Moléculas ligadas à produção de metano foram identificadas em Encélado, a sexta maior lua de Saturno, indicando que o local pode ter sinais de vida antiga, de acordo com cientistas da Universidade do Arizona.

A cama de gelo no exterior de Encélado sempre foi objeto de especulação entre os especialistas, que teorizaram que um oceano escondido existe sob a crosta. Embora isso nunca tenha sido observado diretamente, erupções de plumas d’água já foram vistas pela região.

publicidade

Leia também

Ilustração digital mostra produção de metano em Encélado, a sexta maior lua de Saturno. Cientistas usam esse processo químico para criar teorias sobre a possibilidade de vida no satélite.
Encélado, a sexta maior lua de Saturno, tem processos químicos que permitem a cientistas teorizarem a presença de vida no satélite. Imagem: Catmando/Shutterstock

Voando através dessas plumas e coletando amostras de sua composição química, a nave Cassini identificou altas concentrações de moléculas associadas a um processo de ventilação hidrotermal (nome dado ao escape – algumas vezes violento – de líquido ou de gás para aliviar acúmulos de pressão no chão oceânico). Especificamente, moléculas de água, dióxido de carbono e metano.

“Nós queríamos saber: micróbios terrenos que ‘comem’ água e produzem metano explicariam a surpreendentemente grande quantidade de metano detectada pela Cassini?” – perguntou Regis Ferriere, professor associado do Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade do Arizona. “A busca por tais micróbios, chamados ‘metanogênios’, no piso oceânico de Encélado precisaria de missões de mergulho profundo extremamente desafiadoras, que não estão em vista por pelo menos várias décadas no futuro”.

Diante disso, Ferriere, que co-assina um estudo junto de sua equipe, seguiu um caminho diferente: eles criaram modelos matemáticos que calculam a probabilidade de diversos processos conhecidos – incluindo a metanogênese (nome do processo de produção microbial do metano) – explicarem os dados obtidos na lua de Saturno.

A conclusão foi ambivalente: de um lado, há a possibilidade de que as informações coletadas sejam consistentes com atividades de ventilação hidrotermal desencadeadas por micróbios. De outro, o processo pode não envolver formas de vida diretas, mas ocorre de forma diferente ao que se observa na Terra.

Resumindo: pode não ser “vida”, como a definimos. Mas se for, há um processo muito similar ao da Terra que pode explicar tudo.

Aqui, as atividades hidrotermais ocorrem quando a água do mar se infiltra no piso oceânico, circulando pela rocha que vem abaixo dele e encontra uma região aquecida – como magma, por exemplo – antes de ser “cuspida” para fora novamente.

O vulcanismo tem até um nome para isso: “Fumarolas”, que são as aberturas na terra que permitem essa liberação líquidos ou gases, aliviando o acúmulo de pressão.

Foto do chão oceânico mostra uma fumarola negra
Um exemplo de fumarola negra na Terra: reação hidrotermal é conduzida por bactérias que devoram componentes químicos e expelem metano. Imagem: Wikimedia Commons/Reprodução

Nesse processo, há a produção de metano por meio microbial: as bactérias usam o hidrogênio na água como fonte de energia para “comer” os elementos químicos presentes, iniciando a metanogênese.

A diferença: por aqui, esse processo tende a ser mais lento. Em Encélado, isso é mais veloz.

O experimento proposto pelos cientistas busca avaliar justamente a probabilidade desse mesmo processo ocorrer no suposto oceano escondido da lua distante. E os resultados foram interessantes: a conclusão da equipe foi a de que qualquer reação abiótica, ou seja, que não depende de organismos vivos para ocorrer, seria insuficiente para explicar os dados coletados pela nave Cassini.

Sobra apenas uma opção: alguma forma de vida – bactérias metanogênicas, por exemplo – poderia incidir sobre essas reações em alta velocidade, o que explicaria o volume considerável de metano identificado nas amostras.

“Evidentemente, não estamos afirmando que a vida existe no oceano de Encélado”, disse Ferriere. “Ao invés disso, queremos entender qual a possibilidade das fumarolas hidrotermais da lua de saturno constituirem um ambiente habitável para microorganismos terrenos. É bem provável que os dados da Cassini nos respondam isso, de acordo com nossos modelos”.

O cientista, porém, afirma que a possibilidade de vida não pode ser sumariamente descartada por enquanto, já que a metanogênese – que requer vida bacteriana para ocorrer- é ainda a única explicação para todo o metano visto na lua de Saturno. “Para rejeitar a hipótese de vida, precisaremos de mais missões no futuro”, ele comentou.

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!