Um dos primeiros e mais influentes médicos defensores do uso da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19 mudou de ideia. Didier Raoult, microbiologista francês, agora afirma que o emprego do medicamento em nada influi na redução de mortes ocasionadas pela doença.

“As necessidades de oxigenoterapia, a transferência para UTI e o óbito, não diferiram significativamente entre os pacientes que receberam hidroxicloroquina com ou sem azitromicina e os controles feitos apenas com tratamento padrão”, disse em carta enviada ao Centro Nacional de Informações de Biotecnologia da França. O documento, originalmente publicado em 4 de janeiro, foi obtido pelo jornal francês Le Figaro.

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No início da pandemia, entre março e maio de 2020, um estudo conduzido por Raoult serviu de base para que muitos chefes de estado adotassem o uso da cloroquina como tratamento e também na prevenção da Covid-19.

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Hidroxicloroquina já foi defendida por médico francês no tratamento da Covid-19. Imagem: uso da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19

O estudo em questão, porém, não obedeceu a padrões técnicos e contava com apenas 42 participantes, indo em contraste com diversas outras pesquisas – com recortes maiores de população -, que revelaram que o medicamento não influi em nada e, se aplicado em excesso, pode trazer mais efeitos colaterais nocivos. Raoult chegou até a ser investigado pelo conselho federal de medicina na França.

Cloroquina no Brasil

Um dos proponentes da cloroquina para tratamento da Covid-19 é o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (sem partido), que usou o estudo de Didier Raoult para levantar o nome do medicamento como uma “via preventiva”, chegando a ordenar a produção ampliada do remédio.

Recentemente, o Ministério da Saúde, liderado pelo general Eduardo Pazuello – indicação de Bolsonaro – foi criticado por tentar promover um “kit anti-covid”, contendo cloroquina, ivermectina e azitromicina, entre outros produtos – todos sem comprovação científica para tratar desta doença.

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Hidroxicloroquina é alardeada por muitos como uma via de prevenção à Covid-19. Imagem: Marcelo Ricardo Daros/Shutterstock

Na segunda-feira (18), Pazuello mentiu à imprensa ao dizer que a pasta não tinha procedimentos de tratamento precoce, sendo amplamente questionado com fotos e testemunhos pelas redes sociais e a própria imprensa.

Essas discrepâncias vêm se tornando mais evidentes nas redes sociais. No último fim de semana, o Twitter bloqueou uma publicação do perfil oficial do Ministério da Saúde, rotulando-a como “enganosa” e contendo “informações potencialmente prejudiciais”. A publicação mencionava os medicamentos listados acima.

O consenso médico global é de que não há nenhum medicamento capaz de tratar ou prevenir a infecção pelo coronavírus. Por ora, a principal medida de proteção é o isolamento enquanto esperamos as campanhas de vacinação progredirem no país, segundo os médicos.

Fonte: UOL / Le Figaro