O aquecimento global parece estar afetando a temperatura da Europa mais do que outras regiões, provando que, apesar de ser um problema global, as alterações climáticas não estão atingindo o mundo de forma igualitária.

De acordo com as normas estipuladas pelo Acordo Climático de Paris, os países signatários têm o objetivo comum de limitar o aumento da temperatura média da Terra em 1,5 ºC. Como você já deve ter adivinhado, não estamos nem perto disso – na verdade, a estimativa mais conservadora diz que o planeta deve ficar cerca de 2,4 ºC mais quente do que se comparado ao período que antecedeu a revolução industrial.

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Foto mostra casas na Alemanha invadidas por enchente, um reflexo do aumento da temperatura na Europa
Enchentes na Alemanha, em julho deste ano, são resultado direto do aumento da temperatura na Europa, promovendo o avanço do aquecimento global (Imagem: M. Volk/Shutterstock)

O problema: a temperatura da Europa já está a 2,2 ºC mais quente do que naquela época – e foi justamente o “Velho Continente” quem liderou a industrialização mundial.

A informação vem de Samantha Burgess, Diretora Adjunta de Serviços Climáticos do Programa Copérnico de Observação da Terra. A especialista mostrou suas conclusões durante uma reunião de abertura do evento COP26, promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU) na última terça-feira (9).

Segundo Burgess, o ano de 2020 foi o de temperatura mais quente da Europa, atingindo a marca de 1,9 ºC acima do período médio registrado entre 1981 e 2010, e 0,4 ºC acima do recorde anterior.

Isso tem se refletido em desastres climáticos mais e mais frequentes: no meio do ano, enchentes que atingiram o lado oeste do continente mataram 200 pessoas somente na Alemanha, com a chanceler Angela Merkel chamando a situação de “surreal”.

“Nós antecipamos a chegada das enchentes e avisamos o órgão nacional de defesa para que ele se preparasse, mas o que atingiu o país foi muito pior do que qualquer coisa que eles tivessem visto”, disse Vera Thiemig, pesquisadora do Joint Research Centre a serviço da Comissão Europeia. “Eles esperavam uma enchente tal qual há 100 anos, mas o que enfrentaram estava mais para algo de mil anos atrás”.

Thiemig alerta, ainda, que a situação atual pode tornar essas “enchentes de mil anos” cada vez mais comuns – e não só na Alemanha.

Os cientistas ainda não sabem o motivo da temperatura da Europa estar subindo mais rápido que em outros continentes, mas arrisca o palpite de que a retração das camadas polares têm a ver com isso, Parte da Europa está na região conhecida como “Escandinávia”, onde ficam os países mais frios – Suécia, Suíça, Finlândia e afins.

A região Ártica vem, também, se aquecendo de forma sem precedentes, com uma subida vertiginosa da temperatura (quase passando 3 ºC, embora o período analisado seja maior que o da Europa). Esse aumento fez com que o “pergelissolo” (permafrost), um tipo de terreno que, supostamente, seria permanentemente congelado, começasse a derreter, fazendo com que eventos estranhos às regiões polares – como incêndios florestais – acontecessem com mais frequência.

Burgess acredita que nem tudo está perdido, porém, mas tudo depende de ações de grande porte que deverão ser tomadas a curto prazo: “até 2030, veremos mais e mais eventos extremos, com verões mais quentes, invernos menos frios e tempestades mais e mais severas”, ela comentou durante a apresentação. “Porém, os anos entre 2050 e 2100 dependerão muito de qual será o cenário para onde chegaremos no que tange a quão extremo o clima poderá ser”.

Em outras palavras, as ações propostas no Acordo de Paris, bem como quaisquer conclusões atingidas durante o evento COP26, deverão ser implementadas de forma rápida e decisiva, sem muito espaço para debate. E “implementação”, infelizmente, é algo que a própria ONU reconhece como problemática.

“Se não fizermos nada, somente na Europa, 15 milhões de pessoas estarão sob risco de incêndios florestais por ano. Fora isso, também anualmente, 90 mil pessoas morrerão por causa de ondas de calor, dois milhões de pessoas serão afetadas por enchentes litorâneas e períodos de seca vão se expandir na mesma velocidade em que a tundra vai desaparecer”, disse Thiemig.

Até o momento, mais de 100 países – incluindo o Brasil – se comprometeram a reduzir suas emissões de gases do efeito estufa em 30%, um fator de imensa influência no aquecimento global – sobretudo o metano, que é até 80 vezes mais problemático que o gás carbônico (CO2). Além disso, 140 estados soberanos prometeram atingir a neutralidade carbônica (quando a emissão de CO2 é tão pequena que as medidas de reflorestamento mais do que as compensam) até 2050.

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