Quem já ajudou uma criança com o trabalho de ciências conhece a cena: um copinho de plástico, algodão molhado e um feijão brotando na janela. Em 1990, milhões de estudantes fizeram uma versão bem mais ousada dessa experiência, com sementes de tomate que tinham passado quase seis anos em órbita. A ideia foi da NASA, que transformou um teste com satélite num grande exercício de educação científica espalhado por escolas de vários países.
Tomates em órbita por quase seis anos a bordo do LDEF
As 12,5 milhões de sementes de tomate da variedade Rutgers viajaram no Long Duration Exposure Facility (LDEF), um satélite da NASA que levava experimentos expostos ao ambiente espacial. Ele subiu a bordo do ônibus espacial Challenger em 6 de abril de 1984 e ficou cinco anos e nove meses em órbita, segundo um relatório da NASA sobre a radiação recebida pelo LDEF. Nesse tempo, o satélite completou 32.422 voltas ao redor da Terra.
O resgate só aconteceu em janeiro de 1990, pelo ônibus espacial Columbia, como registra a página oficial da missão STS-32. Durante a longa espera, as sementes ficaram expostas à radiação cósmica e ao vento solar. Era exatamente isso que interessava aos pesquisadores, porque entender o efeito da radiação sobre tecidos vivos é um passo básico da agricultura espacial.

Kits com sementes espaciais levaram a NASA às salas de aula
Depois do retorno, as sementes viraram material didático do programa SEEDS, sigla em inglês para Experimento Exposto ao Espaço Desenvolvido para Estudantes. A iniciativa reuniu a sede da NASA, o Centro de Pesquisa Langley e uma empresa fornecedora de sementes, de acordo com o relatório final do SEEDS publicado pela NASA. Cerca de 132 mil kits chegaram a escolas de todos os estados americanos e de 30 países. Cada um trazia sementes que tinham voado e sementes iguais guardadas num armazém com clima controlado pelo mesmo período.
Participaram alunos do jardim de infância à universidade, cerca de 3,3 milhões no total, segundo o balanço do SEEDS apresentado em simpósio da NASA em 1992. Sementes que resistem ao tempo, aliás, guardam outras surpresas para a ciência.
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O que as crianças descobriram ao plantar as sementes do espaço?
As crianças descobriram que as sementes que foram ao espaço germinaram tão bem quanto as da Terra, e até um pouco mais. Nos dados preliminares, a taxa de germinação foi de 73,8% no grupo que voou e de 70,3% no grupo de controle. O tempo médio para brotar ficou em 8 dias contra 8,3 dias, em testes feitos até seis meses depois do resgate.
Alguns alunos notaram plantas com alterações que podem ter vindo da radiação, como uma folha nascendo onde normalmente surgiria uma flor. No relatório final, porém, a conclusão foi prudente: os estudantes relataram pouquíssima diferença entre os dois grupos. Esse resultado também tem valor, porque mostra que as sementes aguentaram bem quase seis anos em órbita.

Pesquisadores universitários também estudaram o material. Um estudo da Universidade Estadual Morgan sobre os tomates do LDEF observou, ao microscópio eletrônico, que a casca das sementes expostas ficou mais porosa. Segundo os autores, isso pode explicar por que elas germinaram mais cedo, mas é uma hipótese, não uma regra para qualquer semente que vá ao espaço.
Alunos de hoje testam plantas para a Estação Espacial
A parceria entre escolas e agência espacial continua, agora com foco na Estação Espacial Internacional. Desde 2015, o projeto Growing Beyond Earth, conduzido pelo Jardim Botânico Tropical Fairchild com a NASA, leva às salas de aula câmaras de cultivo inspiradas na que os astronautas usam em órbita.
Mais de 120 mil estudantes já participaram, em mais de 800 salas de aula, testando mais de 250 variedades de plantas, segundo o balanço de dez anos do programa divulgado pela NASA. Cinco cultivos avaliados pelos alunos já cresceram a bordo da Estação Espacial Internacional. É um resultado concreto para a agricultura espacial e para a educação científica.
Quer repetir a lógica do SEEDS em casa ou na escola? Separe dois grupos iguais de sementes, mude só uma condição entre eles, como luz, água ou temperatura, e anote todo dia quantas brotaram. Esse grupo de controle é o mesmo princípio que a NASA usou com milhões de alunos, e você pode começar hoje com um punhado de feijões e um caderno.
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Por que a NASA não pode simplesmente jogar a Estação Espacial Internacional no Sol?➔
