Primeiro filme da Netflix quebra paradigmas e provoca Hollywood

A Netflix lançou na última sexta-feira, 16, seu primeiro filme original. Beasts of No Nation conta a história de um conflito civil na África, explorando os limites da violência humana, a perda da inocência e os horrores da guerra. É o primeiro passo do serviço de streaming em busca do reconhecimento da indústria do cinema.

Em Beasts of No Nation, acompanhamos Agu (vivido pelo estreante ganense de apenas 15 anos Abraham Attah), uma criança que, pouco a pouco, vê a guerra entre diferentes facções milicianas destruir a realidade de seu país. Com o pai e o irmão mortos por soldados, e a mãe refugiada em outra cidade, o menino acaba acolhido pelo Comandante (o premiado ator britânico Idris Elba), líder de uma guerrilha que recruta crianças como máquinas de matar.

O filme é baseado no livro de mesmo nome escrito por Uzodinma Iweala. A história é fictícia, mas se baseia livremente em diversos conflitos em andamento em muitos países da chamada África subsaariana. Sem determinar a data ou o local em que Beasts of No Nation se passa, o diretor Cary Fukunaga (da primeira temporada de True Detective) consegue criar um contexto atemporal e onipresente, retratando uma realidade que é tão viva para populações africanas, mas, infelizmente, esquecida pelos povos ocidentais.

Seguindo a linha de filmes de guerra como Apocalypse Now e Cidade de Deus, Beasts of No Nation discute não apenas os horrores da guerra como também as condições de extrema fragilidade social em que certas populações se encontram no mundo. Testemunhando a transformação de Agu, de um menino assustado e apegado à mãe rumo a um assassino frio movido pelo ódio, vemos o quanto a exposição à violência sem limites é capaz de condicionar certas culturas a perder seus valores mais básicos de respeito à vida.

O diretor Cary Fukunaga não tem dó da audiência. Desde o momento em que vemos Agu matar pela primeira vez, passando por situações delicadas como pedofilia, estupro e uso de drogas, o filme nos mostra que, na guerra, não há como esperar por finais felizes. Mesmo quando o belo e inspirador discurso do Comandante quase nos convence de que aquela luta é justificada, o acúmulo de cadáveres de homens, mulheres e crianças ao longo do filme continua nos lembrando de que aquelas pessoas perderam a razão e a lucidez há muito tempo.

O que nos leva ao forte e carismático personagem de Idris Elba. O Comandante (cujo nome verdadeiro nunca é revelado) surge como uma figura de libertação à primeira vista, posando, por vezes, como um líder espiritual e até como um exemplo de justiça para os mais jovens. Com o desenrolar da história, e graças à brilhante atuação de Elba, vemos como sua visão de um mundo conquistado através da força não se sustenta quando toda a armação política por trás da guerra começa a desmoronar.

Do começo ao fim, Beasts of No Nation nos lembra de que não há lado bom na guerra, e que não há como esperar por um final feliz. Utilizando iluminação natural (ou naturalista) em diversas cenas, sem muitos caprichos técnicos - com exceção de um plano sequência ao melhor estilo True Detective -, Fukunaga economiza nos recursos visuais para deixar o roteiro e as interpretações falarem por si.

Beasts of No Nation não só nos apresenta a um cenário longe da supremacia branca dos filmes americanos como também abre mão do idioma inglês por boa parte do primeiro ato. A ideia da Netflix é claramente sustentar um cinema que não se limita por barreiras geográficas e culturais, apostando em um filme sensível e distante do que conhecemos em Hollywood.

Sem dúvida alguma, o filme tem grandes condições técnicas de disputar um prêmio na cerimônia do Oscar do ano que vem, o que é a intenção da Netflix. Se conseguisse, seria um grande impacto para a indústria do cinema, acostumada aos velhos sistema de distribuição que, pouco a pouco, podem perder espaço para a praticidade do streaming pela internet.

É difícil dizer o que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (responsável pela premiação do Oscar) vai achar da proposta da Netflix: se vai render-se à modernidade do cinema sob demanda ou se vai resistir em defender seu método comercial. Mas só de disponibilizar para o mundo um filme que chama a atenção para um problema tão sério, pelo qual toda a humanidade deveria se mobilizar, a empresa já ganha pontos por incentivar o cinema independente e a arte em sua forma mais pura.

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