Coronavírus: vacina não garante o retorno imediato à normalidade

Segundo especialistas consultados por jornal norte-americano, pode levar até anos para que a população mundial seja imunizada; expectativas excessivas podem prejudicar outras medidas de controle

Victor Pinheiro 04/08/2020 10h08
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O desenvolvimento de uma vacina contra o novo coronavírus concentra expectativas de que, em breve, poderemos controlar a pandemia e pavimentar um retorno seguro à normalidade. Em um ritmo de pesquisa sem precedentes, cinco fórmulas já estão na fase final de testes clínicos - e a previsão de alguns pesquisadores é disponibilizar doses em outubro deste ano.


Especialistas em saúde pública entrevistados pelo The Washington Post, no entanto, alertam que expectativas desproporcionais sobre as vacinas podem levar a crenças pouco realistas sobre a volta à normalidade. Afinal, mesmo que um produto se prove eficaz durante experimentos, a erradicação do vírus não será imediata e ainda há uma cadeia de desafios para territórios e países imunizarem suas populações.

A vacina não é o fim da pandemia

A primeira barreira será a distribuição. Após superar a fase de testes clínicos, a vacina tem que chegar aos equipamentos de saúde e locais onde será aplicada. Isso envolve nuances sobre a rede de distribuição das fabricantes, redes de cooperação global e as cadeias de suprimento e força de trabalho de cada país e território.

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Especialistas temem que espera por impactos imediatos de uma vacina possa comprometer outras medidas de controle da pandemia, como o uso de máscaras e o distanciamento social . Imagem: Rovena Rosa/Agência Brasil

A previsão de especialistas, segundo o The Washington Post, é que demore meses ou até anos para que a vacina esteja disponível em todo o mundo e um contingente suficiente de pessoas sejam imunizadas para controlar a pandemia. As vacinas também não devem oferecer proteção imediata, uma vez que leva semanas para o sistema imunológico desencadear uma proteção efetiva contra microorganismos infecciosos.

Algumas das tecnologias das vacinas hoje em testes, inclusive, projetam a aplicação de uma segunda dose - é o caso da vacina mRNA, da Moderna. Caso a imunidade gerada pelas substâncias seja curta ou parcial, talvez sejam necessárias diversas aplicações, o que poderia sobrecarregar a demanda por suprimentos e exigir a manutenção de medidas de distanciamento social e o uso de máscaras mesmo após a imunização.

"É improvável que a vacina seja um botão de reset para voltarmos aos tempos anteriores à pandemia", afirmou Yonatan Grad, professor assistente de doenças infecciosas e imunologia da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

Vacina aprovada pode não ser a melhor

A urgência por uma solução para controlar a pandemia atribuiu ao desenvolvimento da vacina contra o novo coronavírus o aspecto de uma corrida tecnológica. Especialistas alertam, entretanto, que a primeira vacina aprovada pode não ser o melhor imunizante e a pesquisa sobre novas substâncias ainda deve perdurar pelos próximos anos.

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Brasil assinou acordo com farmacêutica AstraZeneca, responsável pela vacina da Universidade de Oxford, para reservar ao menos 100 milhões de doses do imunizante em fase de testes. Imagem: Reuters

"O cenário realista é mais parecido com o que vimos com o HIV/AIDS. Nós tivemos uma primeira geração de drogas um tanto medíocres. Temos que estar preparados para a ideia de não ter uma vacina tão boa - as pessoas não querem ouvir isso, mas é um ponto que defendo constantemente. Penso que a primeira geração de vacina pode ser medíocre." afirmou Michael S. Kinch, especialista em desenvolvimento de medicamentos e pesquisador da Washington Universitý em St. Louis, nos Estados Unidos, ao The Washington Post.

Há ainda a possibilidade de todas as propostas falharem na terceira fase de testes. "Estou realmente preocupada como as pessoas estão esperançosas que uma vacina vai resolver tudo. Vacina não são perfeitas, assim como qualquer outra terapia. Elas também falham", disse Angela Rasmussen, virologista da Universidade de Colúmbia, ao jornal norte-americano.

Eficácia

Embora todas as vacinas passem por testes clínicos antes da distribuição, imunizantes apresentam diferentes taxas de eficácia. A vacina do sarampo, por exemplo, garante a proteção contra a doença em 98% das aplicações. Já a vacina da gripe, cuja fórmula muda todos os anos, gera proteção efetiva entre 40% a 60% dos casos.

Uma preocupação é a diferença da eficácia dos compostos entre diferentes grupo. É possível que as primeiras vacinas contra o novo coronavírus sejam menos eficazes para uma parcela da população ou demande recursos extras. Idosos, por exemplo, precisam de doses especiais contra a gripe, com ingredientes adicionais chamados adjuvantes.

A eficácia da vacina impacta em quantas pessoas devem ser vacinadas para garantir a imunidade de rebanho. Nos Estados Unidos, autoridades de saúde pública esperam uma vacina pelos menos 50% eficaz. Entretanto, mesmo que as vacina alcancem esse patamar, ainda pode ser necessário esforços extras para garantir a imunidade de rebanho.

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Pandemia do novo coronavírus infectou 18 milhões de pessoas e provocou 694 mil óbitos, em 188 países e territórios, segundo dados da Universidade Johns Hopkins. Imagem: Getty Images

"Se chegarmos a uma vacina que apenas corresponda às diretrizes, é provável que não consigamos atingir a imunidade de rebanho. Poderemos inibir a transmissão substancialmente. O risco das pessoas se infectaram vai decair, mas não eliminaremos [o risco]. Porém, uma vacina 50% efetiva é muito melhor que uma vacina sem nenhuma efetividade.", disse Walter Orenstein, diretor associado do Emory Vaccine Center, ao The Washington Post.

Já Paul A. Offit, diretor do Vaccine Education Center at Children’s Hospital of Philadelphia, uma vacina com 75% eficaz demandaria a vacinação de dois terços da população norte-americana. "Se você está falando sobre se abraçar com 67.000 pessoas em um jogo do Philadelphia Eagles [equipe de futebol americano], eu imagino que isso ainda pode levar alguns anos", afirmou o cientista ao The Washington Post.

Vale lembrar ainda que o objetivo de uma vacina é prevenir infecções por completo. Mas essa não é a única definição de um produto bem-sucedido, que também pode incluir doses para reduzir a gravidade dos sintomas de pessoas que recebem a injeção. Uma vacina que amenize os sintomas poderia ser direcionada a idosos, enquanto outra que não funcione muito bem para pessoas mais velhas poderia ser disponibilizada à população mais jovem.

Retomada gradual

De acordo com Mark Mulligan, diretor da New York University Langone Vaccine Center, os impactos de uma vacina eficaz contra o novo coronavírus serão graduais. Embora empresas e governos de vários países - incluindo o Brasil - já estejam investindo bilhões de dólares para reservar estoques de vacinas ainda em testes, não será possível garantir a vacinação de toda a população em uma semana ou mesmo um mês.

Além disso, há uma preocupação de que a vacina seja entendida como uma "bala de prata" e governantes deixem de lado outras medidas essenciais para o controle da pandemia, como o uso de máscaras, o monitoramento de contatos e testes em massa.

Para especialistas, o acesso desigual de políticos e personalidades à vacina pode passar à população uma falsa sensação de segurança. "O que acontece quando os políticos são priorizados [para uma vacina]... há a projeção de invencibilidade e outros que não são vacinados baixem a guarda ", disse Saad B. Omer, diretor do Instituto de Saúde Global de Yale, ao The Washington Post. "Isso aconteceu para testes e máscaras. Não é uma fantasia, e não estamos preparados para isso.".

Fonte: The Washington Post



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