“É como se tivéssemos adiantado o relógio do aquecimento global em cerca de uma década”. É assim que pesquisadores descrevem o resultado de um estudo que analisou esponjas marinhas centenárias para determinar o aumento da temperatura do nosso planeta. O trabalho sugere que a Terra pode ter esquentado 1,7°C em relação à temperatura média anterior à era dos combustíveis fósseis.

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Limite de aumento das temperaturas foi ultrapassado

  • Segundo os cientistas, se os dados estiverem corretos, isso significa que o aquecimento global já superou um dos objetivos do Acordo de Paris.
  • O pacto global foi firmado em 2015 e propunha manter o aumento das temperaturas abaixo de 2°C até o final do século e buscar esforços para limitar esse aumento até 1,5°C.
  • O estudo com esponjas marinhas é mais um indicativo da urgência em combater as mudanças climáticas.
  • Os dados foram publicados na revista especializada Nature Climate Change.
  • As informações são da Folha de São Paulo.
Análise de esponjas marinhas sugere que as temperaturas subiram 1,7°C, em média (Imagem: Xurzon – Istockphoto)

Esponjas marinhas guardam informações climáticas do passado

Os resultados do estudo foram obtidos após análise da estrutura física das esponjas da espécie Ceratoporella nicholsoni, presentes no Caribe, perto das ilhas de Porto Rico e Saint Croix, e com parentes próximos no Brasil. Esses invertebrados, com estrutura corporal muito primitiva, semelhante à dos corais, crescem muito lentamente e podem viver séculos, sendo encontrados a dezenas de metros de profundidade.

Dessa forma, a estrutura calcária dos animais — chamados de “escleroesponjas”— pode ser usada para investigar como eram as condições ambientais do oceano no passado. Além disso, por crescer em profundidades que vão de 30 metros até quase 100 metros, as esponjas marinhas não estão sujeitas às flutuações mais rápidas e passageiras que afetam a temperatura da água perto da superfície.

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Os pesquisadores combinaram os dados brutos sobre a variação proporcional dos elementos químicos com registros históricos sobre o clima e dados de temperatura obtidos diretamente no mar e em terra. Esses últimos, obtidos com termômetros relativamente confiáveis, são mais recentes, datando da segunda metade do século XIX em diante.

Mas algumas das esponjas são bem mais antigas, remontando ao começo do século XVIII. As informações históricas e de termômetros serviram para “calibrar” as oriundas das esponjas, atribuindo-lhes datas mais específicas.

O resultado, segundo os cientistas, acompanha com bastante precisão as medições mais convencionais da temperatura e alcança períodos em que não havia termômetros confiáveis. De acordo com os estudos, os dados indicam uma fase inicial de aquecimento causado pela ação humana, com a primeira intensificação de queima de combustíveis fósseis após o início da Revolução Industrial, a partir dos anos 1860. Medições diretas de temperatura dos oceanos, no entanto, só mostram esse processo 80 anos mais tarde.

Somando essa informação à aceleração do aumento das temperaturas em terra firme, o total do aumento médio da temperatura hoje seria cerca de 0,5°C superior ao calculado pelo IPCC, o painel climático das Nações Unidas.

Alguns pesquisadores que não participaram do estudo, no entanto, afirmam que a maneira como essas descobertas foram comunicadas apresentam falhas, com potencial para acrescer uma confusão desnecessária ao debate público sobre o aquecimento global.

Para Yadvinder Malhi, do Instituto de Mudanças Ambientais da Universidade de Oxford, os dados das emissões de carbono produzidas pelos seres humanos até 1900 sugerem que elas seriam insuficientes para produzir 0,5°C de aquecimento durante o século 19. O mais provável, segundo ele, caso os dados estejam corretos, é que boa parte desse aquecimento apontado a partir da análise das esponjas marinhas tenha origem natural.