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Quem disse que o mundo já tem redes sociais o suficiente? Nos últimos dias, a internet foi pega de surpresa com o conceito do ClubHouse, a rede social que se destaca das demais pelo fato de apostar em um novo formato de publicação, com a postagem de áudio gravado em vez de texto ou fotos.

No entanto, a rede social que se destaca pelo formato diferente, também acumulou algumas críticas ao longo desses poucos dias de viralização. Não faltam críticas em termos de acessibilidade ou até mesmo de privacidade.

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Confira alguns dos problemas da plataforma:

Questões de privacidade

Quem se preocupa com a proteção de seus dados precisa estar atento ao ClubHouse. Sim, é uma rede social como qualquer outra, que vive à base dos seus dados. No entanto, a plataforma já está sendo criticada por formas “inovadoras” de utilizar informações dos seus usuários indevidamente.

Vamos supor que você nunca ouviu falar em ClubHouse, não tem vontade de criar conta e tem raiva de quem já criou. Como percebeu o blog OneZero, você pode assumir desde já que eles já têm suas informações de contato e um “perfil fantasma” ligado a você, graças aos dados compartilhados por quem tem suas informações como nome e número telefônico na agenda do celular.

O aplicativo orienta e dá a entender que o usuário deve fornecer sua lista de contatos quando começa a usar o serviço. É possível não oferecer essa informação, mas o app até chega a utilizar um emoji de um dedo apontando para o botão para confirmar o compartilhamento da lista de contatos.

Então, presuma que alguém que tem seu número na agenda já fez isso, o que permite que a empresa já consiga traçar um mapa social de quem te conhece, seja um amigo, seja um colega de trabalho, seja uma pedicure que guarda o telefone dos clientes.

Mais curioso ainda, a plataforma também demonstra quantas pessoas na plataforma têm em suas respectivas agendas o número de cada um na sua lista de contatos, então o mapa social está traçadíssimo, mesmo para quem não tem a menor intenção de se cadastrar. E é muito provável que esses dados serão usados pela empresa para aumentar sua rentabilidade.

Exclusão por deficiência

O conceito da rede social, de ser uma plataforma exclusiva de publicação de áudio, faz com que ela seja diferente de todas as outras. É o que tem atraído essa base de “early adopters”, atraídos pela novidade.

No entanto, o diferencial do Clubhouse também é motivo de exclusão. O formato de áudio e a impossibilidade de publicação de texto invariavelmente deixará de fora potenciais usuários surdos, incapazes de ouvir o que é discutido na plataforma e participar dessas conversas.

Outras plataformas têm diferentes formas de serem acessíveis. Mesmo o Instagram, que é profundamente visual, tem seus mecanismos para permitir que os cegos consigam saber o que está sendo compartilhado. É possível acrescentar legendas às fotos, e o app ainda utiliza inteligência artificial para interpretar as publicações para gerar uma audiodescrição para quem não pode enxergá-las.

Sem a possibilidade de digitar mensagens ou enviar imagens, o app jamais será inclusive a quem não pode ouvir.

Exclusão por design

O conceito da rede social, por si só, já é exclusivo, em vez de ser inclusivo, já que deixa de fora uma parcela da população que não pode se comunicar por áudio. No entanto, a própria empresa parece apostar na exclusividade como forma de popularização.

É um mecanismo que já se provou amplamente efetivo ao longo dos anos. Abrir uma rede social apenas para convidados imediatamente cria demanda pelos seus convites, com pessoas curiosas para entender o que há de tão especial para a plataforma ser tão exclusiva.

Na prática, o que acontece com o ClubHouse é igual ao que aconteceu nos primeiros dias dos finados Orkut e Google Wave, que tiveram seus lançamentos amplificados justamente pela dificuldade em acessá-los. Mais recentemente, outra rede social, chamada Ello, fez o mesmo, com a promessa de ser um “anti-Facebook”, com foco em privacidade, e lançou o serviço apenas para convidados.

Não é diferente do restaurante ou da festa que estimula as filas em sua porta como forma de divulgação de seu serviço. Afinal de contas, se tanta gente quer entrar, é porque deve haver algo de especial, não?

Exclusão social

Mais uma demonstração de que o ClubHouse foi feito para não ser para todo mundo é o fato de que ela também discrimina usuários com menor poder aquisitivo. E isso é simples de observar: o aplicativo existe apenas para iOS, até o momento em que o aplicativo é escrito.

Não há uma declaração formal dos desenvolvedores dizendo que esse era um objetivo, mas na prática é o que acontece. Não há como fugir: o iPhone é um celular de elite; ele pode ser mais popular em países com economias mais desenvolvidos, como nos Estados Unidos ou em algumas partes da Europa, mas essa não é a realidade na maior parte do mundo.

O Android, por sua vez, é o sistema operacional mais popular do planeta (superando até o Windows) por estar presente até mesmo nos aparelhos mais baratos que se pode imaginar. Quando os desenvolvedores optaram pelo iOS como plataforma preferencial, eles sabiam que estavam ignorando bilhões de pessoas no planeta para valorizar uma minoria que pode pagar por um iPhone.