internas mencionadas pelo jornal indicavam tanto o impacto das restrições sobre contas de Lula quanto recomendações de conteúdo associado a Flávio Bolsonaro.

A Meta, por sua vez, atribui os problemas a falhas técnicas e nega ter direcionado suas ferramentas para favorecer um candidato. A empresa afirma que os incidentes descritos em sua publicação tiveram explicações específicas e não demonstram manipulação da distribuição de conteúdo.

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Meta AI também entrou na discussão

A ferramenta de inteligência artificial (IA) da empresa é outro ponto de disputa. Segundo a Meta, o serviço foi temporariamente impedido de recomendar candidatos ou gerar imagens deles no Brasil, como parte das medidas adotadas para cumprir as regras eleitorais.

A empresa cita pesquisa independente publicada pelo InternetLab em 1º de outubro, segundo a qual a Meta AI quase não classificou nem indicou candidaturas quando solicitada a fazer recomendações.

A companhia também reconheceu uma falha nas proteções da ferramenta em 14 de outubro. Segundo sua explicação, os sistemas bloqueavam pedidos que mencionavam explicitamente nomes, como “Lula”, “Luiz Inácio Lula da Silva”, “Bolsonaro” e “Flávio Bolsonaro”, mas nem sempre identificavam candidatos quando um primeiro nome comum aparecia acompanhado do número eleitoral.

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Com isso, alguns pedidos usando “Flávio” e seu número poderiam gerar imagens de cartazes. A mesma brecha também permitia solicitações com “Luiz” e o número de Lula. A Meta afirma que corrigiu o problema no mesmo dia.

Caso chegou à Justiça Eleitoral

As acusações também foram levadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na quinta-feira (15), um ministro da Corte determinou que a Meta não limitasse injustificadamente o alcance de conteúdo político relacionado a nenhum dos dois candidatos até o fim da campanha do segundo turno. A decisão também estabeleceu que a Meta AI não deve favorecer qualquer candidatura ao gerar conteúdo eleitoral.

Em sua publicação, a Meta afirma ter apresentado ao tribunal uma defesa técnica e cita um trecho de decisão segundo o qual, naquela fase do processo, não havia evidência suficiente de privilégio partidário deliberado da plataforma. A empresa sustenta que as medidas adotadas decorreram, em grande parte, do cumprimento de ordens judiciais e das regras eleitorais brasileiras.

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A companhia diz que continuará se defendendo no processo e que pretende corrigir erros técnicos, cumprir a legislação e garantir condições iguais aos usuários de suas plataformas.

Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.

Ana Luiza Figueiredo
Ana Luiza Figueiredo

Ana Figueiredo é editora de tecnologia do Olhar Digital. É formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

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