🦉 Um primata venenoso que o mundo julgava perdido estava à vista de uma ilha inteira
Ele aparecia em quintais, estradas e fios de luz, e mesmo assim a ciência não sabia. Entenda como essa história virou notícia ⬇️
Durante quase um século, nenhum artigo científico trouxe notícias de um primata de olhos enormes e mordida venenosa. O lóris-lento-de-Bangka chegou a ser classificado pela lista vermelha da IUCN como criticamente em perigo e possivelmente extinto. Um estudo recente mostra que ele nunca desapareceu de fato: estava vivo em quintais, estradas e até em fios elétricos de uma ilha indonésia.
O que é o lóris-lento-de-Bangka e onde ele vive?
É um primata pequeno, noturno e de pelagem avermelhada, com uma máscara clara no rosto. O Nycticebus bancanus, nome científico da espécie, vive na Ilha de Bangka, na Indonésia, a leste de Sumatra.
O bicho foi descrito pela ciência em 1906, mas só ganhou status de espécie própria em 2013, conforme relata a organização Re:wild. Seus olhos grandes e redondos ajudam a enxergar no escuro, e o andar lento o deixa quase invisível à noite.

Por que o primata ficou quase 100 anos fora da ciência?
Porque os últimos registros científicos da espécie datam do início dos anos 1930, e ninguém publicou dados novos depois disso. Os moradores de Bangka, porém, nunca perderam o animal de vista. Há mais de uma década, o Alobi Wildlife Rescue Center atende chamados de gente que encontra lóris em casas, jardins e estradas, mas esses casos nunca chegaram aos periódicos.
A virada veio quando o pesquisador Timon Glaw, do zoológico Haus des Meeres Aqua Terra, em Viena, soube da existência desses registros. Ele se uniu ao Alobi e ao Taman Safari Prigen para analisar os dados, e o resultado saiu na revista científica Spixiana, em 2026.
A trajetória do animal tem datas decisivas, e elas mostram o tamanho do sumiço. A linha do tempo abaixo resume cada etapa.
Entre 2015 e 2025, o Alobi atendeu mais de 90 animais, e 86 se recuperaram e voltaram à floresta em sete áreas de Bangka. Os resgates ocorreram nas quatro regências da ilha e na cidade de Pangkal Pinang, o que indica que o lóris de Bangka ainda ocupa boa parte do território.
Como o lóris-lento-de-Bangka produz e usa o veneno?
O animal lambe uma glândula na parte interna do braço e mistura a secreção com a saliva. A mordida entrega esse veneno, e os lóris são os únicos primatas conhecidos com essa capacidade. Em seres humanos, o ferimento pode ser doloroso, causar inchaço e provocar reações alérgicas graves, de acordo com os pesquisadores.
Em outras espécies de lóris, a substância parece servir sobretudo em disputas entre os próprios animais.
O veneno não é a única esquisitice desse primata. Seu corpo reúne outras adaptações curiosas.
- Pente dentário: dentes inferiores projetados para a frente, usados na higiene do pelo, para raspar casca de árvore atrás de goma e para entregar o veneno.
- Segunda língua: uma estrutura sob a língua principal que ajuda a limpar o pente dentário.
- Dieta provável: insetos, gomas de árvores, néctar e outras partes de plantas, ainda pouco estudada.
O que ameaça a sobrevivência da espécie hoje?
A destruição da floresta é o maior risco. Segundo a diretora do Alobi, Langka Sani, o habitat do animal encolheu muito por causa da mineração ilegal de estanho e do desmatamento em larga escala para plantações de dendê. Ela alerta que a espécie continua muito perto da extinção.
Esses não são os únicos perigos. Outros fatores ligados à presença humana também pesam sobre os lóris.
- Assentamentos humanos: a ilha tem mais de 1 milhão de habitantes.
- Estradas e fios elétricos: vários animais resgatados chegaram com ferimentos graves.
- Comércio de animais de estimação: os lóris são alvo desse mercado em toda a Ásia.
Os autores do estudo propõem proteger a mata que resta, manter solturas monitoradas e fazer levantamentos populacionais e estudos genéticos. Sugerem ainda um programa de reprodução em cativeiro.
O que a redescoberta ensina sobre espécies dadas como perdidas?
Ensina que sumir dos livros não significa sumir da floresta. Quem vive perto dos animais muitas vezes sabe antes dos cientistas, e Bangka prova o valor desse conhecimento local. Agora o desafio é garantir floresta suficiente para o lóris continuar existindo. Se gostou da história, mande este texto para aquele amigo que adora bichos raros.
