A Anthropic registrou receita de US$ 17 bilhões (aproximadamente R$ 91,8 bilhões) no terceiro trimestre de 2026, crescimento de 12 vezes em relação ao mesmo período do ano passado. Apesar da expansão acelerada, a desenvolvedora do Claude também contabilizou prejuízo líquido de US$ 23 bilhões (cerca de R$ 124,2 bilhões). Os números foram divulgados nesta segunda-feira (2), enquanto a companhia se prepara para possível abertura de capital ainda neste mês.
Os resultados representam atualização importante das informações financeiras apresentadas pela empresa em seu prospecto para uma oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês). Até então, a maior parte dos dados disponíveis contemplava apenas os primeiros seis meses de 2026.
O desempenho do terceiro trimestre é especialmente relevante para investidores diante da velocidade de crescimento do mercado de inteligência artificial (IA). A avaliação de uma companhia desse setor depende não apenas da expansão da receita, mas também da capacidade de sustentar os investimentos necessários para desenvolver e operar seus modelos.
A possível abertura de capital da Anthropic poderia avaliar a empresa em até US$ 2 trilhões (aproximadamente R$ 10,8 trilhões). A oferta também poderia movimentar US$ 100 bilhões (cerca de R$ 540 bilhões), tornando-se uma das maiores operações desse tipo já realizadas.
Anthropic acumula prejuízo bilionário e compromete quase R$ 4,83 trilhões em infraestrutura
- Nos primeiros nove meses de 2026, a Anthropic acumulou receita de US$ 33 bilhões (aproximadamente R$ 178,2 bilhões) e prejuízo líquido de US$ 104 bilhões (cerca de R$ 561,6 bilhões);
- O resultado negativo, entretanto, foi influenciado principalmente por um lançamento contábil extraordinário de US$ 94 bilhões (R$ 507,6 bilhões), relacionado a notas conversíveis. Esse tipo de instrumento financeiro funciona como uma dívida que pode ser transformada em participação acionária posteriormente;
- Quando considerados indicadores que excluem determinados custos, o prejuízo operacional da empresa foi bem menor: quase US$ 1,3 bilhão (aproximadamente R$ 7 bilhões) no período;
- Outro número que chama atenção é o volume de compromissos financeiros assumidos pela companhia. Até o fim de setembro, a Anthropic havia contratado aproximadamente US$ 895 bilhões (R$ 4,83 trilhões) em obrigações relacionadas a data centers, chips e capacidade computacional;
- Desse total, quase US$ 70 bilhões (R$ 378 bilhões) vencem nos próximos 12 meses. Outros US$ 448 bilhões (R$ 2,42 trilhões) deverão ser pagos até o fim de 2030;
- A companhia informou ainda que possuía US$ 146,6 bilhões (aproximadamente R$ 791,6 bilhões) em dinheiro e investimentos de alta liquidez ao final do terceiro trimestre.
Crescimento da receita começa a desacelerar
Embora os números trimestrais tenham superado ligeiramente as projeções anteriormente apresentadas a investidores, o ritmo de expansão da Anthropic mostra sinais de desaceleração.
A receita cresceu 47% em relação ao segundo trimestre, resultado um pouco superior aos 45% que haviam sido antecipados em apresentação privada da empresa.
O avanço, entretanto, ficou distante dos 144% de crescimento registrados entre o primeiro e o segundo trimestre.
A desaceleração não significa necessariamente perda de força comercial, mas reforça as dúvidas sobre a capacidade da companhia de transformar sua expansão em resultados financeiros sustentáveis.
“Ela é eficiente, mas, à medida que constrói sua própria infraestrutura, o dinheiro vai começar a escorrer”, afirmou Brandon Ross, analista da LightShed Partners, ao comentar os investimentos da empresa ao The New York Times.
A preocupação não é exclusiva da Anthropic. Grandes empresas de tecnologia vêm ampliando seus gastos com infraestrutura de IA e recorrendo cada vez mais ao mercado de dívida para financiar projetos. Caso a demanda por IA fique abaixo das expectativas, esses compromissos podem aumentar a pressão sobre os resultados.

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IPO também deverá incluir investidores individuais
A Anthropic confirmou que pretende reservar ações para investidores individuais em sua oferta pública, embora não tenha informado qual será a proporção destinada a esse grupo.
A decisão segue estratégia semelhante à adotada pela SpaceX em sua abertura de capital em junho, quando investidores de varejo representaram parcela significativa da operação.
Se concretizada, a oferta da Anthropic será a segunda grande abertura de capital do ano, depois da operação da empresa de Elon Musk. A OpenAI, responsável pelo ChatGPT, também trabalha com a possibilidade de uma oferta pública em 2027, com avaliação que poderia superar US$ 1 trilhão.
O movimento acontece em um momento de maior cautela dos mercados em relação aos investimentos bilionários em IA. Na semana passada, ações de empresas de tecnologia sofreram uma forte onda de vendas, em meio a questionamentos sobre a sustentabilidade dos gastos do setor.
Anthropic restringe uso do Claude Code para recriar videogames existentes
Em paralelo à preparação para sua abertura de capital, a Anthropic também reforçou as restrições de uso de suas ferramentas de IA. A empresa atualizou as instruções do Claude Code para impedir que a ferramenta seja utilizada na reprodução de videogames específicos já existentes.
A mudança foi identificada no prompt de sistema do Claude Code, na versão Opus 5.5. As novas orientações direcionam o modelo a desenvolver jogos originais, produções inspiradas em gêneros e projetos baseados em designs e recursos fornecidos pelos próprios usuários.
A restrição busca evitar que a IA seja utilizada para reproduzir diretamente jogos protegidos por propriedade intelectual, mesmo quando o usuário tenta apresentar a cópia como criação original.
Addy Osmani, representante da Anthropic, confirmou ao The Verge a atualização e explicou que a utilização do Claude para infringir direitos de propriedade intelectual contraria as políticas da empresa.
A companhia, entretanto, não pretende impedir a criação de jogos com IA. Projetos originais e desenvolvidos a partir de ideias e recursos próprios dos usuários continuam permitidos.
Segundo Osmani, a Anthropic pretende continuar ajustando as instruções para encontrar equilíbrio entre a proteção da propriedade intelectual e a liberdade de criação dos usuários.
Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.