ChatGPT: OpenAI explorou trabalhadores quenianos para identificarem conteúdos ilegais e criminosos

Funcionários de moderação de conteúdo precisavam ler textos com temas ilícitos e perturbadores
William Schendes
William Schendes, editado por Adriano Camargo 19/01/2023 12:55, atualizada em 19/01/2023 12:57
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Ainda que o ChatGPT opere a partir de inteligência artificial, é necessário que pessoas moderem o conteúdo apresentado pela ferramenta. Para isso, funcionários da empresa terceirizada, Sama, foram contratados pela OpenAI para a moderação de conteúdos considerados inadequados para o chatbot.

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Uma reportagem da Times mostra que os funcionários de moderação de conteúdo precisavam ler textos com temas ilegais como estupro, automutilação, abuso sexual infantil, assassinato, suicídio, tortura e muito mais. Além disso, os funcionários quenianos recebiam um salário entre US$ 1,32 e US$ 2 por hora trabalhada.

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(Imagem: Ascannio / Shutterstock.com)

Para moderar o conteúdo do chatbot, a OpenAI adotou um sistema similar ao da Meta, em que a IA recebe diversos conteúdos inapropriados para que a ferramenta aprenda a detectá-los e assim evitar que eles chegassem até o usuário.

Esse foi a missão destinada aos trabalhadores da Sama a partir de novembro de 2021. A empresa, sediada em San Francisco, conta com funcionários no Quênia, Uganda e Índia responsáveis por rotular conteúdos para grandes empresas da tecnologia como Google, Meta e Microsoft.

De acordo com a reportagem de denúncia, que teve acesso a documentos internos da Sama e OpenAI e entrevistou quatro funcionários, os textos lidos pelos trabalhadores eram bastante perturbadores.

Um dos funcionários responsável pela rotulação dos conteúdos disse que teve visões recorrentes após ler a descrição gráfica de uma cena de zoofilia envolvendo uma criança.

“Você vai ler uma série de declarações como essa durante toda a semana. Quando chega a sexta-feira, você fica perturbado por pensar naquelas imagens”, disse.

Outro funcionário entrevistado pela Times chegou a mencionar uma história que teve que ler sobre o ajudante de Batman, Robin, sendo estuprado. O trabalhador ficou confuso sobre como deveria rotular aquele conteúdo, pois em determinado momento da história, o personagem “retribui” o que está sendo feito com ele, então ele precisou entrar em contato com a OpenAI para questionar como aquela história em específico deveria ser classificada. A empresa não respondeu ao questionamento.

A OpenAI confirmou à reportagem que os funcionários terceirizados da Sama ajudaram na detecção de conteúdos tóxicos e treinamento do ChatGPT. 

“Nossa missão é garantir que a inteligência artificial geral beneficie toda a humanidade e trabalhamos duro para construir sistemas de IA seguros e úteis que limitem o viés e o conteúdo prejudicial”, disse o porta-voz. “Classificar e filtrar [textos e imagens] nocivos é uma etapa necessária para minimizar a quantidade de conteúdo violento e sexual incluído nos dados de treinamento e criar ferramentas que possam detectar conteúdo nocivo”.

O custo dessa tarefa desgastante

Os documentos analisados mostram que no final de 2021, a OpenAI assinou contratos de pagamento para a Sama no valor total de US$ 200 mil, para a rotulação dos conteúdos.

De acordo com funcionários, durante um turno de nove horas, eles deveriam ler entre 150 a 250 passagens de texto, que poderiam variar entre 100 a 1.000 palavras. Os funcionários ainda disseram que ficaram psicologicamente desgastados pelo trabalho. Apesar da Sama afirmar que os funcionários tinham opões de sessões individuais e em grupo com “terapeutas de saúde mental”, os trabalhadores terceirizados entrevistados afirmam que essas sessões eram raras e inúteis devido à alta demanda de produtividade da empresa.

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Os contratos mostram que os trabalhadores deveriam receber US$ 12,50 por hora de trabalho, entre seis e nove vezes o valor que de fato era pago aos funcionários quenianos.

Aqueles que cumpriam um torno de nove horas recebiam US$ 1,32 e poderiam receber US$ 1,44 por hora caso batessem suas metas. Funcionários analistas de qualidade mais experientes recebiam até US$ 2 caso as metas também fossem cumpridas.

Um porta-voz não identificado da Sama disse que a demanda dos funcionários era rotular 70 passagens de texto em um turno de nove horas e que a empresa não estabeleceu metas de produtividade.  Também disse que a remuneração por hora trabalhada variava entre US$ 1,46 e US$ 3,74 por hora.

 “A taxa de US$ 12,50 para o projeto cobre todos os custos, como despesas de infraestrutura, salário e benefícios para os associados e seus analistas de garantia de qualidade totalmente dedicados e líderes de equipe”, disse o porta-voz.

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Como acabou a parceria entre Sama e OpenAI

De acordo com um documento de cobrança analisado pela reportagem, a OpenAI entregou um lote de 1.400 imagens de rótulos com conteúdos graves por um pagamento de US$ 787,50. Nesse lote estavam rótulos “C4”, uma classificação interna para conteúdos de abuso sexual infantil; “C3” para imagens de bestialidade, estupro e escravidão sexual; e “V3” com imagens de morte, violência e lesões físicas graves.

Esse lote fez a Sama encerrar a parceria com a OpenAI, afirmando em comunicado que o acordo para rotular imagens não incluía conteúdos ilegais.

“A equipe da África Oriental levantou preocupações para nossos executivos imediatamente. A Sama encerrou no ato o piloto de classificação de imagens e avisou que cancelaríamos todos os [projetos] restantes com a OpenAI” disse um porta-voz da Sama.

Por um lado, os funcionários não seriam mais expostos a conteúdos perturbadores, por outro muitos perderam boa parte de suas rendas sendo movidos para setores com salários ainda mais baixos, enquanto outros funcionários perderam seus empregos.

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Recentemente, no dia 10 de janeiro, a Sama anunciou que cancelaria todos os trabalhos envolvendo conteúdos sensíveis e não renovaria a parceria de US$ 3,9 milhões com o Facebook para moderação de conteúdo.

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William Schendes
William Schendes

Jornalista em formação pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Mesmo com alguns assuntos negativos, gosta ficar atualizado e noticiar sobre diferentes temas da tecnologia.

Adriano Camargo
Adriano Camargo

Jornalista 100% geek há quase 20 anos, pai do Alê, fanático por tecnologia, games, Star Wars, esportes e chocolate. Narrador/comentarista esportivo e Atleta Master. Não necessariamente nessa ordem.

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