Desde o dia 1º de março, um ex-mergulhador da Marinha dos EUA está vivendo em uma caixa de 10 m2 a quase 7 metros abaixo da superfície oceânica, onde pretende permanecer por um total de 100 dias. Se conseguir atingir a meta, ele vai bater o recorde de maior tempo em um habitat submerso em água.

Especialista em engenharia biomédica, Joe Dituri conduz pesquisas sobre os efeitos provocados no corpo humano pela pressão hiperbárica – quando a pressão do ar é maior do que seria ao nível do mar. Com a missão Neptune 100, ele pretende usar o tempo que permanecer abaixo da superfície para examinar o impacto que a vida nesse ambiente de alta pressão tem em sua saúde.

Desafios enfrentados na missão

Mas, isso não seria como viver em um submarino? Curiosamente, segundo Bradley Elliott, professor sênior de fisiologia da Universidade de Westminster, no Reino Unido, não. Em um artigo publicado no site The Conversation, Elliot explica que os submarinos são selados quando submersos e mantidos à pressão do nível do mar, o que significa que não há diferença significativa na pressão, mesmo quando um submarino está a centenas de metros de profundidade.

Já o habitat subaquático de Dituri não terá escotilhas sólidas ou eclusas de ar entre o oceano e o espaço de vida seco, como em um submarino. Ou seja, o ar dentro de seu ambiente é espremido pelo peso do oceano, aumentando a pressão ao seu redor. A uma profundidade de 100 metros, a pressão do ar dentro desse habitat é cerca de duas vezes maior do que o que ele estaria acostumado em terra.

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Como todo mergulhador certificado sabe, a pressão hiperbárica pode representar uma ameaça muito real para os seres humanos. Nossos corpos foram adaptados por gerações de evolução para as condições do nível do mar, onde os dois principais gases envolvidos na respiração (oxigênio e dióxido de carbono) são os únicos que cruzam livremente entre nossos pulmões e nosso sangue.

Outro desafio para o pesquisador será conseguir vitamina D suficiente. A pele deve receber exposição UV para produzir essa vitamina, e isso normalmente vem da luz do Sol. É provável que Dituri não seja exposto a vitamina D suficiente enquanto vive em seu ambiente subaquático.

A vitamina D desempenha papéis-chave na manutenção da densidade óssea, função muscular e imunidade. Pesquisas com pessoas que viviam em um habitat subaquático administrado pela NASA como um análogo de voo espacial descobriram que elas tinham função imunológica reduzida após uma estadia de apenas 14 dias.

Então, para minimizar as reduções em sua função imunológica, Dituri precisará obter vitamina D de outras fontes debaixo d’água – como alimentos, suplementos ou de lâmpadas UV.

Joe Dituri, ex-mergulhador da Marinha dos EUA, vai passar 100 dias morando em um habitat subaquático. Crédito: Reprodução YouTube Joe Dituri

Astronautas que vivem em ambientes semelhantes relatam ocorrências de infecções latentes. São vírus que muitos de nós carregamos e que nosso sistema imunológico normalmente mantém sob controle. Isso também pode fazer com que o “aquanauta” Dituri adoeça, se sua função imunológica se descontrolar.

Em relação a atividades físicas, ele terá um espaço muito pequeno para fazer caminhadas, além de nadar. Como a natação não suporta peso, é muito provável que ele enfrente perdas de massa óssea e muscular, que podem ser semelhantes ao que ocorre com os astronautas durante longas missões na Estação Espacial Internacional (ISS), mas não tão extremas.

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Viver tanto tempo debaixo d’água também provoca efeitos a longo prazo

É sabido, a partir de pesquisas com submarinistas, que mesmo apenas alguns meses abaixo da superfície podem surtir efeitos a longo prazo, apesar das medidas para evitar que isso aconteça.

Mesmo depois de dois meses abaixo do nível do mar, por exemplo, os submarinistas ainda apresentam padrões de sono perturbados e problemas com os níveis de certos hormônios ligados ao sono. 

A maior questão que permanece é o efeito que a pressão hiperbárica a longo prazo terá sobre Dituri. Estudos sobre os efeitos da pressão hiperbárica analisaram apenas exposições de curto prazo, que tiveram resultados positivos na cicatrização de feridas.

Como podemos ver, concluir sua pesquisa não será apenas um mérito pessoal para o “aquanauta”, mas algo que vai enriquecer os estudos sobre as consequências da vida sob situações de extrema pressão hiperbárica, o que vai ajudar a medicina a entender ainda mais a fisiologia humana.

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