Fobias; muitos de nós temos alguma, por mais que não saibamos. Entre as mais comuns, estão a claustrofobia (medo de ambientes apertados), aracnofobia (medo de aranhas) e a fobia social, principalmente depois do isolamento imposto pela pandemia de Covid-19. Mas por quê experimentamos essas sensações muitas vezes paralisantes?

Antes de tudo, é importante estabelecer a diferença entre uma fobia e uma reação racional a algo potencialmente perigoso ou inesperado.

“Uma fobia é o medo de uma situação ou objeto em particular que excede as proporções da realidade objetiva e interfere na qualidade de vida de uma pessoa”, afirma Ron Rapee, professor de psicologia da Universidade Macquarie, na Austrália, em entrevista ao portal Live Science. “A maioria das fobias mostra essencialmente as mesmas características, diferindo apenas no foco do medo.”

“Traços comuns incluem o ato de evitar a situação ou objeto temido; pensamentos negativos ou aflitos; e sintomas físicos quando diante da fonte do medo, como aumento da frequência cardíaca, dilatação das pupilas e respiração acelerada”, acrescenta Rapee.

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A maioria das pessoas será cautelosa diante de uma situação ou objeto perigoso, mas, às vezes, esses medos realistas podem gerar o que muitos considerariam uma resposta excessiva ou irracional.

Uma das fobias mais comuns é a aracnofobia, ou medo de aranhas | Crédito: RHJPhtotos, via Shutterstock.

De onde vêm as fobias?

Uma aversão à água é um exemplo do que Rapee consideraria uma precaução racional que se tornou, por algum motivo, uma fobia. É possível que muitos desses pavores exacerbados, como a acrofobia (medo de altura), tenham surgido por pressões evolutivas.

“Na maioria dos casos, as fobias derivam de situações e objetos reais e associados à nossa história evolutiva”, explica Rapee. “Por exemplo, é muito difícil ver alguém com uma fobia de cabos elétricos e interruptores – muito embora eles possam matar uma pessoa -, mas é comum ver fobias de tempestades, algo com potenciais mortais desde as origens de nossa espécie.”

Entretanto, a comunidade científica ainda não sabe ao certo por que um medo pode evoluir para uma fobia em alguns de nós, mas não em outros.

“Uma teoria comum diz que as fobias são ‘aprendidas’ em momentos cruciais do nosso desenvolvimento individual, geralmente na infância. Esse aprendizado por vir de uma má experiência, como ser mordido por um cachorro”, afirma Rapee. “Mas esses casos provavelmente são exceções, já que a maioria das pessoas com fobias não consegue apontar para uma experiência traumática específica.”

Essa teoria, chamada ‘psicodinâmica’ e aventada por Sigmund Freud, sugere que muitos de nossos medos e comportamentos podem ser ligados a experiências na infância. Em casos particularmente traumáticos, a memória desses eventos pode ser reprimida e acabar se manifestando mais tarde através de fobias. Contudo, alguns especialistas, como o Dr. Joel Paris, professor de psiquiatria na Universidade McGill, no Canadá, dizem que “a ausência de evidências sólidas e persuasivas para essa teoria” significa que, mesmo que as memórias reprimidas tenham um papel no desenvolvimento das fobias para algumas pessoas, é improvável que esse seja o caso para grande parte dos indivíduos.

De fato, uma pessoa não precisa ter passado por uma experiência negativa com o oceano para desenvolver um caso de talassofobia (medo de corpos d’água profundos). Ela pode simplesmente ter se assustado com o filme ‘Tubarão’ ou ter sido constantemente advertida por seus pais acerca dos perigos do mar.

Talassofobia, ou medo de águas profundas | Crédito: lassedesignen, via Shutterstock.

Mas é possível que nem todas as fobias sejam aprendidas. Alguns psicólogos sugerem que certos medos e preocupações excessivas sejam inatas aos seres humanos.

“Defensores desta visão afirmam que nós somos predispostos geneticamente a temer certas coisas, mesmo sem um processo de aprendizado negativo”, explica Chris Askew, professor de psicologia da Universidade de Surrey, no Reino Unido.

Embora essa ideia ainda seja debatida, há indícios de que indivíduos com certas características são mais propensos a desenvolver fobias. Segundo Rapee, isso inclui pessoas com “temperamentos mais temerosos e emotivos.”

“A natureza inata de uma pessoa pode ser um fator de risco”, conta Kelvin Wong, psicólogo clínico da Universidade La Trobe, na Austrália. “Um exemplo é a personalidade neurótica, que leva uma pessoa a experienciar o mundo como algo extremamente estressante e ameaçador. Outro exemplo é alguém com inibição comportamental, ou seja, um indivíduo que reage muito mal a situações novas.”

Para Askew, as fobias e os sentimentos de ansiedade podem inclusive ser hereditários. “É possível que algumas pessoas sejam mais geneticamente propensas a desenvolver uma fobia”, ele afirma. De fato, um estudo publicado em 2017 na revista Dialogues in Clinical Neuroscience mostra como o transtorno de ansiedade generalizada é aproximadamente 30% herdado dos pais.

Superação de fobias

“As fobias duram muito tempo provavelmente porque as pessoas costumam evitar as coisas de que têm medo”, afirma Rapee. “Em outras palavras, fazem tudo que podem para não deparar-se com o objeto ou situação temida, e, assim, mantêm o medo vivo.”

“Para superar uma fobia, você deve enfrentar o seu medo”, ele conta. “Em termos profissionais, nós chamamos isso de ‘terapia de exposição’. Isto é, as pessoas precisam precisam encarar repetida e sistematicamente as situações relacionadas ao seu medo; tudo isso dentro de um ambiente controlado.”

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“Quando isso é feito de forma adequada e consistente, os pacientes respondem bem rápido. Inclusive, há até sessões únicas de tratamento de fobias hoje em dia”, diz Rapee.

Segundo Wong, o objetivo final é que o paciente “aborde os estímulos geradores de fobias a fim de aprender que os seus medos não vão se concretizar.”

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