Mesmo diante de uma cada vez mais crescente crise climática mundial, que impacta desde a saúde dos indivíduos até a sustentabilidade de ecossistemas inteiros e seus recursos, possíveis catástrofes globais continuam não sendo levadas tão a sério quanto deveriam.

Um relatório publicado nesta segunda-feira (1) no Proceedings of the National Academy of Sciences reforça que é hora de começarmos a considerar os piores cenários e elaborar um esquema tático efetivo sobre o que fazer se – ou quando – o nosso modo de vida atual desmoronar.

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Marcha Popular pelo Clima, nos EUA: “O clima está mudando. Por que nós não estamos?”. Imagem: Nicole Glass Photography – Shutterstock

“As mudanças climáticas desempenharam um papel em todos os eventos de extinção em massa. Ajudou a derrubar impérios e a moldar a história. Até o mundo moderno parece adaptado a um nicho climático específico”, diz o principal autor do artigo, Luke Kemp, pesquisador do Centro para o Estudo do Risco Existencial da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

“Os caminhos para o desastre não se limitam aos impactos diretos das altas temperaturas, como eventos climáticos extremos”, declarou Kemp, em entrevista ao LiveScience. “Efeitos negativos, como crises financeiras, conflitos e novos surtos de doenças podem desencadear outras calamidades e impedir a recuperação de possíveis desastres, como uma guerra nuclear”.

Fatores combinados com a crise climática aumentam os riscos

A história recente já deu à humanidade uma prévia de como pandemias, instabilidade econômica e escassez global de alimentos podem afetar significativamente a vida das pessoas, ainda mais de forma combinada. 

Embora os resultados não sejam agradáveis, as estruturas da civilização global, no entanto, permanecem relativamente intactas. Em algum momento, todavia, tudo o que nos ajuda a resistir a essas situações pode entrar em colapso. Pandemias sucessivas e a escassez de alimentos levam os seres humanos a um contato mais próximo com os reservatórios de doenças zoonóticas. As guerras limitam a distribuição de alimentos por anos – talvez por décadas seguidas. A inflação que vai crescendo desenfreadamente conforme as economias lutam para lidar com novas formas de fazer negócios em um mundo mais quente e devastado por desastres.

Ambientalistas em todo o mundo, inclusive no Brasil, se manifestam contra o aquecimento global. Imagem: rodrigo_jorda – Shutterstock

“Até 2070, essas temperaturas e as consequências sociais e políticas afetarão diretamente duas potências nucleares e sete laboratórios de contenção máxima que abrigam os patógenos mais perigosos. Há um sério potencial para efeitos desastrosos”, alerta o artigo.

“Entendemos cada vez mais que nosso planeta é um organismo mais delicado e frágil. Devemos fazer as contas do desastre, a fim de evitá-lo”, acredita o diretor do Instituto Potsdam de Pesquisa de Impacto Climático, Johan Rockström.

Segundo os cientistas, uma boa gestão de riscos envolve não apenas prever quais cenários são prováveis, mas proteger-se contra aqueles que teriam o impacto mais terrível.

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Negacionistas do aquecimento global: ingênuos ou tolos?

Se as coisas continuarem como estão – o que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) tem alta confiança que continuarão – podemos quase certamente esperar o planeta estar em média 1,5ºC mais quente entre 2030 e 2052, em comparação com os níveis pré-industriais.

De acordo com o relatório, há uma chance em cinco de que uma taxa de cerca de 560 partes por milhão (ppm) de dióxido de carbono na atmosfera possa aumentar ainda mais as temperaturas. Em maio deste ano, por exemplo, atingimos 420 ppm. Com as taxas aumentando constantemente em algumas partes por milhão a cada ano, as próximas gerações terão muito com o que se preocupar.

Pesquisas anteriores indicam que estamos lamentavelmente mal informados sobre como exatamente é o aquecimento bem além de 2ºC, o que significa que podemos estar perdendo uma oportunidade de ouro de nos abastecermos de conhecimento que pode ser útil para evitar (ou enfrentar de forma eficiente) cenários catastróficos.

“Enfrentar um futuro de mudanças climáticas aceleradas enquanto permanece cego para os piores cenários é, na melhor das hipóteses, ser ingênuo, e fatalmente tolo, na pior das hipóteses”, diz Kemp.

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