Wyoming, especificamente, a cidade de Kemmerer, será o local de instalação do primeiro reator nuclear da empresa de energia financiada por Bill Gates, a TerraPower. A companhia fez o anúncio nesta quinta-feira (18), confirmando que o local exato é o mesmo ponto onde, hoje, funciona a Usina Naughton, movida a carvão, que será permanentemente fechada.

Embora a TerraPower tenha feito o anúncio em caráter formal, várias empresas e entidades estão participando do projeto, que prevê a criação e instalação de um reator nuclear de design exclusivo e, teoricamente, mais limpo e menos arriscado que reatores tradicionais. Entre alguns nomes estão envolvidas a GE Hitachi, e a Bechtel ficará responsabilizada pela construção em si, que deve gerar uma demanda de emprego para pelo menos 80% da população de 2,5 mil pessoas de Kemmerer.

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Bill Gates, que fundou a Microsoft e opera a Bill and Melinda Gates Foundation com sua ex-esposa, responde hoje como chairman da TerraPower. A empresa serve como um vetor prático da opinião do bilionário de que a energia nuclear é, hoje, uma das opções mais viáveis de energia limpa para substituir a queima de combustíveis fósseis – esta, altamente nociva ao meio ambiente.

Sobre o reator em si, a TerraPower assegurou um auxílio governamental inicial de US$ 180 milhões (R$ 999,11 milhões) do Departamento de Energia dos Estados Unidos, mas esse valor pode chegar aos bilhões de dólares nos próximos anos.

O interessante deste reator é o design exclusivo, que a empresa, junto da GE Hitachi, chama de “Natrium Power, em referência ao símbolo químico “Na” (“Natrium”, do latim, ou Natrão, em Português), usado para representar o sódio.

De acordo com a página criada pelas empresas para explicar o projeto, o reator usará uma forma líquida do sódio – ao invés de água – para dissipar o calor. Por um lado, isso é extremamente vantajoso, considerando que a solução não vai ferver e entrar em ebulição dentro das temperaturas às quais ela será exposta – em média, reatores trabalham com temperaturas próximas de 300 ºC (Celsius), ou o triplo do ponto de ebulição da água, que é de 100 ºC. Por outro lado, há novas preocupações com o uso do sódio líquido, que pode reagir rapidamente com o ar à sua volta – e caso entre em contato com a água, pode até explodir.

Há também a questão da falta de experiência: o emprego do sódio líquido não é uma novidade, e desde antes da década de 1950, pesquisas vêm sendo desenvolvidas com ele. O problema é justamente esse: “pesquisas”, não “operações práticas”. Em 1965 foi construído nos EUA o reator mais recente do tipo, e ele deixou de ser operado e foi totalmente desligado em 1994. Fora da América, apenas um punhado de países experimentaram com a tecnologia, mas sempre em caráter de teste.

Em outras palavras: quase ninguém no mundo tem muita experiência com isso.

Ilustração divulgada pela empresa de Bill Gates, a TerraPower, mostrando o design de seu primeiro reator nuclear
Ilustração mostra design diferenciado do primeiro reator nuclear da TerraPower, empresa de energia liderada por Bill Gates (Imagem: TerraPower/Divulgação)

Um outro ponto interessante é que, tradicionalmente, reatores nucleares convertem calor em energia. No caso da TerraPower, porém, o processo será diferente: o calor será “armazenado” na forma de sal derretido. Na prática, embora o reator tenha uma potência oficial de 345 megawatts (MW), isso permitirá que ele trabalhe com uma demanda escalável, aumentando sua capacidade para até 500 MW em períodos de alta necessidade, e reduzindo quando as coisas – com o perdão do trocadilho – esfriarem.

Mais além, o design do reator permitirá que ele interaja bem com outras formas de produção energética: a escolha do Wyoming como ponto de instalação não foi feita à toda – o estado americano é um dos maiores pólos de energia eólica (dos ventos) no mundo.

Por essas razões, a exclusividade e alta necessidade técnica do projeto fazem da TerraPower uma empresa que atrai a atenção de muita gente. Há, contudo, um amplo desejo de que ela seja bem-sucedida: embora mais limpa e mais prática do que outras formas de produção energética, a energia nuclear traz custos proibitivos de construção e manutenção, da ordem de dezenas de bilhões de dólares nos melhores cenários.

Por essa razão, a adoção desse formato não é tão massificada. Entretanto, o modelo da TerraPower prevê a reutilização de alguns recursos, o que deve colocar os custos em patamares inferiores. Se a empresa manter o preço de seu funcionamento em uma escala competitiva, então pode ser que, no futuro, ela crie um processo a ser seguido por outros entusiastas do ramo.

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