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O mundo ficou assustado no início desta semana quando, na segunda-feira (25), um site alemão deu uma notícia chocante: a CoviShield, a vacina de Oxford/AstraZeneca, teria apenas 8% de eficácia na proteção de pessoas idosas com mais de 65 anos, o que a tornaria, na prática, inútil no combate à Covid-19 justamente entre o principal grupo de risco.

Com o passar das horas, a situação começou a se mostrar nebulosa. O Handelsblatt, publicação que deu a informação primeiro, citava fontes internas e anônimas do governo alemão, sem dados que pudessem embasar a informação. Rapidamente, pesquisadores começaram a cobrar informações científicas que pudessem embasar a afirmação, já que, se confirmada, o panorama global de vacinação precisaria ser completamente reformulado.

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Primeiro, a AstraZeneca rejeitou diretamente a matéria. “Os relatos de que a eficácia da vacina da AstraZeneca/Oxford é de apenas 8% em adultos com mais de 65 anos é completamente incorreta. Em novembro, publicamos dados na revista The Lancet demonstrando que idosos mostraram respostas imunológicas robustas à vacina, com 100% dos adultos mais velhos gerando anticorpos específicos contra a proteína spike após a segunda dose”, disse o comunicado.

Os 8% de eficácia também seriam bastante incompatíveis com os resultados obtidos na fase 3 dos testes clínicos da vacina, com eficácia demonstrada de 62% e uma indicação de que, dependendo da dosagem, seria possível elevar esse número para cerca de 90%, embora o grupo que recebeu o regime diferenciado seja pequeno, dificultando uma análise.

Agora, nesta terça-feira (26), o governo alemão jogou ainda mais dúvidas sobre a história publicada pelo Handelsblatt. O Ministério da Saúde da Alemanha, quando questionado, disse que provavelmente houve uma confusão por parte da fonte da matéria. No caso, 8% seria a proporção de participantes no estudo que tinha 65 anos ou mais, e não a eficácia da vacina para esta população, que é um dado que mede a redução das chances de um indivíduo vacinado se contaminar ou desenvolver complicações em comparação com quem não se vacinou.

O que os pesquisadores da vacina admitem em relação a idosos que participaram dos ensaios clínicos, no entanto, é que não houve muitos dados acumulados entre os voluntários das faixas etárias mais avançadas. Mesmo assim, os resultados, apesar do baixo volume, obtidos com os mais velhos foram considerados promissores e incompatíveis com os tais 8% de eficácia relatado pelo jornal alemão.

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Como explica Adam Finn, professor da Universidade de Bristol envolvido com os testes da vacina no Reino Unido, ao site The Guardian, os idosos foram recrutados no país mais tarde que o resto dos voluntários, o que ajuda a explicar os poucos dados acumulados sobre essa população durante os ensaios.

Segundo Finn, mesmo esses poucos dados se mostraram suficientes para que a vacina tivesse seu uso aprovado pela Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde (MHRA), órgão equivalente à Anvisa no Reino Unido.

Então, neste momento, não há um número oficial para rebater os 8% de eficácia noticiado pela imprensa alemã, mas a reação de todos os envolvidos diretamente no projeto parece indicar que a estatística não é real.