Milton Santos resumiu décadas de estudo sobre desigualdade em uma frase curta e direta: existem apenas duas classes sociais, as do que não comem e as do que não dormem com medo da revolução dos que não comem. O geógrafo baiano, considerado o maior nome da geografia brasileira, usou essa imagem para descrever o abismo social que observava nas cidades onde pesquisou ao longo da vida.
Quem foi Milton Santos e por que sua obra ainda é estudada?
Milton Santos nasceu na Bahia em 1926 e se tornou o único brasileiro a receber o Prêmio Vautrin Lud, conhecido como o Nobel da Geografia. Ele foi professor titular do Departamento de Geografia da USP entre 1984 e 1997, período em que formou gerações de pesquisadores. Antes disso, passou treze anos exilado por causa da ditadura militar, lecionando em universidades da França, dos Estados Unidos e da Tanzânia. Mesmo longe do Brasil, manteve o país como principal objeto de suas pesquisas sobre urbanização e pobreza.

O que a frase sobre as duas classes sociais quer dizer?
A frase divide a sociedade em dois grupos definidos pela relação com a fome e com o medo. Veja como cada parte da frase pode ser interpretada:
- Os que não comem representam a parcela da população excluída do acesso básico à alimentação e a outros direitos essenciais.
- Os que não dormem com medo da revolução são os que mantêm privilégios e temem perder posição caso a desigualdade se torne insustentável.
- A tensão entre esses dois grupos, segundo o geógrafo, organiza boa parte da vida social e econômica das cidades.
Pesquisadores apontam que a frase dialoga com uma ideia anterior do médico e geógrafo Josué de Castro, autor de estudos sobre a fome no Brasil na metade do século 20. Mesmo com essa influência reconhecida, a formulação final ficou associada ao nome de Milton Santos, que a repetiu em entrevistas e no documentário Encontro com Milton Santos. O quadro abaixo resume a lógica dessa divisão social descrita pelo geógrafo.
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O que é a geografia crítica que Milton Santos ajudou a criar?
Milton Santos ajudou a consolidar a geografia crítica no Brasil, corrente que rompeu com a ideia de espaço como cenário neutro. Confira três princípios centrais dessa abordagem:
- O espaço reflete diretamente as relações sociais, econômicas e políticas de cada época.
- A globalização aprofunda desigualdades tanto entre países quanto dentro de uma mesma cidade.
- O território deve ser analisado a partir de quem vive nele, não apenas por indicadores econômicos gerais.
Por que a USP guarda o acervo de Milton Santos até hoje?
O acervo pessoal de Milton Santos, incluindo sua biblioteca e documentos, está hoje sob os cuidados do Instituto de Estudos Brasileiros da USP. O material foi doado pela viúva do geógrafo em 2009 e segue disponível para consulta de pesquisadores interessados em sua obra. Em 2017, a USP também aprovou a criação de uma praça com o nome do professor no campus da capital paulista.

A observação de Milton Santos ainda faz sentido no Brasil de hoje?
A observação de Milton Santos sobre as duas classes sociais segue citada em provas de vestibular e debates públicos décadas depois de formulada. Ela não oferece uma solução pronta, mas ajuda a nomear uma tensão que continua presente em muitas cidades brasileiras, marcadas por desigualdades que o geógrafo passou a vida estudando de perto.
Se você já ouviu essa frase em sala de aula ou em uma roda de conversa, vale parar um instante e pensar em qual dos dois grupos descritos por Milton Santos você reconhece ao seu redor, e no que isso diz sobre a cidade onde você vive.
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