Um novo estudo revela que, além de afetar drasticamente redes elétricas e comunicações tradicionais, uma ejeção de massa coronal – popularmente chamada de “tempestade solar” – também seria catastrófica para a internet global, que continuaria offline mesmo dias depois da eletricidade ser restabelecida diante de um episódio do tipo.

De forma bem resumida, tempestades solares são erupções de gás altamente ionizado provenientes da coroa do Sol, que são carregadas até o campo magnético da Terra e derrubando por completo redes elétricas, de comunicação e estações do gênero, levando a blecautes de longa duração. O vídeo abaixo mostra um exemplo prático disso:

publicidade

Durante o evento SIGCOMM 2021, realizado em conferência nesta quinta-feira (2), a cientista Sangeetha Abdu Jyothi apresentou seu estudo “Solar Superstorms: Planning for an Internet Apocalypse” (“Super Tempestades Solares: Planejando o Apocalipse da Internet”, na tradução livre), que postula um cenário semi apocalíptico, onde cabos submarinos de fibra óptica estarão especialmente vulneráveis a um evento de ejeção de massa coronal de grande porte.

“O que realmente me fez pensar nisso foi a atual pandemia [da Covid-19], onde, com ela, vi o quanto o mundo não estava preparado”, disse Jyothi à WIRED. “Não havia protocolo para lidar com os problemas de forma eficiente, e o mesmo vale para a resiliência da internet. A nossa infraestrutura não está preparada para um evento solar de grande escala. Temos uma compreensão muito limitada de quanto dano pode ocorrer”.

Segundo a especialista, o problema seria de escala global: ela concede que estações de fibra óptica regionais estariam majoritariamente seguras, mas cabos oceânicos que atravessam continentes seriam os mais vulneráveis. Uma tempestade solar afetaria esses cabos internacionais de internet, cortando o fornecimento de conexão na fonte. “É como fechar o suprimento de água de uma casa quebrando o encanamento da rua”, ela exemplifica.

Ejeções de massa coronal são diferentes de erupções solares: ejeções são nuvens ionizadas de gás dispensadas no espaço a extremas velocidades, enquanto erupções são flashes de luz com tremenda quantidade energética. Imagem: Nasa/Divulgação

A falta de informação é o que nos impede de sermos mais assertivos sobre esse assunto: tempestades solares ocorrem o tempo todo, mas raramente chegam à Terra ou, quando chegam, não são severas a ponto de nos afetar de forma contundente. Na história moderna, apenas três casos mais violentos foram registrados desde 1859, quando o “Evento Carrington” fez com que as agulhas de bússolas girassem descontroladamente (sinal de que uma tempestade solar forte afetou o campo magnético da Terra). Em 1929, um evento ainda maior, com três dias de duração, causou incêndio de média escala na Estação Grand Central de Nova York, derrubando também a rede de telégrafos da cidade.

Finalmente, em 1989, um evento moderado de ejeção de massa coronal derrubou a rede elétrica Hydro-Québec, no norte do Canadá, deixando a parte mais alta do país sem energia por aproximadamente nove horas. Jyothi argumenta, porém, que depois de mais de 30 anos sem um evento majoritário, é provável que um deles esteja em vias de ocorrer nos próximos anos.

Leia também

Eventos de ejeção de massa coronal já foram tratados na cultura pop, de forma leve: a franquia de jogos Assassin’s Creed, da francesa Ubisoft, atrelou à sua narrativa uma ejeção extremamente forte que destruiu uma civilização anterior à humana e, dentro da história do jogo, outro evento do tipo em 2012 destruiria a humanidade se não fosse pelas ações do jogador – ironicamente, uma tempestade solar de larga escala ocorreu mesmo em 2012, mas não atingiu a Terra (o que não pode ser dito da espaçonave STEREO-A).

Na realidade, uma tempestade solar não acabaria com a raça humana, mas impactar a rede de internet estabelece um cenário extremamente preocupante: praticamente todas as comunicações do mundo usam rádio e internet – ambos formatos muito vulneráveis a uma ejeção coronal. Derrubar qualquer uma delas – ou as duas – poderia isolar países inteiros por um tempo considerável.

O motivo para os cabos submarinos serem mais vulneráveis reside no fato de que todos eles usam repetidores a variações entre 50 km e 150 km de distância percorrida. Esses repetidores amplificam o sinal dos cabos de fibra óptica, assegurando que nada se perca no caminho. Embora os cabos em si sejam maciços, o mesmo não pode ser dito dos repetidores, cujos componentes eletrônicos os tornam suscetíveis a uma tempestade solar.

Satélite da Starlink
Satélites da Starlink, da SpaceX, estariam vulneráveis a uma tempestade solar, que derrubaria o serviço de internet da empresa de Elon Musk. Imagem: AleksandrMorrisovich/Shutterstock

Mas essa sequer é a pior parte: os cabos estão na Terra, mas antes disso, os satélites sentirão o primeiro impacto de uma tempestade solar, que derrubaria não apenas a estrutura de internet via satélite (pense no projeto Starlink, da SpaceX, como exemplo), mas sistemas de posicionamento global (GPS) e observações espaciais.

Normalmente, pólos magnéticos da Terra são mais concentrados nas altas latitudes – Pólo Norte (Ártico) e Pólo Sul (Antártida), por exemplo. Esses geralmente são os pontos mais impactados por uma tempestade solar, ao contrário, por exemplo, da Ásia, que tem em Singapura um hub de distribuição de cabos localizado na linha do Equador. Entretanto, mesmo essa nação tem cabos distribuídos para regiões de pólos, o que a torna relativamente vulnerável.

“Não há nenhum modelo disponível hoje que antecipe como isso pode acontecer”, disse Abdu Jyothi. “Nós temos um entendimento maior de como essas tempestades podem afetar sistemas de energia, mas isso tudo é aqui na terra firme. No oceano, tudo fica ainda mais difícil de se prever”.

A internet, hoje, funciona como uma cidade com enormes vias de trânsito: se uma via é cortada, os dados automaticamente são redirecionados para outros pontos – ainda que com velocidade reduzida. Isso pode ajudar no evento de uma tempestade solar mais intensa, mas internet ainda pode ser desestabilizada por um evento de grande intensidade, onde os pontos de desvio também possam apresentar rupturas que afetem serviços essenciais, como o Protocolo de Roteamento de Sistemas Autônomos (Border Gateway Protocol) e o Sistema de Nomes de Domínio (Domain Name System), o que geraria interrupções de serviço.

Em um exemplo mais simples de se entender: imagine o tipo de engarrafamento que aconteceria se, de repente, toda a sinalização de trânsito de uma cidade desaparecesse.

Jyothi argumenta que seu estudo é apenas o primeiro de muitas outras pesquisas necessárias, especialmente aquelas que abordarão a questão do lado da infraestrutura de internet e o que pode ser feito para anular – ou, pelo menos, minimizar – os impactos de uma tempestade solar.

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!