Seu médico usa IA? CFM criou regras para isso; entenda o que muda para você

O Olhar Digital conversou com especialistas da área para entender (e te explicar) a resolução do CFM nº 2.454/2026
Imagem de médico segurando bolha de inteligência artificial (IA)
CFM regulamentou o uso de inteligência artificial (IA) na medicina - Imagem: khunkornStudio/Shutterstock

A inteligência artificial (IA) avança a passos largos em muitas áreas. Uma delas é a medicina. Em fevereiro de 2026, o Conselho Federal de Medicina publicou regras para o uso da tecnologia na área. Essas regras começaram a valer em 26 de agosto.

O objetivo da resolução do CFM nº 2.454/2026 é balizar o uso da tecnologia para que ela funcione como instrumento de apoio ao trabalho médico.

O Olhar Digital conversou com especialistas da área para entender (e te explicar) as regras recentes. Confira abaixo os destaques.

‘Ponto central da resolução é: a IA apoia o médico, mas decisão é sempre humana’, diz especialista

No que diz respeito aos profissionais da saúde, a resolução estabelece que a autonomia e a responsabilidade do médico permanecem integrais.

Isso significa que a IA jamais pode substituir a decisão clínica final. O médico é o responsável por diagnósticos, tratamentos e prescrições.

Ilustração no estilo colagem de médico com cabeça de notebook
O principal benefício do uso da IA na medicina é o ganho de tempo, mas existem riscos e limites – Imagem: Collagery/Shutterstock

Aliás, o profissional tem o direito de recusar ou parar de usar ferramentas de IA que considere inadequadas ou ineficazes. E deve registrar no prontuário do paciente sempre que usar essa tecnologia.

“A Resolução CFM nº 2.454/2026 é o primeiro marco brasileiro que define regras claras para o uso de inteligência artificial na medicina”, diz Karlyse Claudino Belli, especialista em IA aplicada à saúde, em entrevista ao Olhar Digital.

“E seu ponto central é simples: a IA apoia o médico, mas a decisão é sempre humana”, acrescenta Belli, que também é Chief Business Data Officer (CBDO) da iHealth.

Para especialista, a resolução viabiliza três garantias para você: “o direito de saber quando a IA participou do seu atendimento, o direito de recusar seu uso e maior garantia de que diagnósticos e tratamentos continuam sendo comunicados por uma pessoa, não por um algoritmo”.

Níveis de risco

Para organizar a aplicação da IA na medicina, a resolução classifica níveis de risco. São eles:

  • Baixo: Aplicações com impacto mínimo ou inexistente sobre a saúde e direitos dos pacientes. Não exercem influência decisória direta em diagnósticos ou tratamentos, atuando em tarefas operacionais ou administrativas (como agendamento de consultas ou gestão logística);
  • Médio: Ferramentas que apresentam potencial de impacto adverso, mas que é totalmente mitigável pela supervisão humana ativa e controles de segurança. Apoiam decisões clínicas e operacionais importantes sem agir de forma autônoma;
  • Alto: Aplicações com elevado potencial de causar danos físicos, psíquicos ou morais aos indivíduos, ou impactos relevantes à saúde pública. Incluem sistemas que influenciam diretamente decisões médicas críticas ou que atuam em contextos de alta vulnerabilidade e situações de vida ou morte;
  • Inaceitável: Categoria atribuída a sistemas cujos riscos ou características violam diretamente preceitos éticos e legais da prática médica.

“Bem aplicada, a IA tende a reduzir erros por omissão e a devolver ao médico tempo para a escuta”, diz Karlyse Belli.

“A resolução do CFM existe justamente para que esse ganho aconteça sem que a relação médico-paciente seja terceirizada”, finaliza a especialista.

Robôs humanoides com IA podem superar humanos na medicina, segundo médico

O doutor Miguel Sabino, professor na Escola Paulista de Medicina (EPM) e coordenador do comitê científico da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), contou ao Olhar Digital como tem sido o avanço da IA na área.

Para o especialista, a tecnologia tem “utilidades fundamentais” na área hoje em dia.

Foto de robô humanoide e de médico operando juntos uma cirurgia
Médico acredita que robôs humanoides com IA ‘bem elaborada’ podem substituir técnicos humanos no futuro – Imagem: VesnaArt/Shutterstock

“Talvez há uns anos, um médico, recebendo um paciente, ao examiná-lo, ao fazer algumas hipóteses de diagnóstico, tivesse que consultar livros, consultar outros colegas quando tivesse alguma dúvida a respeito daquele diagnóstico”, começa Sabino.

“Hoje, com a inteligência artificial, realmente há uma resposta imediata. Não é 100% segura, mas é bastante confiável – desde que aquele profissional que está fazendo aquela solicitação saiba como fazê-la e saiba como interpretá-la”, diz o médico.

“A IA também ajuda muito na redação de documentos na área médica, principalmente (volto a insistir) quando supervisionada e depois relida pelo profissional daquela área”, acrescenta Sabino.

“A inteligência artificial faz com que o tempo daquele profissional seja usado de maneira muito mais racional”, observa.

Para o futuro, Sabino vislumbra um cenário que “parece ficção científica, mas não é”.

“A gente vê a evolução de robôs humanoides, vê a grande utilidade que já se tem de robôs dirigidos por seres humanos em alguns procedimentos cirúrgicos. Isso é uma grande evolução do ponto de vista técnico”, diz o especialista.

“Eu acredito que a associação de um robô humanoide com uma inteligência artificial já bem elaborada pode realmente, a médio prazo, gerar uma máquina que vá poder fazer hoje atividades em vários campos, inclusive na medicina e até na cirurgia, que possam substituir um técnico humano”, afirma.

O especialista fez duas ressalvas no seu comentário. A primeira: “os cuidados do ponto de vista de privacidade e de identidade têm que ser totalmente considerados e preservados”.

A segunda: “A gente não pode esquecer que nós somos seres humanos e temos essa coisa de querer ser acolhidos e ser bem tratados. Nossa humanidade nos exige isso. E acho que a gente não pode se desvincular totalmente disso.”

O médico imagina um futuro tão tecnológico que parece ficção científica. Mas alerta que “não podemos nos desumanizar”.

Pedro Spadoni
Pedro Spadoni

Pedro Spadoni é jornalista formado pela Universidade Metodista de Piracicaba. Já escreveu para sites, revistas e jornal.

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