Com o início de campanhas de vacinação contra a Covid-19 em todo o mundo, uma coisa fica clara: crianças e adolescentes estão excluídos do cronograma em praticamente todos os países, algo que obviamente gera bastante especulação. Por qual motivo? Será que a vacina pode causar algum mal a pessoas na faixa etária? 

Segundo os pediatras e infectologistas do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), Alessandra Marins Pala e Marcio Nehab, o motivo é simples: as vacinas atualmente em uso só foram testadas apenas em indivíduos com 18 anos ou mais, e só podem ser aplicadas nos grupos nos quais foram testadas. 

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Crianças, adolescentes e gestantes, outro grupo que por enquanto não pode ser vacinado, terão que esperar até que haja estudos específicos. Os testes nestes grupos são necessários para definir a dosagem correta do imunizante, além de sua segurança e eficácia, diz Pala.

Por exemplo, a AstraZeneca, fabricante da “vacina de Oxford”, só anunciou em meados de fevereiro o início de um estudo com pacientes entre os seis e 16 anos, para o qual espera reunir 300 participantes. Destes, 240 serão efetivamente imunizados, enquanto outros 60 serão o grupo de controle e receberão uma vacina contra meningite, que funciona como placebo. 

Imagem mostra criança em uma sala de aula, usando uma máscara de proteção contra a Covid-19.
Com a volta às aulas, prevenção é a melhor estratégia para proteger as crianças. Crédito:Halfpoint/iStock

A Pfizer-BioNTech já iniciou os testes em adolescentes entre 12 e 15 anos e a Moderna está recrutando indivíduos entre 12 e 17 anos. Após os resultados destas pesquisas, será necessário ainda que as agências reguladoras liberem o uso dos imunizantes nestas faixas etárias.

Mesmo as crianças com doenças crônicas, um grupo bastante vulnerável, não recebem  vacina. Para elas, a melhor forma de prevenção contra a doença são “as medidas de distanciamento social, higienização correta das mãos e uso de máscaras”, diz Nehab.

Uma expectativa é que quando a população adulta vacinada atingir um percentual para “imunidade de rebanho”, as crianças estarão protegidas. Mas segundo Nehab, não é possível fazer uma previsão do número de pessoas vacinadas para que a pandemia melhore, e não há nenhum estudo que comprove esta hipótese.

“A diminuição da transmissão está associada ao distanciamento social, higienização das mãos e o uso correto das máscaras. As vacinas servem para, no momento, proteger contra as formas graves da doença, óbitos, internações hospitalares em Centros de Terapia Intensiva (CTI) e intubação traqueal”, diz ele.

Como fica a volta às aulas sem a vacina?

Sem vacinas suficientes nem mesmo para os adultos, o retorno das crianças às aulas neste momento gera preocupação. Para minimizar os riscos na retomada, é essencial que sejam adotadas medidas gerais de cuidados, como a reorganização das salas de aula para garantir o distanciamento de 1,5 a 2,0 metros entre alunos e professores, e se certificar de que todos os espaços tem ventilação adequada.

É importante que esteja disponível material para lavagem das mãos com água e sabão ou a utilização frequente do álcool em gel. Também é importante desinfetar as superfícies e objetos utilizados durante as aulas e garantir a utilização de máscaras para todas as crianças a partir de dois anos de idade.  

“Os pais precisam ter consciência que não bastam os cuidados adotados na escola. Se uma família se propõem a levar a criança para a escola, ela precisa fazer a sua parte e reduzir as suas próprias possibilidades de se infectar, não adianta as crianças tomarem todos os cuidados na escola, se no final de semana, os pais vão às festas, reuniões com amigos e se expõem, aumentando o risco de contaminação. Caso a criança apresente qualquer sintoma relacionado ao coronavírus, por exemplo, nariz escorrendo, tosse, espirros, mesmo que sejam sintomas leves, ela não deve, de forma alguma, frequentar o ambiente escolar”, diz Pala.

Fonte: Agência Fiocruz