A Organização das Nações Unidas (ONU) informou em relatório que nós precisamos de cerca de um bilhão de hectares – um pouquinho mais do que o tamanho da China – de terreno para reflorestar o planeta de forma a aliviar o aquecimento global e outros impactos que o ser humano trouxe ao meio ambiente.

Segundo o documento, a organização global entende que muito progresso tem sido obtido nos esforços para conservação natural, mas que o avanço tecnológico e urbano desenfreados estão quase cancelando quaisquer vitórias: “A degradação está afetando desenvolvimentos que lutamos muito para conseguir, além de ameaçar o bem-estar da juventude de hoje e de futuras gerações, ao mesmo tempo em que [os países] fazem promessas cada vez mais complicadas e caras de se cumprir”, diz trecho do relatório.

publicidade

Leia também

Imagem mostra a sede da ONU, que disse que precisamos "de uma China" de espaço para reflorestar a Terra
Organização das Nações Unidas divulgou relatório ambiental de cenário preocupante, mas aponta que ainda há esperança para reverter o quadro. Imagem: Osugi/Shutterstock

A comparação com o gigante asiático não vem à toa: a ONU sugeriu um bilhão de hectares de solo – a China tem 959,7 milhões. Reflorestar o planeta tem sido um ambicioso objetivo de conservacionistas e entidades ambientais há anos e, embora muitos países tenham assumido compromissos louváveis – o Acordo de Paris, por exemplo -, poucos estão efetivamente se esforçando para cumprir com eles.

Com o novo relatório, a ONU parece ter passado para a fase de “cobrar” as nações de suas respectivas promessas: “A necessidade de uma restauração dos ecossistemas danificados nunca foi maior”, diz a entidade.

“Restaurar”, aqui, é bem mais do que apenas o plantio de árvores. Segundo a ONU, é necessário um esforço mais intenso por pelo menos os próximos 10 anos, em uma campanha de recuperação de ecossistemas e funções ambientais completas. Isso implica em mudanças como alterar o funcionamento de fazendas para recuperar a saúde do solo, levar mais elementos naturais a áreas urbanas e proteger ambientes marinhos.

Ou, diz a ONU, corremos o risco de falhar em todos os objetivos ambientais que traçamos.

“A beleza desse tipo de recuperação é que ela pode ser feita em qualquer escala”, disse um porta-voz da organização. Segundo ela, pesquisas indicam que 350 milhões de hectares (pouco mais do que uma Índia, se ficarmos no comparativo de países) protegidos para fins ambientais poderiam gerar US$ 9 trilhões (R$ 45,42 trilhões) de faturamento em serviços ambientais, além de remover 26 gigatoneladas de gases do efeito estufa da atmosfera. Para fins de compreensão: a humanidade gerou 33 gigatoneladas de dióxido de carbono só em 2019.

“É fácil perder a esperança quando pensamos na magnitude dos desafios que enfrentamos e a avalanche de más notícias para a qual acordamos toda manhã”, disse Inger Andersen, diretora executiva do Programa Ambiental das Nações Unidas (UNEP). “Mas da mesma forma que causamos as crises do clima, da poluição e da biodiversidade, nós podemos reverter o dano que infligimos: nós podemos ser a primeira geração a reimaginar, recriar e restaurar a natureza na tomada de ações para um mundo melhor”.

Para isso, muito precisa mudar: hoje, segundo a ONU, um terço das terras propícias para plantio e cultivo (fazenda) do mundo está degradado, e um terço de todas as espécies comerciais de peixes é explorada além do necessário. Dos anos setenta até hoje, quase 90% das regiões úmidas do planeta foram destruídas.

Cerca de 40% da população mundial já sofre os impactos disso, mas o problema não para por aí: cerca de metade do produto interno bruto (PIB) mundial depende da natureza. A cada ano, nós perdemos mais de 10% de nossa eficiência econômica global pela queda de ambientes inteiros. “Se pudermos reverter essa tendência, ganhos massivos nos aguardam”, alerta o relatório da ONU.

Segundo estimativas do relatório, que ouviu cientistas ambientais especializados em diversos biomas, animais e ambientes naturais, uma sustentabilidade maior na pesca, por exemplo, poderia permitir que populações inteiras de peixes se recuperassem, gerando US$ 32 bilhões (R$ 161,40 bilhões) por ano em faturamento extra. Diz a ONU que, para cada dólar investido em restauração ambiental, outros US$ 30 (R$ 151,31) em benefícios são devolvidos.

“Para muitas pessoas, restaurar um bilhão de hectares é algo abstrato”, disse Tim Christophersen, coordenador da ONU para esforços de conservação ambiental. “Nós temos décadas de experiência sobre como isso poderia funcionar, mas nada na escala da qual estamos falando. Nós criamos programas nucleares e [de exploração] do espaço – podemos fazer isso”.

O relatório completo pode ser acessado na página oficial da ONU.

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!