David Holland, cientista atmosférico da Universidade de Nova York, tem algo nada agradável a dizer: uma das maiores estruturas de gelo do mundo está se desfazendo mais rápido do que podemos agir para evitar isso – o derretimento da “geleira do fim do mundo” já é irreversível, segundo o expert.

“Geleira do Fim do Mundo” é o nome mais conhecido da calota polar no lado oeste da Antártida, oficialmente referida como “Geleira de Thwaites”. Trata-se de um imenso bloco de gelo com quase 40 quilômetros (km) de largura e 24 km de profundidade, dentro de uma cadeia montanhosa de mais de 150 km, e que recebeu o apelido justamente por ser um ponto de alto risco de destruição advinda do avanço do aquecimento global.

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A "geleira do fim do mundo", nome dado à Geleira de Thwaites, na Antártida, está sofrendo bem mais efeitos do aquecimento global do que imaginávamos
A “geleira do fim do mundo”, na Antártida, está sofrendo bem mais com os efeitos do aquecimento global do que imaginávamos
Imagem: British Antartic Survey/Divulgação

Um estudo da Universidade do Colorado-Boulder, de dezembro de 2021, disse que o colapso da geleira representa “a maior ameaça de elevação do nível do mar deste século”, ressaltando que seu derretimento faria as águas do mundo subirem cerca de 65 centímetros (cm) — um cenário catastrófico para muitas comunidades costeiras.

Holland está a bordo de um navio quebra-gelo nas imediações da geleira, estudando a sua chamada “língua” — o ponto onde a parede da geleira faz contato com a água do mar. Ao investigar a área, ele consegue coletar informações pertinentes aos níveis de temperatura e salinidade, bem como sua incidência no gelo – o que por sua vez lhe dará um cenário mais preciso do quão rápido este gelo está derretendo.

E suas projeções não são das mais animadoras.

“Ela pode se despedaçar bem rápido, em décadas. Ou pode demorar mais, em séculos”, ele contou ao Axios. “E o único jeito de sabermos é com essa pesquisa”.

Em 2021, em matéria veiculada pelo Olhar Digital, a geleira já vinha sendo alvo de estudos climáticos que mostraram o quão negativamente ela era impactada pelo aumento da temperatura interna da Terra. Antes disso, no longevo ano de 2014, a própria NASA havia reconhecido o “ponto sem retorno” atravessado pela estrutura de gelo — a partir dali, já não tínhamos mais como reverter o dano causado pelo aquecimento global.

Mas o derretimento da “geleira do fim do mundo” pode trazer mais danos do que apenas a elevação do nível do mar. O gelo da região é feito de água doce, e seu contato com a água salgada dos oceanos pode causar alterações severas de temperatura, o que por sua vez terá impacto negativo nas populações de animais costeiros — como pinguins e leões marinhos — além dos peixes e outras espécies confinadas ao mar.

E esse cenário é bem fácil de acontecer, considerando que a geleira já vem se despedaçando e despejando enormes quantidades de gelo no mar — seja derretido ou na forma de icebergs. E quanto mais a geleira se perde, mais o gelo que ela contém dentro do continente é empurrado para o oceano — ou seja, um fato isolado pode, literalmente, abrir a porta para outras situações que se acumularão em um dano mais generalizado.

“Eu estou aqui no fim do mundo, mas se pensarmos bem, não estou muito longe de onde você está”, disse Holland. “Tudo é conectado, e esse gelo que parece estar tão longe é, intrinsecamente, uma parte do seu planeta e da sua vida”.

A pesquisa ainda segue em curso, então o cientista não consegue antecipar quando exatamente teremos o “fatídico” dia em que a geleira pode ou não deixar de existir. Mas ele já estima que partes dela podem começar a desaparecer nos próximos cinco ou 10 anos.

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