Falha no WhatsApp prova que países democráticos utilizam malwares para espionar líderes políticos

Episódio teria acontecido em 2019, quando o celular de Roger Torrent teria abrigado o Pegasus, spyware da empresa israelense NSO, que invadiu o aparelho por uma vulnerabilidade do WhatsApp

Davi Medeiros, editado por Liliane Nakagawa 21/07/2020 11h57
Bandeira da Espanha
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As tensões entre Espanha e Catalunha — comunidade autônoma da Espanha localizada na extremidade leste da Península Ibérica — ganharam recentemente mais um episódio controverso. De acordo com uma investigação conjunta feita pelos jornais The Guardian e El País, o político separatista Roger Torrent teve seu celular invadido por um software de espionagem da empresa israelense NSO. O spyware em questão, chamado Pegasus, é vendido pela corporação apenas para governos federais e forças de segurança.


O fato levanta a suspeita de que a Espanha estaria praticando espionagem política dentro de seu próprio território. O ponto de partida do caso foi uma falha ocorrida no WhatsApp em 2019. O aplicativo, então, contratou o Citizen Lab — grupo pertecente à Universidade de Toronto — para analisar o problema. O que ninguém esperava era que esta análise apontaria a presença do software espião no celular de Torrent. De acordo com o laboratório, o Pegasus teria aproveitado a vulnerabilidade do app no momento da falha para invadir o aparelho do político

Roger Torrent confirma que foi alertado pelo Citizen Lab sobre o ataque. "É errado que políticos sejam espionados numa democracia que deveria se basear nas regras da lei", disse ele aos jornais. "Também me parece imoral que uma enorme quantidade de dinheiro público seja utilizada para comprar softwares que podem ser utilizados como ferramenta de perseguição a dissidentes". 

Torrent notou comportamento estranho no celular

Durante o tempo em que teve o seu celular invadido, Roger conta que passou a notar um funcionamento estranho do WhatsApp. Ele relata que algumas mensagens desapareciam do dispositivo sem nenhum motivo, e que chegou a receber mensagens de SMS suspeitas. 

Os aparelhos invadidos pelo Pegasus se tornam uma espécie de escuta telefônica, uma vez que o software é capaz de ativar microfone e câmera sem autorização do usuário. Vale destacar que Roger Torrent participou de reuniões importantes enquanto era espionado, incluindo encontros políticos nos quais representou a Catalunha. 

Espanha nega espionagem

O Centro Nacional de Inteligência da Espanha declarou que trabalha "em total acordo com o sistema legal, e com absoluto respeito das leis". Um porta-voz do governo disse que a Espanha "não reconhece que Roger Torrent tenha sido alvo de hackers". 

O site de notícias Vice, no entanto, alega ter ouvido de um funcionário da NSO que a Espanha contrata serviços da empresa desde 2015. "Nós ficamos muito orgulhosos em tê-los como clientes", disse ele, "finalmente em um Estado europeu". Chama atenção o fato de que, em teoria, os softwares vendidos pelo grupo israelense só deveriam ser usados contra criminosos e terroristas, reforçando o aspecto ilegal de sua presença no celular de Torrent.  

 

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