Os vírus se adaptam constantemente para sobreviver e é natural que sofram mutações. Mesmo assim, a quantidade de variantes do novo coronavírus e a rapidez no surgimento delas espantam Akiko Iwasaki, pesquisadora da Universidade Yale, nos EUA, e uma das referências globais em estudos de imunologia. “Sabíamos que ocorreriam mutações, mas é surpreendente ver que tantas linhagens estão aparecendo ao mesmo tempo em tantos lugares. Essas variantes parecem ser mais transmissíveis e, em alguns casos, mais fatais”, aponta.

Um dos motivos para o surgimento de tantas variantes do novo coronavírus, de acordo com ela, envolve mutações do vírus em pacientes com imunidade comprometida infectados por um longo tempo. E isso é algo que nem mesmo os especialistas entendem. Atualmente, eles correm contra o relógio para que a fonte dessas mutações seja desvendada. O problema é ainda maior porque as vacinas contra a Covid-19 não demonstram eficácia contra essas cepas.

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Os imunizantes da Pfizer e da Moderna não apresentam queda significativa de anticorpos diante da variante britânica, mas sua eficácia contra as variantes brasileiras P.1 e P.2 e, especialmente, contra a mutação do novo coronavírus originada na África do Sul não é satisfatória. A vacina contra a Covid-19 da AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford, no Reino Unido, também não parece ser eficaz contra a variante sul-africana.

Ilustração de variante do coronavírus
A maioria dos imunizantes atuais contra a Covid-19 não apresenta eficácia satisfatória contra as variantes do novo coronavírus. Foto: Imilian/Shutterstock

Combate à Covid-19

Antes de solucionar o problema com as variantes, entretanto, é preciso combater o novo coronavírus. E isso envolve de medidas básicas como uso de máscaras, distanciamento social e hábitos de higiene à adoção de lockdown e distribuição global mais democrática de vacinas contra a Covid-19. “Sem vacinas amplamente disponíveis em todo o mundo, será difícil alcançar a imunidade de rebanho”, destaca Akiko.

Outro ponto reforçado por ela é a necessidade do desenvolvimento de um antiviral contra o novo coronavírus. Atualmente, os pacientes infectados são isolados e, muitas vezes, recebem corticosteróides. Esses medicamentos aliviam os sintomas da Covid-19, mas não matam o vírus. Antivirais eficazes — como o tamiflu foi contra a H1N1 — contra o novo coronavírus são imprescindíveis para reduzir hospitalizações e mortes pela doença.

Representação de medicamento antiviral contra o coronavírus
Formulação de um antiviral contra o novo coronavírus é essencial no combate à Covid-19. Foto: Daniel Krason/Shutterstock

Perspectivas

Apesar de acreditar que a pandemia de Covid-19 está longe de acabar, Akiko entende que ela serviu para diversos aprendizados. O mais importante deles foi de que o investimento em Ciência é crucial. “[…] investir em Ciência básica é a chave. Toda a tecnologia para desenvolver vacinas veio da Ciência básica. E a curiosidade é o que direciona a pesquisa. Se parar isso, não haverá mais avanços. Tem de investir”, reforça.

A pesquisadora afirma, ainda, que a vigilância é outra área que precisa ser melhorada. “Muita vigilância ocorre em várias partes do mundo agora, mas deveríamos manter esse nível o tempo todo, mesmo sem pandemia. Isso ajudaria a ver se há a emergência de novos vírus sendo transmitidos para humanos”, conclui.

Fonte: Estadão