Covid-19: cientistas identificam padrões 'improváveis' na Sputnik V

Especialistas publicaram uma carta aberta na qual questionam os dados apresentados pelos russos

Vinicius Szafran, editado por Daniel Junqueira 11/09/2020 17h03
Vacina Covid-19
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Uma carta aberta questionando a confiabilidade dos dados divulgados nos resultados da primeira fase de testes da Sputnik V, vacina contra a Covid-19 desenvolvida pela Rússia, foi assinada por 26 cientistas, a maioria de universidades italianas.


A carta foi destinada ao editor da The Lancet, revista médica internacional revisada por pares no qual o Instituto Gamaleya de Moscou publicou os resultados de seus testes iniciais. Segundo os cientistas, os dados apresentavam padrões que pareciam "altamente improváveis".

Publicada no blog pessoal de um dos signatários, a carta diz que os dados das fases 1 e 2 de testes mostraram vários participantes com níveis idênticos de anticorpos. "Com base em avaliações probabilísticas simples, o fato de observar tantos pontos de dados preservados entre diferentes experimentos é altamente improvável", escreveram os pesquisadores.

Entretanto, os cientistas disseram que suas conclusões se baseavam em resumos dos dados dos resultados de testes russos, publicados na revista, e não no estudo completo com os dados originais, como seria o ideal.

"Na falta dos dados numéricos originais, não se pode tirar conclusões definitivas sobre a confiabilidade dos dados apresentados, especialmente no que diz respeito às aparentes duplicações detectadas", diz a carta.

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Cientistas italianos questionam os resultados da vacina russa Sputnik V. Imagem: Shutterstock

O Instituto Gamaleya, que desenvolveu a vacina, rejeitou as críticas dos cientistas. "Os resultados publicados são autênticos e precisos e foram examinados por cinco revisores da The Lancet", disse Denis Logunov, vice-diretor do Instituto Gamaleya, em comunicado.

Segundo ele, o instituto submeteu todo o conjunto de dados brutos sobre os ensaios ao jornal. "Apresentamos especificamente os dados produzidos (pelo ensaio), não os dados que supostamente agradariam aos especialistas italianos", comentou Logunov.

Já o vice-diretor da Escola de Saúde Pública John Hopkins Bloomberg, Naor Bar-Zeev, revisor dos dados russos, defendeu sua análise da pesquisa. "A ciência deve manter um equilíbrio entre incredulidade, ceticismo e confiança. Essa confiança é comprovada por meio de plausibilidade, repetibilidade e falseabilidade", disse ele. "Os resultados são plausíveis e não muito diferentes daqueles vistos com outros produtos vetores de adenovírus".

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Resultados da Sputnik V saíram na sexta-feira passada. Imagem: Yalcin Sonat/Shutterstock

Segundo Bar-Zeev, os pesquisadores forneceram mais detalhes do que o necessário para revisão e responderam às suas perguntas "de maneira inteligente, prática e confiante, mas discreta". "Resumindo, não vi razão para duvidar da legitimidade desses resultados em relação a outros que li e analisei. Mas é claro que nunca se sabe", disse ele em e-mail enviado à agência de notícias Reuters.

Uma porta-voz da Lancet, que afirmou estar acompanhando a questão de perto, disse que a revista convidou os autores do estudo a responder às questões levantadas na carta aberta.

A Rússia publicou os resultados de seus testes de fase 1 e 2 na sexta-feira passada (4). Os ensaios incluíram 76 participantes e aconteceram em junho e julho deste ano. Os participantes desenvolveram uma resposta imunológica positiva e sem efeitos colaterais negativos, de acordo com os autores.

A terceira fase de testes, envolvendo 40 mil voluntários, começou em 26 de agosto. Cerca de 31 mil pessoas já se inscreveram para participar, segundo Mikhail Murashko, ministro da Saúde russo.

Via: Reuters



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