Criado pelo Ministério da Saúde para orientar profissionais de saúde no diagnóstico de Covid-19, o aplicativo TrateCov já está envolto em polêmicas com apenas uma semana de uso. Primeiro, por sugerir o tratamento precoce com remédios sem eficácia comprovada, como cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina.
Ademais, o app pode ser acessado por qualquer pessoa. E ainda, as políticas de uso e privacidade de dados da plataforma são pouco claras e sem respaldo na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), conforme reporta o Uol.
Ao ser descoberta por jornalistas e especialistas da área da saúde no Twitter, a plataforma serviu de teste para várias pessoas fazerem simulações com perfis diferentes de pacientes fictícios.
Cloroquina é um dos medicamentos indicados pelo TrateCov no tratamento da Covid-19. Foto: Marc Bruxelle/Shutterstock
Segundo os testes informais realizados pelo público, o TrateCov indica para tratamento precoce os seguintes medicamentos: ivermectina, cloroquina, hidroxicloroquina, azitromicina, sulfato de zinco, doxiciclina, zinco e dexametasona. As diferenças nos resultados das simulações estavam na alteração na dosagem, que varia conforme o peso do paciente indicado no formulário.
Ao examinar o aplicativo, o jornalista de dados Rodrigo Menegat conseguiu fazer uma cópia do código do mesmo. Ele reparou que havia oito medicamentos no código fonte para o tal tratamento precoce.
Já o desenvolvedor Lucio Maciel decifrou o sistema de pontuação do TrateCov. Dependendo das condições clínicas citadas no formulário, o paciente pode obter uma soma em que há a sugestão do uso de medicamentos.
Baixa Saturação (< 92%): 5 Falta de ar: 5
Aos escores e indicações: 0-1 pontos: Apenas indicação de PCR com até 5 dias de sintomas 2-3 pontos: POSSIVELMENTE COVID-19. PCR obrigatório para pacientes de risco. Aguardar o resultado do rt-PCR antes de iniciar o tratamento.
Ou seja, se uma pessoa saudável apresenta dois sintomas quaisquer (como dor de cabeça e cansaço, por exemplo), já é sugerido o tratamento precoce.
Para Hiago Kin, presidente da Associação Brasileira de Segurança Cibernética, seria preciso mais testes para comprovar se o sistema está condicionado a indicar apenas tratamento precoce contra a Covid-19. “Ele [o programador Rodrigo Menegat] exibiu o código fonte da página já pronta com o resultado, e não do algoritmo. É uma teoria sem prática estatística comprovada, embora o TrateCov não deixe claro suas lógicas”, argumenta.
Em resposta, o Ministério da Saúde informou por nota que o TrateCov sugere “opções terapêuticas disponíveis na literatura científica” e “oferece total autonomia para que o profissional médico decida o melhor tratamento para o paciente”. Sobre os medicamentos citados, o ministério diz que a lista “pode sofrer alterações de acordo com os estudos científicos em andamento”.
Política de uso de dados
O TrateCov foi desenvolvido pela Universidade Vanderbilt, de Nashville, nos EUA, e está hospedado em um sistema chamado Redcap (Research Electronic Data Capture). Segundo a plataforma, cabe ao desenvolvedor de cada empresa ou entidade que usa o sistema informar sobre o tratamento de dados das pessoas envolvidas.
No app não há nenhuma menção sobre como os dados seriam tratados —se seria apenas para ajudar no diagnóstico ou se seriam armazenados. O TrateCov pede informações como nome, data de nascimento, telefone, entre outros dados pessoais.
“O governo e a aplicação agem como se fossem titulares dos dados, e não controladores, que necessitam pedir o consentimento ao explicar a finalidade de uso”, avalia Kin. Para ele, apesar de a LGPD já estar vigente no país e o governo ser responsável por fiscalizá-la, “o governo não dá o exemplo”.
Pai de três filhos, André Lucena é o Editor-Chefe do Olhar Digital. Formado em Jornalismo e Pós-Graduado em Jornalismo Esportivo e Negócios do Esporte, ele adora jogar futebol nas horas vagas.