Em toda a história da Astronomia, não são poucas as mulheres que precisaram lutar contra os preconceitos, contra o descrédito e derrubar as barreiras de gênero para poder dar a sua contribuição para a Ciência. Um dos exemplos mais notáveis é o de Vera Rubin, astrônoma americana revolucionária, que insistiu em não desistir e, graças à sua persistência e ao seu brilhante trabalho, conhecemos hoje um dos maiores mistérios do Universo: a matéria escura.

Nascida na Philadelphia em 1928, Vera Coper Rubin foi uma mulher à frente do seu tempo. Quando criança, tinha o hábito de passar horas na janela do seu quarto, à noite, olhando estrelas e contando meteoros. Com 14 anos, Vera já havia construído seu próprio telescópio para observar o Universo e já tinha convicção do que queria ser: uma astrônoma. 

[ A jovem Vera Rubin e o telescópio que ela construiu junto com seu pai – Créditos: Família Rubin  ]

Na Escola, se destacava em seus estudos, mas certa vez, um professor aconselhou que ela evitasse a carreira científica. Não havia espaço para mulheres naquela área. Este conselho Vera Rubin ignorou solenemente, e a sua carreira na Astronomia provou que na ciência não existe espaço para o preconceito.

Ao concluir o ensino médio ela decidiu estudar no Vassar College em Nova York, onde Maria Mitchell, primeira astrônoma profissional dos Estados Unidos e inspiração para Vera, havia sido professora. Lá ela concluiu o bacharelado em 1948 sendo a única formada em astronomia naquele ano. Então ela tentou ingressar numa pós-graduação em Princeton, mas foi rejeitada porque era mulher. Princeton só foi aceitar mulheres em seu programa de pós-graduação a partir de 1975.

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Vera sabia que receberia muitos “nãos” em sua carreira. Por isso, se candidatou para várias universidades. E ela foi aceita em duas: Harvard e Cornell. Mas resolveu ir para Cornell, para atender ao pedido de casamento de Robert Rubin, que já estudava lá. Como resposta à sua correspondência abrindo mão da vaga em Harvard, recebeu uma carta em que estava escrito: “Malditas mulheres. Sempre que consigo uma boa, ela vai embora e se casa”. Dá para imaginar o potencial devastador dessas palavras. Mas para Vera Rubin, elas lhe deram a segurança de que havia feito a escolha correta.

Em seu mestrado, Vera analisou os movimentos de 109 galáxias e propôs que elas deveriam interagir gravitacionalmente entre si. Ela defendeu sua dissertação em 1951, mas não conseguiu publicar o trabalho em nenhum periódico científico. Então, mesmo grávida de seu segundo filho, ela lutou para apresentar sua pesquisa na American Astronomical Society, onde foi amplamente criticada e seu trabalho, sumariamente rejeitado e esquecido. 

Vera Rubin não desistiu. Com apenas 23 anos, mãe de uma criança pequena e grávida de outra, iniciou seu doutorado na Universidade Georgetown, onde enfrentaria adversidades ainda maiores. Georgetown era uma universidade católica, conservadora e lhe impunha uma série de barreiras sexistas, como a necessidade de se reunir com seu orientador fora de seu gabinete, que ficava em uma ala proibida para as mulheres. Ainda assim, Vera obteve seu doutorado em 1954, defendendo a tese de que as galáxias no Universo se agrupam em aglomerados, ao invés de serem distribuídas aleatoriamente. 

[ Aglomerado galáctico SMACS J0723.3-7327 registrado pelo Telescópio Espacial James Webb. Como previsto por Vera Rubin, as galáxias se agrupam em aglomerados – Foto: NASA, ESA, CSA, STScI ]

Entre os anos de 1955 e 1965, ela trabalhou na mesma Universidade de Georgetown como pesquisadora e professora. Vera lutou para ter acesso aos grandes observatórios, como o do Monte Palomar, onde sequer havia banheiros para mulheres.

Em 65 ela entrou para a Carnegie Institute of Science, onde conheceu Kent Ford, um construtor de instrumentos que foi seu colaborador por muito tempo. Ford construiu um poderoso espectrógrafo que poderia ajudar Vera a comprovar suas teorias sobre os movimentos das galáxias. 

Mas a ideia daquele movimento peculiar na escala do Universo era altamente controversa. Só foi publicada em algumas revistas nos anos 70, mas foi rejeitada pela maioria dos astrônomos. Embora atualmente seja considerada uma ideia válida, a principal contribuição de Vera Rubin para a Ciência ainda estava por vir. 

[ Vera Rubin analisando dados de galáxias no Carnegie Institute of Science – Créditos: Carnegie Institute of Science ]

Decidida a evitar áreas polêmicas da astronomia, Vera começou a estudar a rotação de galáxias espirais, medindo as velocidades de suas estrelas individualmente. Não conseguimos enxergar diretamente o movimento das estrelas em galáxias distantes porque vivemos muito pouco tempo para notar alguma diferença. Mas graças ao efeito doppler, que torna qualquer fonte de luz mais avermelhada quando está se afastando e mais azulada quando está se aproximando, podemos calcular a velocidade das estrelas a partir da observação do seu espectro. E quando Vera Rubin fez isso calculando o deslocamento para o vermelho das estrelas em diferentes regiões das galáxias, chegou a uma conclusão surpreendente.

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Pelos postulados de Kepler, era esperado que as estrelas mais afastadas do centro galáctico tivessem uma velocidade orbital bem menor em relação às mais próximas. Entretanto, as medidas feitas por Vera nas estrelas de várias galáxias mostraram que elas mantêm praticamente a mesma velocidade em todo o disco da galáxia. Isso só seria possível se as galáxias fossem cercadas por grandes quantidades de matéria, capaz de interagir gravitacionalmente com as estrelas, mas que não emitissem nem refletissem nenhum tipo de calor ou luminosidade. Algo que já havia sido proposto desde os anos 30 para explicar porque as galáxias pareciam bem mais massivas que a soma das massas de todas as suas estrelas. Vera Rubin havia comprovado a existência da matéria escura, um dos maiores mistérios do Universo.

Só a partir desta descoberta, que Vera Rubin passou a ser respeitada de fato e ter seus méritos reconhecidos em todo o mundo. Ela recebeu diversos prêmios em honra às suas contribuições para a Ciência. Vera Rubin morreu em 2016, deixando para a humanidade dois grandes mistérios: a matéria escura e o porquê dela não ter ganho um Nobel por sua descoberta.

Mas, embora possamos contar, com orgulho, a história vitoriosa e inspiradora da Vera Rubin, nos envergonha as histórias que infelizmente não podemos contar. Histórias desconhecidas de mulheres que não tiveram a mesma força ou as  mesmas condições para enfrentar as adversidades que aquela menina, que observava estrelas da janela do seu quarto, precisou superar para se tornar Vera Coper Rubin, a “Lady das Galáxias” e “Mãe da Matéria Escura”.