Conheça o brasileiro que jogará a final de torneio mundial de Street Fighter

Jogar Street Fighter com os amigos, em casa, é uma coisa. Jogar street fightr 6 horas por dia, quase todos os dias, e ser membro de uma equipe que lhe fornece equipamentos e uma ajuda de custo para que você continue treinando, no entanto, é algo bastante diferente.

É isso, porém, que faz Keoma Pacheco. O gaúcho de Porto Alegre de 27 anos participará, nos dias 23 e 24 de abril, do segundo Red Bull Kumite, um torneio mundial de Street Fighter V que reúne os melhores jogadores do mundo, incluindo competidores do Japão, França e Coreia do Sul.

Antes dessa competição, Keoma (como é conhecido no meio) já participou de diversas outras. Ele venceu o torneio de Street Fighter IV Ultra da Brasil Game Show, em 2015, jogando a final contra o japonês Haitani (a luta pode ser vista abaixo). Essa vitória deu a ele uma vaga na Capcom Cup, uma disputa promovida pela própria Capcom, responsável pelo desenvolvimento do jogo. Quando ela ocorreu, em dezembro daquele ano, Keoma conquistou o sétimo lugar na competição.

Trajetória

Embora Keoma tenha jogado algumas versões anteriores de Street Fighter, ele começou a se aprofundar no jogo em 2009, com o lançamento de Street Fighter IV. Antes disso, ele também jogava os jogos da série King of Fighters. Já nesse ano, ele começou a competir em alguns eventos locais e disputas estaduais.

Com o tempo, o gaucho foi adquirindo consistência em seu estilo de jogo e “ganhando dominância” nos torneios que disputava, e sentiu que era capaz de ir mais longe. Em 2012, ele participou de uma competição de escala nacional do jogo, chegando em terceiro lugar, e desde então continuou a crescer. 

Sua participação na Capcom Cup no ano passado foi, para Keoma, o ápice de sua trajetória até agora. Não apenas pela sua boa colocação, mas também porque, durante as disputas, ele conseguiu vencer alguns jogadores de bastante renome, como SnakeEyez (o melhor jogador de Zangief do mundo) e GamerBee (jogador taiwanês que ficou em segundo lugar no campeonato EVO de 2015). Sua vitória contra SnakeEyez pode ser vista abaixo:

Essa última vitória foi particularmente saborosa: Keoma havia sido derrotado por GamerBee durante o Treta Armageddon Brazil Championship de Curitiba, em 2012, e durante a Capcom Cup ele pode ter sua revanche. Enquanto Keoma terminou em sétimo lugar, o taiwanês ficou com a décima terceira posição no torneio.

Luta difícil

Embora o brasileiro venha num ritmo bastante acelerado, ele tem alguns grandes desafios pela frente nos próximos meses. O principal deles é o fato de que o personagem Abel, com quem Keoma jogava até a última versão de Street Fighter IV, não está no Street Fighter V.

A ausência de Abel obriga Keoma a escolher um novo personagem, o que é uma tarefa muito mais difícil do que parece. Para cada personagem do jogo, é necessário estudar não apenas os golpes (leves, médios, fortes, agachados, aéreos e especiais) e combos, como também a quantidade de frames (quadros de animação) que cada um desses golpes leva para ser executado. O jogo roda a 60 quadros por segundo, e um quadro (cerca de 17 milésimos de segundo) pode fazer a diferença entre vencer ou perder um round.

E esse é apenas um aspecto do jogo. Em Street Fighter, sempre que dois ataques atingem o oponente no mesmo quadro, o ataque mais forte é o único a ser registrado. Isso exige que o combatente saiba não apenas a duração de cada ataque e sua força, como também tenha uma ideia de quais ataques o oponente pode usar - e como reagir a eles. Saber com precisão o alcance de cada movimento também é de importância vital, como se pode imaginar. O vídeo abaixo (em inglês) fala mais sobre os dados dos quadros de animação do jogo:

O gaucho ainda não conseguiu se decidir plenamente sobre qual personagem usar - como ele aponta, o novo Street Fighter foi lançado há apenas dois meses, e “nós ainda estamos nas fases iniciais de explorar o jogo”. Por ora, no entanto, ele está jogando com a personagem japonesa Karin, que havia aparecido antes apenas em Street Fighter Alpha 3.

Estilo de jogo

Keoma diz ter escolhido Karin por acreditar que a personagem se encaixa bem em seu estilo de jogo. Esse estilo, segundo ele próprio, envolve “forçar o oponente a abrir uma brecha e então matá-lo o mais rápido possível”. Ele também usa, para descrever seu estilo, as palavras “passivo” e “reativo”, e diz que prefere “induzir” seu oponente a agir da maneira como ele quer, para então aproveitar os erros dele.

Se a ausência de Abel no roteiro de Street Fighter V é um ponto contrário a Keoma, outras mudanças que o último jogo da série trouxe parecem ir mais ao seu favor. Segundo o gaúcho, o novo jogo flui mais rápido, tem rounds mais ágeis, premia melhor os riscos dos jogadores e corre de uma maneira tal que “tudo pode causar um dano irreversível” e viradas nos rounds podem acontecer muito rapidamente e com grande frequência.

Uma mudança, contudo, que afeta profundamente o jogo para todos os jogadores é o tempo de resposta dos controles (ou lag). Segundo Keoma, os personagens de Street Fighter V demoram muito mais tempo para responder aos inputs dos jogadores do que acontecia em Street Fighter IV. Embora jogadores casuais possam nem perceber essa diferença, para os atletas de alto nível (que podem vencer ou perder uma partida por causa de 17 milésimos de segundo) trata-se de uma mudança drástica.

O resultado final dela é que o jogo passa a depender menos de reflexos brutos (já que nem sempre dá tempo de reagir ao que se vê na tela) e mais da intuição. “Saber prever o que o seu oponente vai fazer conta muito mais agora”, diz Keoma. A comunidade que joga Street Fighter em alto nível já discutiu bastante se essa mudança é intencional ou se ela é um “defeito” do jogo, e ainda não chegou a uma conclusão. Mas para Keoma, algumas coisas que deveriam ser possíveis no jogo não são por conta disso, o que sugere que se trata de um defeito mesmo.

Apoio e patrocínio

Essas mudanças colocam uma série de desafios para o jogo de Keoma, mas ele não está sozinho para encará-los. Keoma é patrocinado pelo Team Innova, uma organização de e-sports criada pelo ex-jogador yeTz. A equipe auxilia o jogador gaúcho com equipamentos, custeio de viagem para participar em torneios e uma ajuda de custo mensal.

Reprodução

Keoma não pode revelar o quanto ganha de ajuda de custo, mas considera que ainda não se trata propriamente de um sálario: não é um valor que ele considere suficiente para custear sua vida. Por conta disso, o gaúcho trabalha também por meio período com seu pai, que tem uma empresa de gerenciamento de cargas, para complementar sua renda.

Ainda assim, essa ajuda é essencial para que Keoma consiga manter um ritmo de jogo compatível com os jogadores mais competitivos do circuito. Em dias de semana (e em “alguns fins de semana”), Keoma joga cerca de 6 horas de Street Fighter; nas semanas que antecedem as grandes competições (como essa semana), “todo meu tempo livre vai pra isso”, o que totaliza cerca de 10 horas diárias de jogo.

Como Street Fighter V ainda está em suas fases iniciais, o jogador diz ainda não ter uma rotina fixa de treinos. Ele passa boa parte de seu tempo no jogo se acostumando com os movimentos, tornando-os mais fluidos e precisos, se fammiliarizando com os personagens e com as maneiras de enfrentar diferentes oponentes e “tapando buracos” que já conhece em seu jogo.

Quando jogava Street Fighter IV Ultra, porém, Keoma tinha uma rotina de treinos mais bem desenhada. Ele reservava um dia da semana para simplesmente jogar, explorando o jogo, outro dia para assistir a gravações de suas partidas e outro dia ainda para “gerar estratégias a partir do que eu assisti, especialmente das partidas que eu perdi”.

Esportes virtuais

O esquema de treinamento de Keoma não é consideravelmente diferente do de atletas que participam de esportes mais tradicionais. A disputa em alto nível de jogos de luta exige um conhecimento profundo e detalhado das regras do jogo, um estudo das partidas passadas (e das partidas passadas do oponente) e muito, muito treino.

A diferença, obviamente, está no fato de que se trata de um jog virtual, que ainda é visto, segundo Keoma, de maneira muito diferente do que esportes tradicionais. Para o jogador, o país ainda tem uma “visão de fliperama” sobre os praticantes de esportes virtuais, em referência aos espaços escuros e geralmente mal-vistos que abrigavam os jogos eletrônicos na década de 90.

Essa visão se soma a outros problemas. Um dos principais, de acordo com o jogador, é o fato de que os jogos de videogame ainda são vistos pela legislação brasileira como jogos de azar, o que encarece os produtos e dificulta que o setor de esportes virtuais consiga apoio. Mas Keoma ainda tem uma visão relativamente otimista para o setor. De acordo com ele, nos últimos meses o número de jogadores de alto nível no país teve um crescimento considerável.

Keoma ainda espera um dia poder viver apenas como atleta de esportes virtuais. Isso implicaria conseguir um patrocínio ainda melhor, o que, obviamente, exigiria um desempenho ainda melhor dele. Mas, para ele, “quando a gente se torna confortável com uma situação, a gente acaba se estagnando”: com essa atitude, é provável que Keoma se torne um nome ainda maior na cena de Street Fighter do que já é.

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