Zuckerberg sugeriu que os dados de um usuário valem 10 centavos por ano

Documentos confidenciais do Facebook divulgados pelo Parlamento Britânico detalham discussões internas da empresa entre 2012 e 2015
Redação05/12/2018 20h48, atualizada em 05/12/2018 21h12
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O Parlamento do Reino Unido tornou público um arquivo de 250 páginas que anexa documentos confidenciais do Facebook. Os papéis incluem trocas de e-mails entre executivos do alto escalão da empresa, entre eles o CEO e fundador Mark Zuckerberg.

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Os documentos fazem parte do inquérito que o Parlamento Britânico abriu para apurar a responsabilidade do Facebook no escândalo da Cambridge Analytica, empresa de marketing que teve acesso indevido a dados de 87 milhões de usuários do mundo todo.

As trocas de e-mails e informações descritas nos documentos foram obtidas pelo Parlamento Britânico juntamente à Six4Three, uma startup do Reino Unido que processou o Facebook depois que a rede social bloqueou o seu acesso à plataforma de APIs.

A maioria dos documentos e e-mails no arquivo datam de 2012 a 2015. Damian Collins, líder da Comissão de Mídia, Cultura, Digital e Esportes do Parlamento, destacou algumas das principais descobertas – muitas das quais colocam o Facebook em maus lençóis.

A empresa, porém, afirma que os documentos estão fora de contexto e mostram apenas “um lado” da história. “Os documentos foram vazados seletivamente para publicar algumas, mas não todas, as discussões internas no Facebook no momento de nossas mudanças de plataforma. Mas os fatos são claros: nunca vendemos dados pessoais de usuários”, diz a companhia em comunicado.

Estas são algumas das descobertas obtidas através dos documentos:

1. Mark Zuckerberg sugeriu que os dados de um usuário valem 10 centavos por ano;

O Facebook argumenta que nunca vendeu dados de usuários, apenas as ferramentas para usar informações genéricas a respeito dos milhões de pessoas na rede social. No entanto, os documentos mostram que a empresa discutia internamente como precificar e ganhar dinheiro com esses dados.

Em um e-mail de outubro de 2012, o próprio Zuckerberg sugere um modelo de monetização que coloca o preço de um usuário a 10 centavos por ano. “Um modelo básico poderia ser: o login com o Facebook é sempre gratuito… O envio de conteúdo para o Facebook é sempre gratuito… Ler qualquer coisa, inclusive amigos, custa muito dinheiro. Talvez na ordem de US$ 0,10/usuário a cada ano”, escreveu o CEO.

Em comunicado, o Facebook argumentou: “nós exploramos várias maneiras de criar um negócio sustentável com desenvolvedores que estavam criando aplicativos úteis para as pessoas. Mas, em vez de exigir que os desenvolvedores comprassem publicidade – a opção discutida nesses e-mails selecionados -, finalmente decidimos por um modelo em que os desenvolvedores não precisavam comprar publicidade para acessar as APIs e continuamos a fornecer gratuitamente a plataforma do desenvolvedor”.

2. O Facebook liberou acesso a dados de usuários para empresas após dizer que não faria isso;

Em 2015, o Facebook implementou mudanças à sua plataforma de conexão com apps de terceiros para limitar o volume de dados que essas startups e desenvolvedores podem acessar. Mas, segundo alguns e-mails, a empresa liberou apps selecionados para que eles pudessem driblar este novo esquema de segurança.

Entre eles estão Netflix e Aibnb, que entraram numa “lista branca” do Facebook. Numa troca de e-mails realizada em fevereiro de 2015 entre Konstantinos Papamiltidas, diretor de parcerias da rede social, e Chris Barbour, da Netflix, o segundo diz: “Nós entraremos na lista branca para ter todos os amigos, não só os amigos conectados”.

Os “amigos” a que Barbour se refere são amigos de usuários na rede social e seus dados. O Facebook explicou em comunicado que, “em algumas situações, quando necessário, nós permitimos que os desenvolvedores acessem uma lista de amigos dos usuários. Isto não inclui informações privadas de amigos, mas uma lista de seus amigos (com nome e foto do perfil)”.

3. Zuckerberg admitiu que o que é “bom para o mundo” nem sempre é bom para o Facebook;

Em um e-mail enviado em 19 de novembro de 2012, Zuckerberg fala sobre “reciprocidade”, e sobre o que exigir de apps de terceiros que queiram acessar dados de usuários. Em meio a isso, o CEO admite em certo ponto que nem tudo o que é “bom para o mundo” é bom para o Facebook, e isto deveria ser levado em conta nas decisões da empresa.

“Estamos tentando permitir que as pessoas compartilhem tudo o que quiserem e façam isso no Facebook”, escreve Zuckerberg. “Às vezes, a melhor maneira de permitir que as pessoas compartilhem algo é que um desenvolvedor crie um aplicativo para fins especiais ou uma rede para esse tipo de conteúdo, e tornar esse aplicativo social colocando o plugin do Facebook nele.”

“No entanto, isso pode ser bom para o mundo, mas não é bom para nós”, continua Zuckerberg, “a menos que as pessoas também compartilhem de volta no Facebook e que esse conteúdo possa aumentar o valor de nossa rede. Então, em última análise, acho que o propósito da plataforma – até mesmo o lado da leitura – é o de aumentar o compartilhamento no Facebook”.

Em comunicado, a empresa não comenta diretamente a fala de Zuckerberg, mas diz que a política de reciprocidade “exigia que os desenvolvedores dessem às pessoas a opção de compartilhar informações de volta ao Facebook por meio do aplicativo do desenvolvedor. Isto significa que você poderia compartilhar sua experiência com o aplicativo (pontuação do jogo, foto etc.) de volta para seus amigos do Facebook, se quisesse”.

4. O Facebook tentou coletar dados de usuários do Android sem que eles percebessem;

Em março deste ano, caiu na imprensa a notícia de que o Facebook guardava um registro de ligações e de mensagens de texto de usuários de Android. A empresa admitiu a prática, disse que pedia permissão ao usuário (por meio dos termos de uso que quase ninguém lê) e foi criticada por isso.

Em alguns e-mails divulgados nesta quarta, executivos da empresa admitiram que o recurso seria polêmico, mas que valeria a pena. E, em certo ponto, até discutiram como fazer isto sem que o usuário soubesse. Toda essa discussão está registrada em e-mails trocados entre Michael LeBeau, gerente de produtos da empresa, e um diretor chamado Yul Kwon.

O primeiro diz que solicitar acesso às ligações e SMS de usuários no Android seria “uma coisa de alto risco a se fazer de um ponto de vista de relações públicas”, mas “parece que o crescimento conquistado vai valer a pena”. Kwon, em resposta, chega a dizer que seria possível colocar este recurso no app do Facebook sem que o usuário fosse notificado sobre a exigência de permissão.

Em comunicado, o Facebook admite a coleta destas informações (como já admitiu no passado) e diz que elas servem para “fazer sugestões melhores sobre pessoas a serem chamadas no Messenger”, por exemplo. “Após uma revisão completa em 2018, ficou claro que esta informação [registro de ligações e SMS] não é tão útil após cerca de um ano”, argumentou a empresa.

5. O Facebook restringiu de propósito o acesso de concorrentes às suas ferramentas;

Os documentos também mostram que executivos do Facebook discutiram maneiras de restringir o acesso de alguns concorrentes estratégicos às suas ferramentas de propósito. Entre eles o Vine e o Twitter.

Num e-mail de janeiro de 2013, por exemplo, um executivo chamado Justin Osofsk diz: “o Twitter lançou hoje o Vine, que permite gravar múltiplos segmentos de vídeos curtos para montar um só vídeo de 6 segundos. Como parte do aplicativo, você pode encontrar amigos pelo FB. A não ser que alguém levante objeções, vamos desligar o acesso deles à API de amigos hoje. Estamos preparados para uma reação de relações públicas”.

Em um memorando anexado aos documentos, sem data, lê-se que o Facebook “mantém uma pequena lista de concorrentes estratégicos que Mark avalia pessoalmente. Apps produzidos pelas empresas nesta lista estão sujeitos a um número de restrições descritas abaixo. Qualquer uso além daquilo que está especificado não é permitido sem a aprovação de Mark”.

Em resposta a isso, o Facebook argumenta que tomou “a decisão de restringir apps construídos com base na nossa plataforma que replicassem a nossa funcionalidade básica”. “Esse tipo de restrição é comum em toda a indústria de tecnologia, com diferentes plataformas tendo suas próprias variantes, incluindo YouTube, Twitter, Snap e Apple.”

A empresa completa: “analisamos regularmente nossas políticas para garantir que elas protegem os dados das pessoas e permitem que serviços úteis sejam criados em nossa plataforma para o benefício da comunidade do Facebook”. E por conta disso, a companhia decidiu “remover esta política desatualizada para que nossa plataforma permaneça o mais aberta possível”.

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Redação é redator(a) no Olhar Digital