A capacidade de autorregeneração das startups é um dos principais ensinamentos para as grandes

Em nossos estudos, demos o nome de “empresas-lagartixas” às organizações capazes de se recriarem por inteiro ou em parte, como os pequenos répteis fascinantes cuja cauda, mesmo amputada, volta a crescer, ainda que diferente. Essas empresas parecem ter uma capacidade inesgotável de encontrar um novo equilíbrio e de reconfigurar sua entrega de valor diante da adversidade ou das grandes transformações.

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A maioria das startups de sucesso é assim. Talvez seus criadores não conheçam a célebre frase de Mahatma Gandhi: Hoje é o primeiro dia do restante da minha vida. O futuro só depende do que fazemos no presente. No entanto, agem como se eles próprios tivessem inventado esse lema. Construíram para si uma maneira de ser e trabalhar que corporações do mundo todo procuram freneticamente incorporar.

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Uma das lições mais marcantes que aprendi trabalhando com inovação ao longo dos últimos trinta anos foi esta: para competir e vencer em um mundo confuso, imprevisível e tumultuado é preciso ter genes de lagartixa. Em outras palavras, ser capaz de se autorregenerar.

E o que seria este “autorregenerar”? Empresas autorregenerativas são aquelas capazes de mergulhar profundamente no próprio DNA e identificar:

  • 1) o que fazem bem, com facilidade;
  • 2) o que é difícil de ser imitado pela concorrência; e
  • 3) o que é visto como valor pelo cliente.

Então, conseguem sair desse mergulho prontas a transmutar-se e oferecer algo encantador e desejável aos clientes.

Cresci profissionalmente sob o credo do planejamento. Então, não deixa de ser chocante ver empresas amputarem áreas inteiras do dia para a noite para sobreviver. Pressionadas pela transformação digital e pela onda 4.0, sem falar na pandemia, elas vivem em permanente operação de salvamento, algo que exige instinto e planos em igual proporção. Em vez de planejar o futuro, cumprir tarefas de curto prazo que façam a diferença. Deixar de entrar em batalhas perdidas e investir energia naquilo que é diretamente percebido como valor pelas partes interessadas.

Não é fácil. As equipes estão mais desintegradas do que nunca. Há indivíduos no auge do estresse, vulneráveis e em sofrimento. O medo do desconhecido preencheu as mentes. Nesse cenário, espera-se dos líderes, mais do que nunca, que se tornem referência e assumam rápido e simultaneamente seu novo papel de condutores e terapeutas corporativos. Pouquíssimos de nós estamos preparados.

O principal desafio de quem tem liderados é apoiar, apoiar e apoiar mais ainda as equipes.

O distanciamento social obrigatório e o medo, somados, criaram uma química poderosa de afastamento entre todos nós. O líder terá que motivar os colaboradores a cerrar fileiras e marchar firmes na mesma direção, mesmo que essa direção tenha que mudar amanhã, por uma das múltiplas ameaças que nos cercam ou pelas bizarras notícias que podem chegar a qualquer momento no nosso celular.

Meu pai lutou na Segunda Guerra Mundial. Ele me contava que quando uma fileira de soldados se aproximava do alvo e do perigo, o medo e o cansaço faziam aumentar a distância entre cada soldado sem que eles percebessem. O líder, que ia na frente, muitas vezes olhava para trás e via que estava sozinho.

Pois bem: adensar e avançar é algo que as startups sabem fazer, e fazem o tempo todo. Quando digo a clientes meus que é preciso aprender com elas, muitos me respondem que manter coesa uma equipe com menos de 20 pessoas é simples. “Venha manter a coesão em times de milhares de colaboradores!”, dizem eles.

Na verdade, não é esse o fator decisivo, e sim o desapego e a capacidade de desaprender. Realinhar, pivotar, autorregenerar-se. Nas startups é comum repensar o negócio todo quando, de repente, algo nos revela o que é valor para um grande cliente, ou encontramos um novo parceiro estratégico capaz de nos oferecer sobrevida e futuro. Isso tem acontecido cada vez mais. O volume de negócios entre startups e corporações aumentou cerca de 60 vezes nos últimos cinco anos, segundo a plataforma de conexão 100 Open Startups. O investimento em startups no Brasil mais que dobrou em 2021 e ultrapassou a fantástica cifra de U$ 9,4 bilhões, de acordo com o jornal Folha de São Paulo.

Vivemos um momento histórico no qual a verdadeira mágica da transformação organizacional está acontecendo. A única maneira de seguir competindo é regenerando os negócios e as relações em todas as instâncias: consumidores, fornecedores, parceiros e todos os demais. E passando a enxergar as empresas como centros de mudança e geração de múltiplo valor nos ecossistemas nos quais estão inseridas.

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