Um novo estudo produzido pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido, indica que a média de novos casos de doenças infecciosas está ligada a ações governamentais, argumentando que medidas autoritárias tendem a trazer mais infecções e novos casos, ao passo que ações libertárias ajudam na redução de distribuição dessas doenças.

Vale lembrar que o estudo usou informações anteriores à Covid-19 – contemplando as décadas de 1990 e 2000 -, mas a instituição argumenta que as informações podem ser incorporadas em pesquisas futuras.

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Imagem mostra um cientista com roupas de quarentena medindo a temperatura de uma paciente com máscara sanitária no rosto.

Estudo aponta que o avanço de doenças infecciosas está intrinsicamente ligado a práticas autoritárias de governos e populações com pensamento conformista
O avanço de doenças infecciosas está intrinsicamente ligado a práticas autoritárias de governos e populações com pensamento conformista, segundo estudo de Cambridge (Imagem: aslysun/Shutterstock)

De acordo com a pesquisa, publicada no Journal of Social and Political Psychology, dados de doenças infecciosas (sarampo, HIV) dos EUA no período correspondente foram coletados de pessoas e governos entre 2016 e 2017, contemplando 206 mil pessoas.

A conclusão foi a de que cidades e estados norte-americanos com autoridades mais voltadas às práticas autoritárias apresentavam até quatro vezes mais volume de novas infecções do que regiões mais progressistas. Os métodos de estudo foram replicados em nível internacional, com dados de 51 mil pessoas em 47 países, com conclusões similares (ao invés de quatro, três vezes maior de país para país).

Os cientistas também levaram em consideração aspectos ideológicos e socioeconômicos que pudessem influenciar as conclusões da pesquisa – tais como crenças religiosas e desigualdades sociais e educativas. Neste lado, eles descobriram que as maiores taxas de infecção nos Estados Unidos vinham de regiões onde a maioria dos votos foi para Donald Trump, ex-presidente dos EUA, eleito em 2016 e derrotado por Joe Biden em 2020.

Em outro fator analisado, as maiores taxas de infecção vinham de estados que priorizavam legislações “verticais”, ou seja, que priorizam determinados grupos, enquanto afetam negativamente outros. Entende-se por “legislação vertical”, por exemplo, um controle mais taxativo sobre políticas de aborto (ou a ausência/proibição da prática) ou estados onde é instituída a pena de morte. O contrário, porém, foi visto em regiões de normas horizontais, que atuam igualmente em qualquer esfera social.

“Nós identificamos uma relação consistente entre a prevalência de doenças infecciosas e uma preferência psicológica pela conformidade e estruturas hierárquicas de poder – ambos, pilares de políticas autoritárias”, disse o autor principal do estudo, o Dr. Leor Zmigrod, expert em psicologia da Universidade de Cambridge.

O doutor ainda segue o raciocínio, dizendo que “taxas mais altas de doenças precediam ações e resultados políticos como voto majoritário conservador e estruturas legislativas autoritárias. Ao longo de múltiplos espectros geográficos e históricos de análise, nós vimos essa premissa aparecer de novo e de novo”.

Ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump
Nos EUA, regiões onde a maioria dos eleitores votou no ex-presidente Donald Trump em 2016 foram as que apresentaram índices maiores de concentração de doenças infecciosas, como sarampo, HIV ou catapora (Evan El-Amin/Shutterstock)

Segundo o estudo, o índice de patógenos de mais de 20 anos atrás ainda eram relevantes para ações políticas vistas até mesmo em 2016. “Se a Covid-19 aumentar a atração de políticas autoritárias, os efeitos podem ser muito duradouros”, argumentou Zmigrod.

O estudo também avaliou se essa mesma correlação se aplicava a doenças zoonóticas – males transmitidos a humanos pelos animais -, mas neste caso, a premissa não se repetiu. Zmigrod disse que isso comprova que a correlação disposta no estudo é resultado direto de uma “prática comportamental”.

Como método, os participantes do estudo foram apresentados a pares de traços de personalidade, e questionados qual, entre as duas opções, era mais importante para uma criança ter. Por exemplo, se é mais interessante ser independente ou respeitoso, obediente ou autossuficiente. Mais de 250 mil pessoas responderam a esse questionário pelo correio, devolvendo o material por carta, contendo seus CEPs.

A partir daí, foi o caso de analisar o histórico de patógenos nos EUA, de 1993 a 2007 (via Centro de Controle de Doenças, ou CDC), incluindo hepatite viral, herpes, HIV, sarampo e catapora em nível estatal. Já no nível municipal, o time de Cambridge considerou doenças como clamídia e gonorreia, entre 2002 e 2010. Finalmente, no nível global, nove doenças infecciosas – incluindo tuberculose e malária – foram considerados.

“Essas conclusões servem como um alerta: comportamentos de controle de doenças trazem implicações profundas na política”, disse Zmigrod. “A Covid-19 pode influenciar a predisposição das pessoas para conformidade e obediência, e isso pode ser convertido em preferências autoritárias, que por sua vez ditam padrões de votos e legislações”.

“A saúde pública e a política estão bem mais conectadas do que nós pensávamos anteriormente”, ele finalizou.

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