Há 45 anos, no dia 20 de agosto de 1977, um foguete Titan 3E era lançado a partir de Cabo Canaveral na Flórida. O foguete levava a sonda espacial Voyager 2 e iniciava, naquele momento, um dos mais importantes programas de exploração do Sistema Solar Exterior.

A Voyager é a mais longa missão da história da exploração espacial e suas sondas, a Voyager 1 e 2 são os artefatos humanos mais distantes da Terra na atualidade. Para se ter ideia, o sinal de rádio da Voyager 1, viajando na velocidade da luz, leva mais de 21 horas e 45 minutos para chegar até nós. 

Elas também são cápsulas do tempo de sua época. Cada uma carrega um toca-fitas de oito faixas para gravar dados. Sua capacidade de memória é cerca de 3 milhões de vezes menor que a do seu celular, e sua conexão de dados é 38 mil vezes mais lenta do que a da internet 5G. 

Além dos equipamentos científicos, elas também levam um disco de ouro intitulado “The Sounds of Earth”, como um presente para as civilizações alienígenas que possam porventura, em algum momento no futuro, resgatar essas sondas no espaço. 

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Disco de ouro “The Sounds of Earth” enviado pelas sondas Voyager ao espaço interestelar – Imagem: NASA / JPL

Cada disco contém uma apresentação com 115 imagens da Terra, incluindo o Cristo Redentor e a Grande Muralha da China; 35 sons naturais como vento, pássaros e água correndo, e saudações em 55 línguas diferentes (duvido que os alienígenas entendam alguma). Também foram incluídos trechos de canções folclóricas, de obras de Beethoven, Mozart, e é claro, o clássico dos clássicos, Coisinha do Pai, de Beth Carvalho. Na capa, imagens contendo instruções de como tocar o disco e também um mapa, com a localização do sistema solar baseado nas distâncias de pulsares próximos.

Mas o principal legado das Voyagers não são os souvenirs enviados aos aliens, e sim, os dados e as imagens impressionantes que ampliaram imensamente o nosso conhecimento acerca do Sistema Solar exterior, principalmente dos planetas gigantes. 

A Voyager 1 foi lançada duas semanas após a Voyager 2, mas chegou à Júpiter primeiro, em março de 1979, passando a 349 mil quilômetros do gigante gasoso. 4 meses depois, foi a vez da Voyager 2 passar por lá. Ambas aproveitaram sua proximidade para fazer imagens de alta definição do planeta e de suas principais luas, Io, Europa, Calisto e Ganymede. 

As Voyagers fizeram várias descobertas importantes sobre Júpiter, incluindo a atividade vulcânica em Io, algo que nunca tinha sido observado antes.

Esquerda: detalhe das tempestades na superfície de Júpiter, incluindo a Grande Mancha vermelha. Direita: registro da erupção de um criovulcão em Io – Imagens: NASA / JPL

No final de 1980, a Voyager 1 chegou a Saturno, mas algo tinha acontecido no meio do caminho que mudou os planos da missão. No ano anterior, uma outra sonda, a Pioneer 11, havia descoberto uma densa atmosfera em Titã, a maior lua de Saturno. Os controladores decidiram então desviar a trajetória da Voyager 1 para que ela fizesse uma aproximação de Titã, possibilitando estudar melhor esse misterioso satélite. 

A mudança na trajetória, nos trouxe algumas imagens e dados inéditos sobre Titã, mas custou o restante da missão. A aproximação de Titã causou uma deflexão gravitacional na trajetória da sonda, que o lançou para fora do plano do Sistema Solar e a tirou da trajetória de Plutão, que só foi visitado 35 anos depois pela New Horizons.

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Esquerda: Saturno e três de suas luas, Tétis, Dione e Rhea, registrados pela Voyager 2. Direita: Camadas de névoa sobre Titã, uma das 62 luas de Saturno – Imagens: NASA / JPL

Já a Voyager 2 continuou sua trajetória, visitando Saturno em agosto de 1981, onde fez novas imagens do planeta e de suas luas. Depois seguiu para Urano, onde chegou em janeiro de 86.

Em Urano, a Voyager 2 descobriu 11 satélites naturais e estudou seu fino sistema de anéis. Também descobriu que o Pólo Sul de Urano estava deitado, apontando na direção do Sol. A sonda passou a apenas 81,5 mil quilômetros da superfície, o que lhe permitiu estudar sua atmosfera única, devido à incomum inclinação do seu eixo de rotação. 

Urano registrado pela Voyager 2 – Imagem: NASA / JPL

Em agosto de 89, a Voyager 2 finalmente chegou a Netuno, com o objetivo de estudar o planeta e sua principal lua, Tritão.. , também chegando a pesquisar seu satélite natural Tritão. Passando a menos de 5 mil quilômetros da superfície, a sonda consguiu imagens impressionantes do gigante de gelo, incluindo o registro de nuvens cirrus em sua atmosfera. A Voyager 2 também confirmou a descoberta de 6 novas luas e descobriu um sistema de anéis no planeta.

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Nuvens cirrus registradas sobre Netuno pela Voyager 2 – Imagem: NASA / JPL

Após essas importantes visitas, as Voyagers seguiram rumo ao espaço interestelar. Ambas as sondas já ultrapassaram o limite da heliosfera, uma espécie de bolha protetora criada pelo campo magnético do Sol e pelos ventos solares.

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E por mais que seja uma missão de 45 anos, as Voyagers permanecem na vanguarda da exploração espacial. Elas são as únicas sondas a explorar o espaço interestelar, o oceano galáctico pelo qual navegam nosso Sol e os planetas em sua órbita.

Recentemente, a Voyager 1 começou a enfrentar alguns problemas, fazendo com que as informações de status de um de seus sistemas a bordo ficassem distorcidas. Ainda assim, o sistema e a espaçonave continuam operando normalmente, sugerindo que o problema está na produção dos dados de status, não no próprio sistema. A sonda ainda está enviando observações científicas enquanto a equipe de engenharia tenta corrigir o problema ou encontrar uma maneira de contorná-lo.

“As Voyagers continuaram a fazer descobertas incríveis, inspirando uma nova geração de cientistas e engenheiros”, disse Suzanne Dodd, gerente de projeto da Voyager no JPL – Laboratório de Propulsão à Jato da NASA. “Não sabemos por quanto tempo a missão continuará, mas podemos ter certeza de que as Voyagers ainda nos trarão mais surpresas científicas à medida que se afastam da Terra.”

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