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Sob sua atmosfera extremamente espessa, o planeta Vênus é escaldante, com grande parte de sua superfície moldada por atividade vulcânica. Pela primeira vez, geólogos conseguiram evidências para afirmar se o planeta ainda é vulcanicamente ativo.

Vênus tem muitas características vulcânicas em sua superfície, como planícies, coronas e cúpulas vulcânicas amplas e escudos montanhosos de vulcões. Uma equipe liderada pela geofísica Anna Gülcher, da ETH Zürich, na Suíça, usaram simulações para entender as formações e o crescimento das coronas. Com isso, determinaram que as características observadas em Vênus são jovens. Em outras palavras, o planeta está longe de ser vulcanicamente extinto.

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“É a primeira vez que podemos apontar para estruturas específicas e dizer ‘veja, este não é um vulcão antigo, mas ativo hoje, dormente, mas não morto'”, explicou o geólogo Laurent Montési, da Universidade de Maryland. “Este estudo muda significativamente a visão de Vênus de um planeta quase inativo para um cujo interior ainda está agitado e pode alimentar muitos vulcões ativos”. A pesquisa foi publicada na revista Nature Geoscience.

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Corona na superfície de Vênus. Imagem: Nasa/JPL

Há algum tempo, entende-se que a superfície do planeta é relativamente jovem em comparação com outros planetas do Sistema Solar. A análise e o mapeamento geológico aprofundados mostraram que a maior parte de Vênus sofreu ressurgimento ao longo dos últimos bilhões de anos.

É claro que muita coisa pode acontecer em um bilhão de anos. O interior de Vênus pode ter esfriado, e a crosta endurecido a tal ponto que não permita a passagem do magma líquido para a superfície. No entanto, as evidências dizem o contrário.

Nas décadas de 1970 e 80, por exemplo, a sonda Pioneer Venus Orbiter encontrou características de dióxido de enxofre na atmosfera do planeta. Um artigo de 2015 descobriu que pontos brilhantes transitórios correlacionados com características geológicas muito jovens podem ser consistentes com os fluxos de lava. No início de 2020, outro artigo simulou as taxas de intemperismo das olivinas (um grupo mineral) de Vênus e descobriu que os fluxos de lava no planeta eram provavelmente muito jovens.

A equipe de Gülcher buscou respostas em uma característica vulcânica chamada corona. Elas parecem com crateras de impacto e consistem em um anel elevado (como uma coroa) em torno de um centro afundado, com fraturas concêntricas irradiando para fora. Eles podem ter centenas de quilômetros de diâmetro.

Inicialmente, os cientistas acreditavam que essas estruturas de fato eram crateras, mas uma análise mais detalhada revelou sua natureza vulcânica. Elas são causadas por plumas de material derretido que brotam do interior do planeta, empurrando a superfície para cima em uma cúpula que colapsa quando a pluma esfria, vazando para os lados e formando o anel.

Na Terra, o movimento das placas tectônicas restringe a formação desse tipo de estrutura, mas Vênus não tem placas tectônicas, então as coroas crescem como espinhas planetárias.

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Comparação das coronas reais (A) com as simulações (B). Imagem: Gülcher et al., Nature Geoscience, 2020

Para entender esse processo, os pesquisadores modelaram numericamente a atividade termomecânica no interior de Vênus. Com isso, eles geraram simulações de alta definição em 3D do processo de formação da corona, variando parâmetros como tamanho e temperatura da pluma e espessura da litosfera para obter uma vasta gama de resultados.

Ao simular sua evolução ao longo do tempo, a equipe conseguiu identificar características vistas principalmente em coronas muito jovens e ativas recentemente, além de determinar as alterações causadas pelo tempo.

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As coronas ativas aparecem em vermelho e as inativas em branco neste mapa global de Vênus. Imagem: Anna Gülcher

Essas simulações foram então comparadas com as coroas reais na superfície do planeta. Além disso, a equipe conseguiu determinar que variações de coronas na superfície venusiana representam diferentes estágios no desenvolvimento geológico. Isso sugere fortemente que o interior do planeta ainda está ativo e as coronas ainda estão evoluindo.

Segundo Montési, 37 coronas foram ativas recentemente. Elas estão agrupadas em alguns locais, sugerindo que algumas regiões são mais ativas que outras – e mostrando onde futuras missões orbitais ou até terrestres devem focar sua atenção.

Via: Science Alert