Um estudo do ano passado alertou que uma importante corrente oceânica no Atlântico estava se tornando menos intensa, o que poderia ter consequências irreversíveis no clima do planeta e a vida em sociedade. O Olhar Digital reportou o caso aqui.

Agora, novos dados confirmam essa hipótese. Para piorar a situação, um sistema de alerta precoce desenvolvido por estudiosos da Universidade de Utrecht (Holanda), indica que esse colapso está mais próximo do que previsto.

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Mudanças na corrente oceânica do Atlântico

O estudo, de julho do ano passado, apontava que a corrente de circulação do Oceano Atlântico estava se tornando mais lenta e menos resiliente.

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Chamada de AMOC (sigla em inglês para Circulação Meridional do Atlântico), a corrente é considerada um dos “elementos de inclinação” mais vulneráveis do planeta. Ou seja, um impacto nela trará mudanças no globo inteiro.

Na prática, ela funciona como um sistema que transfere água salgada quente para o norte. Durante o trajeto até lá, ela esfria e se torna mais densa, o que faz com que afunde. Então, abre espaço para mais água quente subir do sul e preencher seu espaço, em ciclo contínuo.

O estudo sugere que o aquecimento contínuo, o derretimento das calotas polares e o aumento das chuvas vai levar a AMOC a “ponto de inflexão”, em que as concentrações de sal na água diminuem, tornando-a menos densa. Com isso, o processo se desequilibra.

Circulação Meridional do Atlântico, enorme corrente oceânica que influencia o clima da Terra, está se movendo mais lentamente agora do que nos últimos mil anos e pode entrar em colapso, segundo novo estudo (Imagem: Met Office/Reino Unido)

Novas descobertas

Desde o ano passado, os pesquisadores continuaram trabalhando no estudo e modelaram forma de detectar o “ponto de virada” da corrente do Atlântico, o momento em que a concentração de sal vai desequilibrá-la. Eles fizeram isso por meio de sistema de alerta precoce baseado na salinidade do mar.

Eles já haviam estimado que o colapso da corrente aconteceria ainda neste século. Agora, apesar de ainda estarem reunindo os novos dados, preveem que o desequilíbrio total aconteça antes mesmo do que as simulações já sugerem.

Isso porque as novas informações mostram que a AMOC é mais sensível às mudanças do que as simulações sabiam. Em entrevista ao RealClimate, o climatologista Stefan Rahmstorf, da Universidade de Potsdam, que não esteve envolvido no estudo, afirma que os modelos climáticos superestimaram a estabilidade da corrente do Atlântico.

Esquema idealizado da corrente de circulação no Oceano Atlântico. O esquema representa os caminhos das águas superficiais (vermelhas), intermediárias (amarelas), profundas (azuis) e abissais (roxas) sobre a topografia inferior (sombreamento azul). Transições entre essas cores indicam transformações de massa de água, e linhas brancas tracejadas indicam as latitudes nominais das cinco matrizes de monitoramento AMOC (Diagrama reproduzido de Chidichimo et al [2023]).

Como a corrente do Atlântico impacta a Terra

  • Segundo os autores do último estudo em artigo para o The Conversation, as mudanças na temperatura global, no nível do mar e nas chuvas vão afetar “gravemente a sociedade”;
  • De acordo com o site ScienceAlert, a mudança na AMOC acontece ciclicamente ao longo de milhões de anos;
  • Em ocorrências anteriores, o Ártico se estende para o sul, levando a diminuição das temperaturas da Europa em até 15 °C, afetando as monções tropicais (alternância entre estações secas e chuvosas) e aquecendo ainda mais o Hemisfério Sul;
  • Isso será seguido de outros impactos em Terra, como afetar ecossistemas e a plantações, o que pode arriscar a segurança alimentar global;
  • Ainda, a circulação de correntes oceânicas, incluindo a do Atlântico, é importante para a absorção do carbono na atmosfera, que pode frear o aquecimento global.