Após três anos de medidas intensas, quarentena, crise econômica, enxurrada de informações de saúde e muitos debates políticos, 2023 chegou para abrandar umas das situações mais graves que o mundo já enfrentou: a pandemia da Covid-19. Embora ainda estejamos vivendo os resquícios do período, muita coisa mudou de 2022 para cá, quando ainda tínhamos dúvidas se a volta à normalidade seria realmente possível. 

Pensando nisso, o Olhar Digital preparou uma retrospectiva sobre as principais notícias da doença em 2023. Da discussão da Anvisa sobre colocar fim às medidas emergenciais até as lições aprendidas e o que esperar do futuro, confira os tópicos mais importantes logo abaixo! 

Essa é apenas a primeira reportagem de uma série de retrospectivas que faremos ao longo do mês de dezembro.

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Legado 1: vacinação

Após um 2022 recheado de variantes, como a famosa Ômicron (a mais prevalente desde 2022), 2023 começou com boas notícias. Já em fevereiro, a esperada vacina bivalente, que protege tanto contra a cepa original quanto ramificações do vírus, foi disponibilizada como reforço, iniciando uma ampla campanha de vacinação em idosos e grupos prioritários. 

No mesmo mês, para alívio dos pais, a imunização de bebês de 6 meses a dois anos também foi liberada, isso graças à chegada de remessas de vacinas Pfizer Baby e Pediátrica, já que o esforço do governo para vacinação em massa enfrentou dificuldades com escassez de imunizantes e, a depender da região, descarte de vacinas vencidas. 

Em abril, o Ministério da Saúde expandiu ainda mais a imunização, alcançando o público a partir dos 18 anos.

Em nota, a pasta afirmou na época que o objetivo era “reforçar a proteção contra a doença e ampliar a cobertura vacinal em todo o país”.  Apesar de alguns percalços e resistência devido à disseminação de fake news, atualmente, dados apontam que a cobertura vacinal de fato melhorou. 

Em entrevista recente à Agência Brasil, Mônica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), disse que “as coberturas vacinais já estão melhores que em 2021 e 2022”.  

Acho que vamos conseguir [aumentar o índice vacinal], mas recuperar todo o estrago demora um pouco para voltarmos a ser exemplo [para o resto do mundo]. 

Em sintonia com a conquista, em outubro deste ano foi definido que, a partir de 2024, o Brasil incluirá a dose da vacina contra a Covid-19 no Programa Nacional de Imunizações (PNI), priorizando grupos de maior risco e crianças. Conforme determinação do Ministério da Saúde, também a partir do próximo ano, adultos saudáveis não precisarão tomar nova dose da vacina – salvo os que ainda não completaram seu esquema vacinal. 

Fim da emergência global de saúde 

Lá em fevereiro, o Ministério da Saúde do Brasil também decidiu não divulgar mais dados diários sobre a Covid-19 no país, passando para um cronograma semanal, acompanhando o cenário mais real da situação da época, que já estava mais branda. 

Poucos meses depois, em maio, a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou que a Covid-19 não era mais uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII). O alerta, que foi implementado em janeiro de 2020, era o mais alto nível de vigilância da organização. 

Importante pontuar, no entanto, que o fim da emergência global não retirou o título de pandemia. Então, sim: ainda estamos em uma pandemia! Essa classificação é diferente do alerta de emergência, foi implementada um pouco mais tarde, em março de 2020, e segue ativa. 

De acordo com a OMS, a situação da Covid registrou a sexta vez na história que o órgão precisou declarar uma Emergência de Saúde Pública de Importância Global. As outras foram em: 

  • 25 de abril de 2009: pandemia de H1N1;
  • 5 de maio de 2014: disseminação internacional de poliomielite; 
  • 8 agosto de 2014: surto de ebola na África Ocidental;
  • 1 de fevereiro de 2016: vírus zika e aumento de casos de microcefalia e outras malformações congênitas;
  • 18 maio de 2018: surto de ebola na República Democrática do Congo.
covid-19 transmissão
Imagem: Shutterstock

Legado 2: variantes 

Assim como 2022 viu novas variantes do coronavírus se espalharem pelo mundo, 2023 também reportou algumas. No ano passado, tivemos cepas como Alfa, Beta, Gama e Delta, mas nenhuma alcançou o nível de contágio da B.1.1.529 (Ômicron), de onde se originaram se não a maioria, todas as registradas neste ano. 

  • Em 2022, mutações da cepa (como se fosse a variante da variante) começaram a ganhar protagonismo, com mais ramificações sendo registradas; 
  • Assim, este ano conhecemos a Éris (EG5.1), Pirola (BA.2.86), Arcturus (XBB.1.16) e JN1; 
  • A Éris está no centro da contaminação este ano, sendo a mais prevalente no mundo, conforme a OMS. A variante de preocupação, que já circula em diversos países, incluindo Brasil, é altamente contagiosa, grave e consegue escapar de anticorpos, segundo pesquisa; 
  • A Pirola é a segunda mais prevalente e também já está entre brasileiros – a partir dela, já existem ao menos mais 30 mutações. Ela também consegue neutralizar o sistema imunológico da pessoa infectada; 
  • A Arcturus surgiu na Índia em janeiro deste ano e já se alastrou por quarenta países, no Brasil também. Conforme o Ministério da Saúde, no entanto, a variante não foi considerada de preocupação, mas trouxe um sintoma novo: a conjuntivite viral; 
  • Por fim, a JN1, a mais recente registrada (em novembro), é uma descendente da Pirola e tem poucos casos registrados. Por ora, ela não é considerada uma variante de preocupação. 

Vale pontuar que as vacinas disponíveis atualmente conseguem combater as novas variantes. Apesar disso, os EUA foram um dos países a autorizar, em setembro, uma atualização que inclua a Éris e a Pirola – as hospitalizações aumentaram no território devido às cepas. 

No Brasil, a Pfizer também enviou, em agosto, um pedido para aprovação da atualização dos imunizantes à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Esse foi o primeiro pedido de atualização de vacina monovalente contra a Covid no Brasil. 

Importante destacar que a atualização é um procedimento comum entre vacinas de doenças sazonais, como a gripe, que assim como a Covid também sofre mutações. 

Legado 3: avanços

Neste tópico, é possível que seja imensurável relatar a quantidade de estudos relacionados à Covid-19. Da descoberta de novos remédios e tratamentos até a compreensão do vírus e sua ação em diferentes pessoas, a chegada da doença somada ao boom da IA tem revolucionado a área da saúde – até no que diz respeito a prever novas pandemias e epidemias. 

Vamos em pontos: 

  1. Vacinas, com destaque para a tecnologia de RNA mensageiro:
  • A começar pelo desenvolvimento de mais vacinas, após a chegada da tecnologia RNA mensageiro, que sustenta as vacinas da Pfizer/BioNTech e da Moderna, pesquisadores desenvolveram outros imunizantes, incluindo uma vacina nasal que reduziu significativamente a infecção pela Covid-19; 
  • Uma nova vacina trivalente que combate sarampo, caxumba e Covid também nasceu dos avanços com imunizantes contra o coronavírus – a imunização também é intranasal, uma tendência que ganhou força este ano, com resultados promissores em roedores; 
  • No Brasil, testes de vacinas nacionais também avançaram: a Anvisa autorizou em setembro o início de uma nova etapa de ensaio clínico do fármaco desenvolvido pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Chamado de SpiN-Tec, o imunizante deve estar disponível no final de 2024.
  1. Evolução dos testes diagnósticos e métodos de proteção:
  • Houve ainda a evolução dos testes da Covid. A Food and Drug Administration (FDA), agência dos EUA equivalente à Anvisa, aprovou em março o primeiro autoteste capaz de detectar o vírus da Covid-19 e o da gripe (influenza) simultaneamente – e já há versões disponíveis no Brasil; 
  • Avançando ainda mais com os exames para detectar o vírus, um teste que detecta a doença em menos de um minuto também foi criado por cientistas da Universidade de Washington, em St. Louis. Ele requer apenas uma ou duas respirações do paciente para identificar esse e outros vírus – normalmente, um autoteste da Covid leva 15 minutos para apresentar o resultado; 
  • Tentando conter a Covid por todos os lados, uma máscara de proteção que “prende” o vírus foi inventada. O material demonstrou uma eficiência aproximada de 93% na captura de proteínas, incluindo as do coronavírus; 
  • A área da saúde e pesquisa ganhou ainda mais armas ao criar também um monitor de ar que detecta o vírus da Covid em cinco minutos. O aparelho combina amostragem de aerossóis com técnica de biossensor ultrassensível, sendo capaz de rastrear diversas substâncias no ar; 
  • Indo para o tema de maior destaque de 2023, a IA também colaborou com avanços na Covid: um novo método baseado na tecnologia agora consegue mapear com precisão os danos da doença nos pulmões de pacientes infectados (e essa é exclusiva do Brasil, viu); 
  • A inteligência artificial também passou a prever casos graves da doença, ajudando médicos a tomar decisões melhores sobre tratamentos;
  • A tecnologia ainda ganhou treinamento para identificar vírus com potencial para desencadear outras pandemias. 
  1. Estudos:
  • A começar pela chamada Covid longa, cientistas passaram a se aprofundar nos sintomas persistentes da doença no corpo, bem como suas consequências – descobriram que três em cada cinco pacientes sofrem com danos em seus órgãos após um ano. Medicamentos para tratar a condição também foram desenvolvidos;
  • Com muitas pesquisas e testes, estudiosos também começaram a entender a ação da Covid-19 no cérebro – interesse veio pouco após ápice da doença, quando pacientes começaram a relatar falhas de memória. Foi comprovado então que o vírus não atinge apenas os pulmões, mas que também causa danos às células e estrutura cerebral – isso trouxe uma nova perspectiva sobre a condição; 
  • Por fim, estudos também conseguiram chegar a um período sazonal para a doença, que deve funcionar como a gripe – incidência deverá ser maior no inverno e menor no verão.

Vale lembrar que a chegada da tecnologia RNA mensageiro, das primeiras vacinas da Covid-19, rendeu a dupla de cientistas responsáveis um Nobel de Medicina. Ao Olhar Digital, o médico sanitarista, fundador e ex-presidente da Anvisa, Dr. Gonzalo Vecina Neto, destacou que dentre os avanços na pandemia, esse foi justamente um dos mais importantes, além da descoberta da efetividade de alguns medicamentos que jamais usaríamos em um processo viral – caso do corticóide.

Um recado muito importante [com a pandemia] foi dado via o atendimento de pacientes graves na UTI. Foi uma surpresa importante descobrirmos que o processo inflamatório violento necessitava de um anti-inflamatório de base hormonal. A outra questão que também foi um grande sucesso da pandemia foram as vacinas de RNA mensageiro. Elas estavam há mais de 30 anos em estudo.

Dr. Gonzalo Vecina Neto, médico sanitarista, fundador e ex-presidente da Anvisa.

O especialista acrescentou que o método de desenvolvimento de imunizantes, inclusive, será um dos intrumentos mais importantes para novas vacinas e medicamentos com base no sistema imunológico, como é o caso de tratamentos contra o câncer.

Ilustração de ciência de dados sobre Covid-19
(Imagem: Reprodução/United States Data Science Institute)

Reforçando a visão de Vecina, a médica Luana Araújo, especialista em doenças infecciosas e mestre em Saúde Pública, disse que, de fato, a chegada do RNA mensageiro está no topo do ranking dos avanços, principalmente porque também tem o potencial de conquistas na oncologia. No entanto, há outra evolução que merece créditos: o autoteste da Covid.

Pouco se fala dos testes diagnósticos, mas o barateamento, a democratização e a cappacidade de levar o teste para casa é um avanço gigantesco. Poder tirar a exclusividade dos laboratórios foi importantíssimo.

Dra Luana Araújo, médica especialista em doenças infecciosas e mestre em Saúde Pública, ao Olhar Digital.

Legado 4: lições e futuro

Apesar da melhora na cobertura vacinal de 2023, três anos após o início da pandemia da Covid-19, o Brasil ainda registra excesso de mortes, com um aumento de 18% em 2023 em relação ao esperado. Os dados, levantados pelo Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde), reforçam que ainda estamos em pandemia, já que a doença continua a causar mortes diretas ou indiretas no Brasil. 

  • Enquanto eram projetadas 262,8 mil mortes, houve cerca de 48 mil a mais do que o previsto. 

No que diz respeito aos casos da doença, a Fiocruz alertou recentemente que um aumento foi observado em setembro, principalmente entre adultos. O Rio de Janeiro é o estado com maior crescimento dos casos, mas também houve uma leve evolução no Espírito Santo, Goiás e São Paulo. 

  • Vale destacar que, desde a chegada da Covid-19, órgãos monitoram a disseminação da doença, tendo ela altos e baixos entre a população, a depender de diversos fatores, como a estação do ano e datas festivas com aglomeração de pessoas. Assim, a vacinação e testagem continuam sendo as melhores armas no combate contra o vírus que, conforme previsto por especialistas, viverá por tempo indeterminado entre nós. 

O vírus da Covid não vai embora. O Sars-Cov 2 é um vírus com o qual iremos conviver daqui para frente. Vamos ter que tomar dose de reforço de vacina todos os anos enquanto não se produz uma vacina cuja ação seja mais perene. Será importante manter a cobertura vacinal principalmente nos idosos, crianças e grávidas.

Dr. Gonzalo Vecina Neto, médico sanitarista, fundador e ex-presidente da Anvisa.

No mais, a Anvisa começou a discutir em outubro o fim das medidas emergenciais adotadas na pandemia. Muitas exigências já foram retiradas no decorrer do ano. No entanto, por ora, nenhuma decisão foi divulgada. 

Citando a Covid pelo mundo, o cenário é o mesmo: menor intensidade nas mortes e casos, mas cautela, pois ainda há registros e evolução entre períodos. Nos EUA, por exemplo, o foco tem sido monitorar as variantes – a chegada da Éris no país causou um boom de casos.  

Na Europa, a doença ainda provocava mil mortes semanais em junho, conforme divulgou a OMS. O órgão chegou a emitir um comunicado alertando a população de que a doença não desapareceu

Coronavírus ainda provoca mortes no Brasil
Imagem: plo / Shutterstock

Aprendemos mesmo com a Covid?

Conforme já pontuado, a Covid-19 viverá agora entre nós, contudo, o mundo deve se preparar não apenas para lidar com o coronavírus e suas mutações, mas para novas pandemias, principalmente ante a pressão ecológica que o mundo vive – consumo das populações humanas sobre os recursos naturais.

Ao mesmo tempo que vamos continuar vivendo com o SarsCov-2, vamos ter que nos preparar para a possibilidades de novas pandemias, que com certeza irão ocorrer, tanto produzidas localmente, já que temos seis biomas sob ataque humano, ou importado de países onde essa pressão já existe, que é o caso da China e Índia. Os países africanos também, já que estão crescendo em população e agressão ao meio ambiente.

Dr. Gonzalo Vecina Neto ao Olhar Digital.

Para além dos avanços da tecnologia em medicina, Dr. Vecina ressaltou que há uma lição no topo desse ranking que não tem certeza que tenha sido aprendida: a importância do Sistema Unico de Saúde (SUS).

Espero que a importância do SUS durante a pandemia seja algo que a sociedade brasileira não se esqueça. Descobrir que há um sistema de atenção à saúde de base universal financiado por políticas públicas e pelo orçamento do estado brasileiro nas três esféras foi uma coisa muito importante. No meio do desgoverno que tivemos, ter uma estrutura federal, estadual, municipal foi vital para que o SUS se manifestasse e se colocasse por cima dos diversos problemas e erros que cometemos.

Indo na linha de que os avanços tecnológicos tiveram sucesso, mas que a questão social continua “manca”, a Dra Luana Araújo destacou que, mesmo após tudo que vimos, experimentamos e aprendemos com a Covid-19, na prática, muita coisa ainda não funciona como deveria.

A prática ainda não corresponde ao que a gente enxerga. E isso tem a ver com equidade em saúde. Em um mundo como o de hoje, com globalização e tudo mais, não existe ninguém seguro enquanto todos não estiverem seguros. É um erro muito grave a gente redirecionar recursos somente àqueles países socioeconomicamente mais favorecidos e deixar outras populações vulneráveis. Isso vai se voltar contra todo o mundo.

A especialista exemplicou o quanto a equidade na saúde é ausente, e como o resultado dessa falha deve chegar até aqui. Citando a Mpox, doença que teve um surto de casos em todo o mundo em 2022, Araújo contou que uma nova onda já ocorre no Congo, mas agora com um tipo viral ainda mais agressivo e com maior taxa de mortalidade.

Ano passado a gente teve uma taxa de óbitos de 0,18%, e isso foi suficiente para a gente decretar uma emergência sanitária global. Mas o surto que está acontecendo agora na República Democrática do Congo tem uma taxa de mais de 4%. É um vírus mais agressivo, em uma população mais fragilizada e com menor acesso ao sistema de saúde. O Congo não foi destino de nem uma dose de vacina contra a Mpox. Nem uma dose.

De acordo com a OMS, de 1 de janeiro a 12 de novembro de 2023, um total de 12.569 casos suspeitos de mpox, incluindo 581 mortes suspeitas de mpox (taxa de letalidade: 4,6%), foram notificados em 85% da região das províncias do Congo – este é o maior número de casos anuais já notificados na região.

Segundo o órgão, ele “está trabalhando para melhorar o acesso a vacina desenvolvida para a varíola (Imvamune, Imvanex ou Jynneos) que foi aprovada em 2019 para uso na prevenção e ainda não está amplamente disponível“.

As pessoas continuam fingindo que esses lugares mais desfavorecidos não existem e que o sofrimento que eles passam lá não pode ser experimentado no resto do mundo. É muito grave. Então, a gente ainda não aprendeu essa lição, aconteceu na Covid, está acontecendo com a Mpox e pode acontecer com muitas outras doenças em um futuro próximo. Espero que melhore e que a gente aprenda o mais rápido possível.

Dra Luana Araújo, especialista em doenças infecciosas e mestre em Saúde Pública,