Um estudo, publicado no último dia 2, na revista médica Neurology, apontou que os medicamentos anticolinérgicos podem estar associados a um maior risco de declínio cognitivo. Muitos desses remédios são tomados para alergias, resfriados, hipertensão e incontinência urinária. Os riscos para quem os ingere, sobretudo, são mais evidentes em adultos mais velhos — e já com maiores chances de doença de Alzheimer.

Tal constatação veio após os especialistas acompanharem a rotina farmacológica de 688 adultos com idade média de 74 anos. Um terço dos participantes estava tomando medicamentos anticolinérgicos. Por um período de até dez anos, todos foram observados por meio de testes cognitivos anuais. 

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Como resultado, os pesquisadores observaram que, entre aqueles que tomavam ao menos um anticolinérgico, 47% tiveram maior probabilidade de adquirir comprometimento cognitivo leve (CCL) — condição considerada uma “transição” entre a cognição normal e a demência. 

Além disso, os especialistas analisaram os possíveis fatores genéticos e os biomarcadores que os participantes poderiam ter para o Alzheimer. Ao estudarem o líquido cerebral de todos os voluntários, os pesquisadores notaram que aqueles que tomavam anticolinérgicos, e que já tinham predisposição genética para a doença, apresentavam 2,5 vezes mais riscos de terem CCL. ReproduçãoPessoas com biomarcadores ou predisposição genética ao Alzheimer têm maiores riscos de comprometimento cognitivo ao ingerirem remédios anticolinérgicos. Crédito: Pixabay

Já aqueles que possuíam biomarcadores para o Alzheimer e também tomavam anticolinérgicos tinham ainda maiores probabilidades de danos cognitivos: cerca de quatro vezes mais do que pessoas sem esses dois critérios. 

Outro fator que chamou a atenção dos pesquisadores foi que os medicamentos estavam sendo tomados em níveis muito mais elevados do que a menor dose recomendada para adultos mais velhos. 57% deles tomavam o dobro da dosagem recomendada; já outros 18% dos entrevistados ingeriam pelo menos quatro vezes a quantidade recomendável. 

“Isso aponta para uma área potencial de melhoria, uma vez que a redução das dosagens dos medicamentos anticolinérgicos pode atrasar o declínio cognitivo”, observou, em comunicado, Alexandra Weigand, líder do estudo. “É importante que os adultos mais velhos que tomam medicamentos anticolinérgicos consultem regularmente seus médicos e discutam o uso e as dosagens dos remédios.”

Como os anticolinérgicos atuam no organismo

Alguns desses medicamentos exigem receita médica; outros não, por serem de composição mais simples. Porém, todos tem um fato em comum: eles bloqueiam um tipo de neurotransmissor chamado acetilcolina, que atua como um mensageiro químico responsável pela memória.

Tudo começa quando biomarcadores de Alzheimer “avisam” que a doença começou a degenerar a região cerebral que produz a acetilcolina. A seguir, os remédios corrompem ainda mais o estoque desse neurotransmissor, aumentando a possibilidade do indivíduo desenvolver a doença. “Este efeito combinado afeta de forma mais significativa o pensamento e a memória de uma pessoa”, explicou Weigand.