Quem observa as duas torres refletidas na água encontra uma paisagem serena, mas o silêncio esconde ruas, casas e lembranças. Sob o lago permanece a antiga sede de Itá, no Oeste de Santa Catarina, esvaziada antes da formação do reservatório de uma hidrelétrica. A cidade renasceu em terreno alto, enquanto sua igreja ficou como testemunha visível.
Por que Itá precisou mudar de endereço?
Itá mudou porque a antiga área urbana ficava dentro da zona prevista para o reservatório da Usina Hidrelétrica Itá. Em novembro de 1979, representantes da Eletrosul comunicaram à comunidade a dimensão do projeto e a futura inundação. O anúncio iniciou discussões, estudos técnicos e 23 programas socioambientais, que incluíram proteção da fauna, controle da água, resgate cultural e preparação turística.
Segundo a publicação histórica do Consórcio Itá, a nova sede foi inaugurada oficialmente em 1996, quatro km distante da anterior. O enchimento começou em dezembro de 1999, quando um dos túneis de desvio foi fechado, e avançou após o fechamento do descarregador de fundo em março de 2000.
Como uma cidade inteira muda sem perder a identidade?
A população participou da escolha do novo local e preferiu uma área elevada conhecida como Altos de Itá. Técnicos apresentaram três alternativas, enquanto uma comissão municipal e o Grupo Operacional para Relocação de Itá organizaram a mudança. Em 1981, os estudos registravam cerca de 940 moradores e 200 famílias na sede que seria transferida.
Os proprietários puderam receber indenização, construir por conta própria ou trocar a casa antiga por outra na nova sede. O projeto preservou referências comunitárias e concentrou praça, igreja, prefeitura, comércio e serviços no centro. Entre 1988 e 1991, as duas sedes coexistiram, ligadas durante dois anos por transporte coletivo gratuito. Por volta de 1995, os últimos moradores deixaram a cidade velha.

As torres que a água não apagou
As torres pertenciam à antiga Paróquia de São Pedro, onde a última missa ocorreu em 1º de janeiro de 1994. A comunidade pediu que a estrutura permanecesse como lembrança do lugar. Em abril de 2000, pouco antes da inundação, moradores retornaram para a celebração de despedida chamada “Adeus à cidade velha”.
Quando o reservatório cobriu o vale, as torres ficaram acima da água. O lago alcançou 141 km², segundo o registro histórico do consórcio. A primeira unidade geradora começou a operar em 8 de julho de 2000. A Usina Hidrelétrica Itá, instalada no rio Uruguai entre Itá e Aratiba, possui 1.450 MW de capacidade instalada. A obra mudou a geografia, enquanto as torres preservaram a imagem humana da cidade submersa.
O que ainda permite tocar a antiga Itá?
| Tipo | Foco |
|---|---|
| Memória | Torres, fotografias, objetos e documentos preservam a cidade inundada. |
| Transformação | A nova sede e a hidrelétrica mostram como o território foi reorganizado. |
A memória permaneceu em espaços que contam a mudança por diferentes perspectivas. O Museu Casa Alberton reúne manchetes, fotografias, artigos e documentos sobre o enchimento do lago. O Museu Casa Camarolli guarda objetos, imagens dos pioneiros e registros da relocação, enquanto a pedra de fundação assinala o começo da sede construída no alto.
As Torres da Igreja Matriz continuam com visitação gratuita e são apresentadas pelo portal turístico local como as únicas estruturas restantes da antiga área urbana. Da margem, o visitante vê um monumento cercado por água. Nos museus, percebe que a paisagem nasceu de uma mudança que alterou profundamente endereços, trajetos e vínculos afetivos. A visita aproxima o cenário atual das decisões e despedidas que marcaram famílias inteiras durante duas décadas de transferência.
Quando a memória permanece
A história de Itá mostra que reconstruir prédios não significa reproduzir integralmente uma cidade. As torres mantêm aberta uma ligação entre a sede atual e o lugar que desapareceu sob o lago. Ao visitar esse cenário, reserve tempo para observar a água e conhecer os museus, porque a parte mais marcante está na relação entre aquilo que mudou e aquilo que a comunidade decidiu preservar.
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