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De uns dias para cá, intensificado pelas mudanças na política de privacidade do WhatsApp, o Signal vem despontando como uma alternativa mais segura ao aplicativo mais popular do mundo. Até então desconhecido pelo público geral, Signal ganhou fama quando figuras como o ex-analista da NSA, Edward Snowden, confessou a predileção pelo app aos 4,5 milhões de seguidores no Twitter.

Elogiado por especialistas e pesquisadores em segurança da informação e detestado por órgãos governamentais, o aplicativo foi criado por Matthew Rosenfeld, mais conhecido por Moxie Marlinspike, que há anos advoga em nome da privacidade online. No currículo, o empreendedor americano coleciona a criação de sistemas de segurança para o Twitter, Skype e para o próprio Facebook.

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O “engenheiro de software, hacker, marinheiro, capitão e construtor naval”, como próprio se descreve, poupa palavras em entrevistas, discreto, revela pouco de si – informações pessoais são raras (não se sabe, por exemplo, sua idade), e apenas sua carreira no setor da tecnologia é pública.

Carreira

Em 2010, ele fundou a empresa sem fins lucrativos Open Whisper Systems, posteriormente comprada pelo Twitter, que o tornou chefe de segurança de produto da rede social. Quatro anos depois, ao lado do engenheiro de criptografia Trevor Perrin, criou o Signal Protocol – um sistema que fornece criptografia ponta a ponta para mensagens de texto e chamadas de voz e vídeo.

O protocolo, que mais tarde se tornaria a base do app Signal, foi usado para aprimorar a segurança do WhatsApp, Facebook Messenger, e o Allo, do Google. “Muito antes de sabermos que se chamaria Signal, sabíamos o que queríamos que fosse”, conta Marlinspike no blog da sua empresa.

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Perfil de Moxie Marlinspike no Instagram

“Em vez de ensinar criptografia ao resto do mundo, queríamos ver se poderíamos desenvolver uma criptografia que funcionasse para o resto do mundo. Na época, o consenso da indústria era que a criptografia seria inutilizável, mas começamos o Signal com a ideia de que a comunicação privada poderia ser simples”, comentou o empreendedor.

Criptografia robusta

“A missão da Signal sempre foi tornar a criptografia ponta a ponta o mais onipresente possível, ao invés de um sucesso comercial”, disse Marlinspike à revista The New Yorker. Sem fins lucrativos, a organização criada pelo hacker funciona inteiramente por doações. O produto da sua criação tem código base aberto, ou seja, está disponível para qualquer pessoa baixar, editar, melhorar e comentar.

A criptografia criada por Marlinspike em seus projetos é tão segura que só as pessoas nas duas pontas da conversa podem compreender o conteúdo da mensagem – nem mesmo autoridades conseguem quebrar o código que dá segurança à comunicação. “Em 2016, o governo dos EUA obteve acesso aos dados do usuário do Signal por meio de uma intimação”, lembra Marlinspike.

Os únicos dados disponíveis sob o poder da fundação eram a data de criação da conta e a data em que o número se conectou pela última vez aos servidores do Signal. “Não havia (e ainda não há) realmente nada para obter”, comemorou o engenheiro em um post no seu blog.

“Conheci Moxie em 2013, quando estava no WhatsApp, e estávamos trabalhando para adicionar criptografia de ponta a ponta ao aplicativo”, afirma o cofundador do WhatsApp, Brian Acton. “Fiquei impressionado com sua capacidade técnica e admirei sua paixão e compromisso absoluto com a proteção de dados e privacidade pessoal”.

Perfil de Moxie Marlinspike no Instagram

“Todos devemos ter algo a esconder”

Ainda 2013, quando o ex-analista da Agência de Segurança Nacional americana (NSA) Edward Snowden (que é um usuário do Signal) revelou programas de vigilância em massa nos EUA, Marlinspike escreveu em seu blog pessoal um artigo, no qual defendia que “todos devemos ter algo a esconder”. Para o engenheiro de software, a privacidade permite que as pessoas experimentem a violação da lei como um precursor do progresso social.

“Imagine se houvesse uma realidade distópica alternativa em que a aplicação da lei fosse 100% eficaz, de forma que qualquer infrator em potencial soubesse que seria imediatamente identificado, apreendido e preso”, escreveu Marlinspike. “Como as pessoas puderam decidir que a maconha deveria ser legal, se ninguém nunca a usou? Como os estados podem decidir que o casamento do mesmo sexo deve ser permitido?”, questionou.

Se esse discurso lembra o conceito de “crimideia”, da famosa obra “1984”, de George Orwell, ele não é por acaso: Marlinspike já usou a url “thinkingcrime.org” como seu endereço pessoal na web. Ao Wall Street Journal, o engenheiro contou que na adolescência estava mais interessado em quebrar softwares que criá-los. Ele passou a proteger os dados à medida que ficava mais preocupado com a vigilância.

O Signal foi fundado sob a premissa de que a vigilância em massa, especialmente por governos e corporações, deveria ser algo impossível. “Isso representa uma diferença fundamental em como pensamos sobre conceitos como privacidade, segurança e confiança. Não acreditamos que a segurança e a privacidade tenham a ver com o gerenciamento ‘responsável’ dos seus dados sob nosso controle, mas sim sobre como manter seus dados fora do alcance de outras pessoas – incluindo as nossas”, explica Marlinspike.

Via: The New Yorker/Wired/Wall Street Journal

*Editado por Liliane Nakagawa