Câmera de segurança

Celulares rastreiam a localização de milhares de estudantes nos EUA

Rafael Rigues 26/12/2019 15h12
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Cada vez mais universidades utilizam software para acompanhar automaticamente a assiduidade dos alunos ou identificar comportamentos de risco. Mas qual o preço a pagar por esta comodidade?

Sensores Bluetooth de curto alcance e redes Wi-Fi em todo o campus estão capacitando universidades nos Estados Unidos a rastrear centenas de milhares de estudantes com mais precisão do que nunca. Dezenas de instituições usam essa tecnologia para monitorar o desempenho acadêmico dos alunos, analisar sua conduta ou até mesmo avaliar sua saúde mental.


Entretanto, alguns professores e defensores da educação argumentam que os sistemas são uma tecnologia intrusiva, que viola a privacidade dos estudantes em grande escala. A preocupação é que os sistemas de rastreamento infantilizem os alunos exatamente quando eles deveriam se tornar adultos, treinando-os para ver a vigilância como uma parte normal da vida, quer eles gostem ou não.

“Somos adultos. Precisamos mesmo ser monitorados?”, disse Robby Pfeifer, estudante de segundo ano da Virginia Commonwealth University, em Richmond, que recentemente começou a registrar a presença de alunos conectados à rede Wi-Fi do campus. “Por que isso é necessário? Como isso nos beneficia? Será que isso irá continuar até que cada segundo dos nossos dias seja microgerenciado?".

Os norte-americanos afirmam em pesquisas que aceitam a invasão da tecnologia porque muitas vezes ela se parece com outra coisa: uma troca de preocupações futuras com a privacidade pela conveniência e conforto imediatos. Se um sistema de rastreamento pode melhorar os alunos, disse um orientador da faculdade, isso não é uma coisa boa?

Um dos professores que usa a tecnologia de monitoramento é Jeff Rubin, docente de Introdução à Tecnologia da Informação na Universidade de Siracusa, nos EUA. No auditório onde Rubin dá suas aulas há sete “beacons” Bluetooth que registram a entrada dos alunos assim que passam pela porta, recompensando-os com “pontos” pela presença.

Se faltarem à aula o sistema, chamado Spotter, também registra a ausência em um banco de dados que acompanha a assiduidade de todos os alunos ao longo do tempo. O software também avisa o professor, que pode contatar os alunos e perguntar porque não foram.

O resultado é que o auditório, que tem capacidade para 340 pessoas, nunca esteve tão cheio. “Eles querem os pontos”, disse o professor. “Eles sabem que estou acompanhando tudo, então seu comportamento muda”.
Algumas universidades vão ainda mais longe, usando sistemas que calculam “pontuações de risco” personalizadas com base em fatores como se o aluno está indo à biblioteca o suficiente.

Alguns educadores afirmam que esse movimento em direção a uma vigilância educacional mais intensa ameaça minar a independência dos estudantes e os impede de buscar interesses além da sala de aula, porque sentem que podem estar sendo observados.

"O que impede uma instituição de mudar sua estratégia de vigilância e começar a se concentrar em populações minoritárias e indivíduos específicos?", disse Kyle M. L. Jones, professor assistente da Universidade de Indiana que pesquisa a privacidade dos alunos. Os alunos “devem ter todos os direitos, responsabilidades e privilégios que um adulto possui. Então, por que os tratamos de maneira tão diferente? ”

Os alunos discordam se os sistemas de rastreamento nos campi são uma violação da privacidade e alguns argumentam que não têm nada a esconder. Mas um sentimento é compartilhado quase universalmente, de acordo com entrevistas com mais de uma dúzia de estudantes e professores: a tecnologia está se tornando onipresente e as pessoas que estão sendo monitoradas - seus colegas e elas mesmas - não podem realmente fazer nada a respeito.

"Estes sistemas incorporam uma visão muito cínica da educação - que ela é algo que precisamos impor aos estudantes, quase contra a vontade deles", disse Erin Rose Glass, da Universidade da Califórnia em San Diego." Estamos reforçando esse sentimento de impotência, quando poderíamos estar fazendo perguntas mais difíceis como “Por que estamos criando instituições nas quais os alunos não querem estar presentes”?

Fonte: The Washington Post

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