Expansão acelerada do Universo: um dos maiores mistérios da ciência

Universo está em expansão e teve origem em uma grande explosão. Mas, nos anos 1990, os astrônomos fizeram uma descoberta inesperada

Nas últimas colunas, exploramos como medimos distâncias no Universo, desde a paralaxe estelar até as variáveis cefeidas estudadas por Henrietta Leavitt e o brilho das supernovas Ia desvendado por Cinkhandrasekhar. Vimos como, há 100 anos, Edwin Hubble descobriu que a maioria das galáxias está se afastando de nós – e que, quanto mais distante a galáxia, maior sua velocidade de afastamento. Isso nos levou à conclusão de que o Universo está em expansão e teve origem em uma grande explosão. Mas, nos anos 1990, os astrônomos fizeram uma descoberta inesperada, algo que desafia nossa compreensão do Cosmos até hoje: a expansão do Universo não apenas ocorre, mas ocorre de forma acelerada.

Continua após a publicidade

Mas como a ciência chegou a esta conclusão? E o que pode estar fazendo o Universo crescer cada vez mais rápido? Para entender isso, precisamos voltar à base das medições que revelaram a expansão do cosmos.

Edwin Hubble chegou à conclusão de que o Universo está se expandindo ao medir a distância e a velocidade de afastamento de diversas galáxias. As velocidades foram determinadas pelo desvio para o vermelho das linhas espectrais, enquanto as distâncias foram calculadas a partir do brilho de variáveis cefeidas observadas nessas galáxias. A relação entre distância e velocidade era tão evidente que podia ser expressa por uma fórmula matemática simples: a velocidade de afastamento de uma galáxia é proporcional à sua distância, com um fator de proporcionalidade chamado de Constante de Hubble. Essa constante representa a própria taxa de expansão do Universo.

[ Gráfico ilustrando a “Lei de Hubble” e sua constante (H, também representada por H0) – Imagem: Reprodução AstroPT ]

Desde essa descoberta, astrônomos vêm refinando suas medições para obter um valor mais preciso da Constante de Hubble e compreender melhor a evolução cósmica. No entanto, havia um problema: o método das cefeidas só funciona bem para galáxias próximas, onde conseguimos distinguir o brilho individual dessas estrelas variáveis. Além disso, algumas dessas galáxias sofrem influência gravitacional do Grupo Local, o que pode afetar as medições. Mas o maior desafio era que, ao observar apenas galáxias próximas, nossa visão ficava limitada tanto no espaço quanto no tempo.

Leia mais:

Afinal, a luz tem uma velocidade finita. Isso significa que, quanto mais distante um objeto está, mais tempo sua luz demora para chegar até nós. Ou seja, olhar para longe no espaço é olhar para trás no tempo. E foi quando passamos a utilizar as supernovas Ia como ‘réguas cósmicas’ para medir distâncias em escalas muito maiores, que a grande surpresa se revelou.

Até a década de 1990, acreditava-se que a expansão do Universo estivesse desacelerando. Essa era a conclusão mais lógica, já que a gravidade de toda a matéria deveria atuar como uma força de contração, resistindo à expansão. Se isso fosse verdade, a taxa de expansão deveria ser maior no passado, algo que poderíamos comprovar medindo a Constante de Hubble em galáxias muito distantes  e, consequentemente, mais antigas.

[ Hubble eXtreme Deep Field (XDF) – Milhares de galáxias em um campo de visão muito estreito. Quanto mais afastada a galáxia, mais avermelhada ela aparece – Créditos: NASA / ESA ]
Continua após a publicidade

Porém, em 1998, duas equipes independentes usaram supernovas Ia para medir a taxa de expansão do Universo em galáxias distantes. E ambas chegaram ao mesmo resultado surpreendente: em vez de uma Constante de Hubble maior no passado, os dados indicavam exatamente o oposto. No passado, o Universo se expandia mais devagar — e isso significa que essa expansão está acelerando! 

Essa descoberta rendeu o Prêmio Nobel de Física de 2011 a Saul Perlmutter, Brian Schmidt e Adam Riess e causou uma revolução na cosmologia. Se a gravidade deveria frear a expansão do Universo, o que estaria impulsionando essa aceleração? Até hoje, não temos uma resposta definitiva. Mas os cientistas deram um nome a essa força misteriosa: ‘energia escura’. Trata-se de uma forma de energia de natureza desconhecida, que permeia todo o espaço e age em oposição à gravidade, impulsionando a expansão acelerada do Universo.

Continua após a publicidade

A ideia de uma energia que preenche o espaço, no entanto, não é nova. O próprio Einstein, ao formular a Teoria da Relatividade Geral, introduziu a ‘constante cosmológica’, um termo matemático que representava uma força repulsiva capaz de equilibrar a gravidade e manter o Universo estático. Mas, quando Hubble descobriu a expansão do Universo, Einstein descartou essa ideia, chamando-a de seu ‘maior erro’. Ironia do destino, décadas depois, a constante cosmológica ressurgiu como uma forte candidata a explicar a energia escura!

Mas a energia escura não impacta apenas nosso entendimento do presente. Se a expansão do Universo nos ajuda a compreender suas origens, ela também nos dá pistas sobre seu destino. O futuro do cosmos depende do delicado equilíbrio entre a energia escura e a gravidade. Se, em algum momento, a gravidade prevalecer, o Universo poderá colapsar em um Big Crunch, um ‘Big Bang às avessas’. Se a energia escura for dominante, a expansão poderá se tornar tão intensa que o próprio tecido do espaço-tempo se fragmentaria em um cenário extremo chamado ‘Big Rip’. Mas se a energia escura e a gravidade se mantiverem em equilíbrio, o Universo se tornará cada vez mais frio, escuro e vazio, com as galáxias se afastando até se tornarem ilhas isoladas num oceano cósmico infinito.

Continua após a publicidade
[ Destino do Universo em função do equilíbrio entre gravidade e energia escura – Imagem: NASA ]

Para determinar qual desses destinos nos aguarda — e para entender melhor a história da evolução do nosso Universo — precisamos decifrar a natureza da energia escura, que permanece um dos maiores enigmas da ciência. Para isso, os astrônomos estão desenvolvendo instrumentos de última geração, como o radiotelescópio BINGO, o Telescópio Espacial Euclides e o Nancy Grace Roman, que mapearão a distribuição da energia escura em diferentes eras da evolução cósmica. Talvez, com esses novos olhos voltados para o Universo, possamos finalmente revelar um dos grandes mistérios da física moderna.

Sem dúvida, a energia escura é um dos mais desafiadores enigmas da cosmologia moderna e, ao mesmo tempo, uma das maiores oportunidades para a ciência. Assim como Leavitt revelou a régua cósmica das cefeidas, Hubble desvendou a expansão do Universo e Chandrasekhar estabeleceu fundamentos essenciais para a medição de grandes distâncias cósmicas, estamos agora diante de mais um momento decisivo na história do nosso conhecimento do Cosmos. 

Continua após a publicidade

Desvendar os mistérios da energia escura poderá não apenas revolucionar nossa compreensão sobre o Universo, suas origens e seu destino, mas também transformar as próprias fundações da física. Isso poderá ser a ponte para novas teorias que unifiquem a relatividade geral e a mecânica quântica, e talvez até revelar aspectos desconhecidos do espaço-tempo. Esse não é o capítulo final dessa história, mas certamente é um dos mais intrigantes. E as descobertas que estão por vir podem redefinir, mais uma vez, a nossa visão do Universo e do nosso lugar nesta imensa arena cósmica. 

Marcelo Zurita
Marcelo Zurita

Pres. Associação Paraibana de Astronomia; membro da Sociedade Astronômica Brasileira; diretor técnico da Rede Brasileira de Observação de Meteoros – e coordenador regional do Asteroid Day Brasil

Gostou? Compartilhe! Ajude mais pessoas a ficarem informadas.
Prefira o OD no Google
Ícone Whatsapp Ícone Whatsapp Ícone Instagram Ícone Facebook Ícone Linkedin Ícone Telegram Ícone Email