Desviar asteroide com bomba nuclear depende de um detalhe surpreendente

Nova pesquisa mostra que o formato irregular desses corpos influencia diretamente a eficiência da manobra
Representação artísistica de um asteroide sendo desviado por uma bomba nuclear
Pesquisa identificou uma diferença de quase cinco vezes na velocidade de desvio de um mesmo objeto, dependendo do ângulo da explosão - Imagem: gerada com IA - ChatGPT/Olhar Digital

Uma explosão nuclear poderia ajudar a impedir que um asteroide perigoso atingisse a Terra. Mas o sucesso dessa estratégia depende de um detalhe que pode mudar completamente o resultado: o lado do objeto espacial atingido pela radiação. Uma nova pesquisa mostra que o formato irregular desses corpos influencia diretamente a eficiência da manobra.

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Publicado na revista científica Icarus, o estudo foi conduzido por pesquisadores dos Laboratórios Nacionais Sandia, nos Estados Unidos. Por meio de simulações computacionais, a equipe demonstrou que atingir diferentes regiões de um mesmo asteroide pode produzir resultados muito distintos em sua trajetória e rotação.

A pesquisa identificou uma diferença de quase cinco vezes na velocidade de desvio de um mesmo objeto, dependendo do ângulo da explosão. Em um dos cenários simulados, a mudança de velocidade foi de 3,9 milímetros por segundo em uma direção, mas de apenas 0,8 milímetro por segundo em outra.

Para outro asteroide analisado, a alteração na velocidade de rotação variou por um fator de 17, dependendo do local atingido.

Asteroides não são esferas perfeitas

  • O problema é que muitos modelos anteriores simplificavam os cálculos ao representar asteroides como esferas;
  • Embora essa abordagem facilitasse o trabalho computacional, ela não correspondia à realidade: esses objetos costumam apresentar formatos irregulares, com superfícies cheias de saliências e depressões;
  • Nathan Moore, físico dos Laboratórios Nacionais Sandia e líder da pesquisa, explicou ao Phys.org que a equipe já esperava que a direção da explosão tivesse importância. O que surpreendeu os cientistas foi a dimensão dessa influência;
  • Para superar as limitações dos modelos anteriores, os pesquisadores desenvolveram algoritmo capaz de combinar simulações de alta precisão com representações mais realistas dos asteroides;
  • A nova ferramenta é mais de 1,6 mil vezes mais rápida que os modelos anteriores, segundo Moore. Isso permitiu realizar cálculos que antes eram difíceis de executar com os recursos computacionais disponíveis.

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Comparativo dos asteroides no estudo realizado no computador
Distribuição de pressão, calculada como a média nos primeiros 20 μs da expansão do vapor, para os asteroides (a) Bennu, (b) Itokawa e (c) Golevka, para HOBs próximos e distantes; a pressão máxima na superfície é idêntica em cada cenário devido à normalização da fluência, permitindo a comparação entre diferentes topografias – Imagem: Icarus (2026)

Como uma explosão nuclear poderia desviar um asteroide?

A estratégia estudada não consiste em simplesmente destruir o objeto espacial. A ideia é provocar uma detonação nuclear a determinada distância, fazendo com que os raios X liberados pela explosão atinjam parte da superfície do asteroide.

A radiação aquece intensamente o material superficial, provocando sua vaporização. O material expelido funciona como uma espécie de propulsão, gerando impulso capaz de alterar o movimento do objeto.

As simulações permitem ajustar características, como o tamanho e a distância da explosão, além da região que receberia a radiação. A partir desses dados, o programa calcula quanto material seria vaporizado, qual seria o impulso produzido e como a rotação do asteroide poderia mudar.

Os pesquisadores também conseguem estimar a pressão exercida sobre diferentes partes da superfície e avaliar o risco de fragmentação do material.

Esse último aspecto é especialmente importante. O objetivo da defesa planetária seria desviar o asteroide, não destruí-lo em pedaços menores que ainda poderiam representar uma ameaça para a Terra.

Tecnologia ainda precisa avançar

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Apesar dos resultados promissores, a ferramenta ainda apresenta limitações. Atualmente, o modelo consegue considerar a fragmentação de rochas na superfície, mas não prevê com precisão a ruptura de todo o corpo do asteroide.

Os pesquisadores também destacam que seria necessário obter imagens tridimensionais de alta resolução do objeto, com informações sobre seu formato em todos os lados. Em situação real de emergência, talvez não houvesse tempo suficiente para reunir esses dados.

Outro desafio seria posicionar um dispositivo explosivo na distância e na direção ideais enquanto o asteroide se desloca pelo espaço.

Mesmo com essas dificuldades, o estudo representa avanço na preparação para possíveis ameaças espaciais. A ferramenta pode ajudar a calcular a intensidade, a distância e a direção mais adequadas para uma explosão nuclear, aumentando as chances de desviar um objeto perigoso antes que ele alcance nosso planeta.

Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.

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