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Com tanta discussão sobre vacinas e plataformas, você provavelmente já deve ter ouvido falar o suficiente em RNA mensageiro, ou mRNA, a tecnologia que é base para dois dos imunizantes que demonstraram altíssima eficácia na proteção contra Covid-19.

Pfizer e Moderna se tornaram as expoentes do mRNA, colocando no mercado as duas primeiras vacinas a utilizarem a tecnologia na história, e com resultados fortíssimos vindos de Israel, onde já há ampla distribuição. No entanto, todo esse trabalho só foi possível graças a uma pesquisa fundamental que permite ao organismo reagir no momento certo.

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Uma vacina de mRNA tem um funcionamento direto. Os pesquisadores sequenciam o genoma do vírus e detectam uma proteína-alvo. No caso do coronavírus, ela é a “spike” ou “S”, que se liga aos receptores celulares e permite a infecção. Então, o material genético referente à produção daquela proteína específica é isolado, envolvido em uma minúscula camada de gordura e injetado no corpo.

A partir daí, as células recebem esse mRNA e o utilizam para produzir a proteína viral. O corpo, então, entende o material como uma ameaça e começa a gerar uma resposta contra ele, para eliminá-lo do organismo. Assim, se a pessoa entrar em contato com o vírus real no futuro, o sistema imunológico já conhece seu “ponto fraco”, permitindo uma reação rápida.

No entanto, como o corpo não ataca o mRNA quando ele é introduzido no organismo? Por que ele “espera” o material estrangeiro entrar nas células e ser transformado em proteína para começar o ataque? Esse é o trabalho de Katalin Karikó, bioquímica húngara que é também a vice-presidente da BioNTech, parceira da Pfizer na produção do imunizante da companhia.

Acontece que o corpo realmente não aceita mRNA estrangeiro (ou exógeno) normalmente, naturalmente reconhecido como uma ameaça. Em entrevista à revista Veja, Karikó conta que esse fato confundia um pouco os cientistas, já que o material já existe dentro das células, então por que ele era imediatamente atacado quando injetado no organismo?

Esse fato tornaria impossível qualquer tipo de vacina utilizando mRNA. Se o material era imediatamente destruído, não seria transformado em proteína viral e impediria a ação imunológica necessária para repelir futuros ataques do vírus. Então, Karikó se propôs a entender o mecanismo de ataque ao mRNA estrangeiro e como driblá-lo.

O código do mRNA é formado por quatro bases representadas pelas letras “C”, “G”, “A” e “U”. Após amplos experimentos, Karikó e sua equipe constataram que o “U”, referente à uridina, era responsável por desencadear uma resposta inflamatória que destruía o material antes que ele pudesse ser absorvido e traduzido pelas células. Desta forma, não seria possível utilizar o mRNA para fazer vacinas.

O “pulo do gato” foi a criação da pseudouridina. Trata-se de uma molécula diferente da uridina, mas que mantém similaridades o suficiente para permitir que o material genético seja corretamente interpretado pelas células para produzir a proteína desejada. Ele não é reconhecido pelos receptores celulares, o que viabiliza a tarefa sem que o organismo reaja ao mRNA exógeno.

Por este motivo, o “código-fonte” da vacina da Pfizer, decifrado por um programador, não contém a letra “U”; no lugar, o código é formado apenas por “C”, “G”, “A” e “Ψ”. Este último caractere é a letra grega “psi”, que representa a pseudouridina na composição.