“A nossa escrevivência não é para adormecer os da casa-grande”, afirma Conceição Evaristo. A frase confronta uma história em que mulheres negras tinham a voz subordinada aos interesses dos senhores. Mas o que acontece quando elas passam a escrever suas próprias narrativas? A resposta envolve memória, autoria e resistência, sem reduzir literatura a um simples relato pessoal.
De onde vem a frase sobre a casa-grande?
A frase retoma uma imagem da escravidão brasileira: mulheres negras obrigadas a contar histórias para adormecer as crianças de famílias escravocratas. Naquele cenário, a palavra não era plenamente livre. Enquanto narravam, elas cumpriam tarefas impostas por pessoas que também controlavam seus corpos, seus movimentos e sua possibilidade de permanecer em silêncio.
Por isso, Conceição Evaristo apresenta a escrita contemporânea como uma inversão daquela relação de mando. Em A Escrevivência e seus subtextos, ela afirma que sua escrita pretende despertar os poderosos de seus “sonos injustos”. A passagem consta na página 30 do texto publicado em 2020, disponível em arquivo da Universidade Federal de Santa Catarina.
O que significa escrevivência?

Escrevivência reúne escrita e vivência, mas não equivale a colocar toda a vida da autora no papel. O conceito nasce da experiência histórica de mulheres negras. No entanto, também envolve invenção literária, personagens e lembranças compartilhadas, porque uma história particular pode dialogar com experiências de outras pessoas.
Assim, a narradora de um romance não precisa reproduzir exatamente a trajetória de quem escreveu o livro. A própria autora distingue criação ficcional de autobiografia e explica que experiências individuais ganham sentido diante de uma coletividade. Essa leitura aparece em uma entrevista divulgada pelo Jornal da USP, na qual ela relaciona o conceito à escrita e à existência.
Quem tinha o direito de contar e quem passa a narrar?
Na imagem histórica evocada por Evaristo, mulheres escravizadas podiam contar histórias, mas os senhores determinavam sua finalidade. A questão, portanto, não é apenas quem falava. Importa perceber quem podia escolher o assunto, construir personagens, registrar experiências e fazer sua própria interpretação circular entre outros leitores.
Com a autoria negra feminina, muda também o lugar ocupado por personagens antes descritas principalmente pelo olhar dos grupos dominantes. Em Becos da Memória e Ponciá Vicêncio, por exemplo, o universo narrativo acompanha vidas negras com conflitos, desejos, lembranças e contradições. Desse modo, as personagens deixam de funcionar apenas como figuras secundárias das histórias de outras pessoas e ganham complexidade humana.
Por que a escrevivência não se limita à própria história?

O conceito carrega uma dimensão coletiva e ancestral que impede sua redução ao diário de uma pessoa. Evaristo associa sua escrita às vozes de mulheres que vieram antes. Ao mesmo tempo, reconhece na oralidade, na escuta e nas memórias familiares materiais que a literatura transforma, sem prometer reprodução literal dos acontecimentos.
Essa diferença importa porque ficção não é depoimento documental, embora possa questionar versões dominantes do passado. Em entrevista à TV Brasil, em 2017, a autora relacionou essa escrita às experiências pessoais e coletivas de mulheres negras. Portanto, desafiar um relato estabelecido também significa ampliar os pontos de vista presentes na literatura e reconhecer quem permaneceu sem espaço para narrar.
Quando a história muda de narrador
A frase de Conceição Evaristo não promete substituir uma versão única por outra igualmente fechada, mas questiona uma antiga desigualdade na circulação das vozes. A escrevivência transforma memória e experiência em criação literária, permitindo que mulheres negras componham narrativas antes subordinadas ao olhar de quem exercia poder. Por isso, o contraste entre adormecer e despertar envolve a própria liberdade de narrar, não apenas o conteúdo das histórias. Ao ler essa frase, observe também quem aparece como sujeito da narrativa e quem quase nunca recebeu espaço para contar.
Leia mais:
- Uma pequena cidade italiana foi redesenhada no século XV para representar a cidade perfeita do Renascimento, e aproximadamente 40 construções participaram da transformação
- Família devolve uma encomenda à Amazon e só depois descobre que a gata viajou dentro da caixa até a Califórnia
- Vista do alto, uma cidade chinesa parece cortada por pequenos rios que passam entre as casas, mas os canais fazem parte de um sistema de abastecimento com séculos de história
